quinta-feira, 30 de Abril de 2009

imagem de guitarrista na Rua do Ouro, Lisboa
Toda a poesia, e a canção é uma poesia ajudada, reflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre, e a canção dos povos alegres é triste. O Fado, porém, não é alegre nem triste. É um episódio de intervalo. Formou-o a alma portuguesa quando não existia e desejava tudo sem ter forças para o desejar. As almas fortes atribuem tudo ao Destino; só os fracos confiam na vontade própria, porque ela não existe. O fado é o cansaço de alma forte, o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e que também o abandonou. No fado os Deuses regressam, legítimos e longínquos.»
Fernando Pessoa, in «Notícias Ilustrado», 14.04.1929

Aproximam-se as eleições e começamos a ser inundados com as sondagens. Se fosse agora fulano tal era eleito, se fosse hoje era o partido x que ganharia, etc etc.
Confesso que não ligo a sondagens, encaro-as como exercício das máquinas políticas para influenciarem o eleitorado, são manobras ou tácticas usadas para a conquista do poder.
Baseiam-se, afinal, em processos de intenção, falíveis.
Podem ser objecto de manipulação? Acredito que sim.
Por isso, não insistam.
Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
já todo o mundo é diferente.
Já outro ar me rodeia;
outros lábios o respiram;
outros aléns se tingiram
de outro Sol que os incendeia.
Outras árvores se floriram;
outro vento as despenteia;
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.
Momento, tempo esgotado,
fluidez sem transparência.
Presença, espectro da ausência,
cadáver desenterrado.
Combustão perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandescência sombria.
Tudo é foi. Nada acontece.
António Gedeão, in "Movimento Perpétuo", 1956
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
já todo o mundo é diferente.
Já outro ar me rodeia;
outros lábios o respiram;
outros aléns se tingiram
de outro Sol que os incendeia.
Outras árvores se floriram;
outro vento as despenteia;
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.
Momento, tempo esgotado,
fluidez sem transparência.
Presença, espectro da ausência,
cadáver desenterrado.
Combustão perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandescência sombria.
Tudo é foi. Nada acontece.
António Gedeão, in "Movimento Perpétuo", 1956
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Existem várias lendas sobre a origem da mulher. Uma diz que Deus pôs o primeiro homem a dormir, inaugurando assim a anestesia geral. Tirou uma das suas costelas e, com ela, fez a primeira mulher. A primeira provação de Eva foi cuidar de Adão e aguentar o seu mau humor enquanto ele convalescia da operação. Uma variante desta lenda diz que Deus, que já tinha ultrapassado o prazo da Criação, fez o homem à pressa, pensando "OK. Depois eu melhoro". Mais tarde, com o tempo, fez uns melhoramentos, a que chamou mulher, que é "melhor" em aramaico. Outra lenda diz que Deus fez a mulher primeiro. Esmerou-se nas suas formas. Aparou aqui e tirou dali, e com o que sobrou fez o homem. Só para aproveitar o barro. Em certas tribos nómadas do Médio Oriente, ainda acreditam que a mulher foi, originariamente, um camelo, que na ânsia de servir seu mestre se foi transformando até adquirir sua forma actual. No Extremo Oriente, uma lenda considera que as mulheres caem do céu, já de kimono. Já no Ocidente, persiste a crença de que mulher se compra através de anúncios, normalmente via telefone, podendo-se escolher idade, cor da pele e o tipo de massagem. Todas estas lendas, claro, têm pouco a ver com a verdade científica. Hoje sabe-se que o homem é o produto de um processo evolutivo que começou com a primeira ameba a sair do mar primevo. É descendente directo de uma linha específica de primatas, tendo passado por várias fases até atingir o seu estado actual. Aí encontrou a mulher, que ainda ninguém sabe, realmente, de onde veio.
