quarta-feira, 29 de outubro de 2008


“O Silêncio.
Não, os silêncios.
Poderia escrever um breve ensaio sobre o silêncio. Ou antes, um catálogo de silêncios para boa ilustração dos surdos.
O silêncio que precede as emboscadas;
O silêncio no instante do penálti;
O silêncio de uma marcha fúnebre;
O silêncio dos girassóis;
O silêncio de Deus depois dos massacres;
O silêncio de uma baleia agonizando na praia;
O silêncio das manhãs de domingo numa pequena aldeia do interior do Alentejo;
O silêncio da picareta que matou Trotsky;
O silêncio da noiva antes do sim.
Etc.
Há silêncios plácidos e outros convulsos. Silêncios alegres e outros dramáticos. Há aqueles que cheiram a incenso, e os que tresandam a estrume. Há os que sabem a goiabas maduras; os que se guardam no bolso interior do casaco, juntamente com a fotografia do filho morto; os que andam nus pelas ruas; os silêncios arrogantes e os que pedem esmola.”

José Eduardo Agualusa in “As Mulheres do meu Pai”

Uma enumeração não exaustiva dos silêncios, a que poderíamos adicionar muitos outros, carregados todos eles das mais diversas emoções humanas, espelhando na natureza humana a expressão dos sentidos mais profundos que cada um vivencia. Hoje, apenas quero lembrar o silêncio expresso no sorriso das crianças, com tecto, sem fome, com o carinho e atenção dos pais e amigos, sem atropelos aos seus direitos e à sua liberdade, com o futuro risonho no horizonte, sem qualquer mácula para todos nós.
E tudo isto, porque tive uma infância maravilhosa, graças aos meus Pais, familiares e amigos, a quem presto a minha homenagem.

3 comentários:

Luísa disse...

Também tive muitos desses sorrisos silenciosos, quando a minha Mãe me contava histórias, ou o meu Pai vinha espreitar o meu sono e eu fingia dormir. Tivemos – e queira Deus que continuemos a ter - muita sorte, Flip. :-)

Flip disse...

luísa,
amen :-)

Once disse...

deliciosa homenagem esta Caro Amigo ..
tivemos sim, junto-me eu :)