Luís Fernando Veríssimo
quarta-feira, 29 de Abril de 2009
"Há 30 anos que desfilam as mesmas caras, se ouvem as mesmas vozes, se lêem as mesmas frases com monótona aridez. O País é domado por um grupo sem prestígio mas com poder. Esperávamos um sistema, emergiu um domínio. A erupção do "bloco central de interesses" (ou seja: a divisão do bolo entre PS e PSD) assinala a degenerescência de Abril num atoleiro. Deixou de haver afinidades ideológicas e as convicções foram substituídas por uma cronologia contínua, destinada ao enriquecimento de alguns, e que encobre, afinal, as ausências de carácter e as trapalhadas das mudanças de partido."
No DN - Baptista Bastos "Sem novidades de cá"
No DN - Baptista Bastos "Sem novidades de cá"
terça-feira, 28 de Abril de 2009

Igualdade...uma utopia.
É conceito que serve para ‘vender’ promessas e obter votos, tenho para mim que a sua concretização plena dificilmente vingará um dia.
É meramente programática, simplesmente ideológica, gera expectativas politicamente exploradas, provocando, posteriormente, pela sua impraticabilidade, sonhos desfeitos. Ainda há quem acredite e continue sonhando, prefiro não, até porque durmo profundamente.
segunda-feira, 27 de Abril de 2009
Hoje de manhã consegui esconder meia dúzia de palavras. Só as vou libertar lá mais para o fim do dia. Tinha em mente a sua utilização no fim da tarde e para que elas não fugissem agi assim. Pu-las de quarentena. Elas não reclamaram. Uma delas confessou-me até que os poetas as faziam levantar muito cedo, mas, regra geral, disse ela, recorrem a nós mais durante a madrugada, partilhamos versos com eles, bailamos nas suas cabeças, nos seus teclados e canetas e gostamos, sentimo-nos bem, e adoramos conviver com os candeeiros, há várias gerações que nos damos bem com eles, somos todos amigos e construímos juntos obras assinaláveis. Quando o sol se pôs libertei-as, não reclamaram de ter ficado sossegadinhas na prateleira e então fiz-lhes uma surpresa, apresentei-lhes o meu candeeiro novo, foi uma festa, entabularam conversação e só eu e a luz ficámos como testemunhas do facto. A noite chegou, olhou para mim e sorriu, estivemos todos na maior animação, até agora, pouco fizemos, praticamente.

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.
Miguel Torga
domingo, 26 de Abril de 2009
Hoje apetecia-me pedir o corpo emprestado a uma gaivota, voaria mar adentro até ao pôr-do-sol, faria escalas em barcos de recreio para descansar um pouco as asas e quando lá chegasse, antes do sol começar a aquecer a outra metade do planeta, já teria em meu poder luz bastante para iluminar o caminho para a eternidade. O pior é navegar sózinho, não partilhar a felicidade durante o trajecto. Por isso vou adiando falar no assunto à gaivota.
sábado, 25 de Abril de 2009

“apalpar manhãs”
sonhei que estava enamorado pela palavra antigamente.
eu sorria muito nesse sonho – fossem gargalhadas. aproveitei a ponta desse sorriso e fiz um escorrega. deslizei. tombei no início de uma manhã.
pensei ver duas borboletas mas [riso] eram duas ramelas. peguei nas duas: o peso delas dizia que eu estava acordado. [a partir do tom amarelado das ramelas é possível apalpar manhãs].
então vi: nos dedos, na pele do corpo por acordar, estavam manchas muito enormes: eram manchas de infância
gosto muito desse tipo de varicela.
Ondjaki in "Materiais para a confecção de um espanador de tristezas" (poesia, 2008)
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imagem no "DN" de hoje
"Há uma Justiça para ricos e outra para pobres, uma Justiça para famosos e outra para anónimos, como há Saúde e Educação diferentes para ricos e pobres. Cumprir Abril é uma questão de justiça. Já não podemos esperar mais 35 anos".
Paulo Baldaia, director da TSF, "Jornal de Notícias",
"...A situação do ensino não é felicitante. Ah!, aquela abertura apressada e sem critério de Universidades, para ganhar eleições! O fosso entre os muito ricos e os muitos pobres é cada vez mais fundo e parece que o maior da União. A corrupção campeia. Quem acredita ainda no sistema judicial? E os jovens desinteressam-se pela política, como que para evitar um lugar mal frequentado. Que Abril foi esse que, passados 35 anos, ainda permite 2 milhões de pobres? E quem sabe o que vem aí?
Ainda é de ânimo que falamos, quando o que nos visita é o desânimo? Sim, é ainda de ânimo, se o desânimo se tornar força dialéctica para a sua autosuperação.(...)"
no DN - 35 anos depois por ANSELMO BORGES
No jornal digital:
"Uma sondagem da SIC, Expresso e Rádio Renascença revela que quase 78 dos portugueses por cento concorda com as candidaturas independentes à Assembleia da República e que a grande maioria não se revê nos políticos.
Um estudo realizado para a SIC, Expresso e Rádio Renascença, entre os dias 25 a 31 de Março, com recurso a 1018 entrevistas telefónicas validadas revela que 77 por cento dos portugueses não se revêem nos partidos políticos contra 16 por cento que afirmam o contrário.
72 por cento dos portugueses acredita que os interesses próprios motivam a acção dos políticos, 17 por cento discordam, 78 por cento dos inquiridos concorda que candidaturas independentes ao Parlamento devem ser possíveis, fora dos partidos."
Este 25 de Abril deveria ser para (re)pensar, a voz na Assembleia da República deveria ter sido dada ao próprio povo, ele é que deveria ir lá discursar sobre o que significa o 25 de Abril estes anos todos, as expectativas e as aspirações, o tempo actual e as frustrações da maioria, o capital que circula só por meia dúzia de bolsas, a destruição do aparelho produtivo e a mudança enorme na legislação laboral que consagra um futuro precário para os jovens, os demais discursos são pura e simplesmente os discursos do costume, da circunstância, das boas intenções blá blá blá...e de boas intenções...
sexta-feira, 24 de Abril de 2009
arabescos de Lisboa - foto flipvinagre
A vida é primariamente encontrar-se, cada qual, submergido entre as coisas, e enquanto é apenas isso consiste em sentir-se absolutamente perdido. A vida é perdição. Mas por isso mesmo obriga, quer queiramos quer não, a um esforço para se orientar no caos, para se salvar dessa perdição. Este esforço é o conhecimento que extrai do caos um esquema de ordem, um cosmos. Este esquema do universo é o sistema das nossas ideias ou convicções vigentes. Quer queiramos quer não, vivemos com convicções e de convicções. O mais teoreticamente céptico existe apoiando-se num suporte de crenças sobre o que as coisas são. A vida é absoluta convicção. A dúvida intelectual mais extrema é vitalmente uma absoluta convicção de que tudo é duvidoso. E algo ou tudo ser duvidoso não é uma crença num ser menor do que qualquer outra de aspecto mais positivo.
Ortega y Gasset, in 'O Que é a Vida?'

Não gosto de festas. Aborrece-me a conversa fiada, o fumo, a alegria fátua dos bêbados. Irritam-me ainda mais os pratos de plástico. Os talheres de plástico. Os copos de plástico. Servem-me coelho assado num prato de plástico, forçam-me a comer com talheres de plástico, o prato nos joelhos, porque não há mais lugares à mesa, e inevitavelmente o garfo quebra-se. A carne salta e cai-me nas calças. Derramo o vinho. Além disso odeio coelho. Faço um esforço enorme para que ninguém repare em mim, mas há sempre uma mulher que, a dada altura, me puxa pelo braço, vamos dançar?, e lá vou eu, de rastos, atordoado pelo estrídulo dissonante dos perfumes e o volume da música. Terminado o número, um tanto humilhado porque, confesso, tenho o pé pesado, sirvo-me de um uísque, com muito gelo, mas logo alguém me sacode, o que foi, meu velho, estás chateado?, e eu, que não, esforçando-me por sorrir, esforçando-me por rir às gargalhadas, como o resto da chusma, chateado? por que havia de estar chateado?, o dever da alegria chama-me, grito, lá vou, lá vou, e regresso à pista, e finjo que danço, finjo que estou feliz, pulando para a direita, pulando para a esquerda, até que se esqueçam de mim. Naquela noite estava quase a ser esquecido quando reparei num sujeito alto, todo vestido de branco, como um lírio, alva cabeleira à solta pelos ombros, a rondar sombriamente os pastéis de bacalhau. O homem parecia estar ali por engano. Achei-o de repente tão desamparado quanto eu. Podia ser eu, excepto pela roupa, pois evito o branco. O branco não é muito apropriado para o meu negócio. Menos ainda as cores garridas. Obedeço ao lugar-comum — visto-me de negro. Aproximei-me do homem, numa solidariedade de náufrago, e estendi-lhe a mão.
— Sou Fulano — disse-lhe. — Vendo caixões.
A mão do homem (entre a minha) era lassa e pálida. Os olhos tinham um brilho escuro, vago, como um lago, à noite, iluminado pela luz do luar. A maioria das pessoas não consegue disfarçar o choque, ou o riso, depende da circunstância, quando escutam a palavra caixões. Alguns hesitam: paixões? Não, corrijo, caixões. O sujeito, porém, permaneceu imperturbável.
— Nenhum nome é verdadeiro —, respondeu-me, com forte sotaque pernambucano. — Mas pode me chamar Emanuel Subtil.
— E o que faz o senhor?
— Sou professor...
— Ah Sim? E de quê?
Emanuel Subtil sacudiu a cabeleira num movimento distraído:
— Dou aulas de levitação.
— Levitação?!
— Levitação, sabe?, fenômeno psíquico, anímico, mediúnico, em que uma pessoa ou uma coisa é erguida do solo sem um motivo visível, apenas devido ao esforço mental. A mente movimenta fluidos ectoplasmáticos capazes de vencer a força da gravidade. Eu ensino técnicas de levitação. Sem arames nem outros truques soezes.
— Interessante! Muito interessante! —, respondi, tentando ganhar tempo para pensar. — E tem muitos alunos?
O homem sorriu-me gravemente. É certo que não, disse, nos dias de hoje são poucas as pessoas interessadas em levitar. Tristes tempos estes. O triunfo do materialismo tem vindo a corromper tudo. Escasseiam as vocações para as obras do espírito. As vocações e a força mental — sugeri timidamente. Sim, confirmou Emanuel Subtil, sacudindo outra vez a magnífica cabeleira branca, e a força mental. As pessoas preferem manter os pés bem assentes na terra. E levitava, ele?, quis eu saber. Isto é, praticava com freqüência essa arte esquecida? Emanuel Subtil sorriu absorto:
— Não há dia em que não pratique. Levitar, meu caro senhor, é o mais completo dos exercícios. Cinco minutos em suspensão, logo pela manhã, ao romper da alva, estimula todos os órgãos vitais e regenera a alma.
Inclusive acontecia-lhe às vezes levitar por descuido. Contou-me que São José de Copertino, que viveu entre 1603 e 1663, sofria ataques de imponderabilidade sempre que algo o emocionava. Chamava a isso, com terror, "as minhas vertigens". Um domingo, durante a missa, elevou-se no vazio e durante largos minutos pairou numa aflição sobre o altar, em meio à chama aguda das velas, e ao alarido das beatas, ficando gravemente queimado. A igreja afastou-o, durante 35 anos, de todos os rituais públicos, em razão destas práticas extravagantes, mas nem isso impediu que a sua fama se propagasse. Uma tarde, passeando o santo homem pelos jardins do mosteiro, em companhia de um monge beneditino, foi subitamente arrastado até aos ramos mais altos de uma oliveira por um golpe de vento. Infelizmente sucedia com ele o mesmo que com os gatos, ou os balões, toda a sua propensão era para subir, não para descer, de forma que os monges tiveram de o resgatar de lá com o auxílio de uma escada. Murmurei qualquer coisa sobre a vocação mística das oliveiras, a tendência que demonstram, desde há milênios, para acolherem santos e demiurgos. Emanuel Subtil, porém, ignorou a minha observação. O caso de São José de Copertino, explicou, servia-lhe somente para ilustrar os perigos que incorre um leigo, ainda que excepcionalmente talentoso, ao praticar a arte da levitação sem o acompanhamento de um mestre:
— Você oferecia um Ferrari a uma criança? Certamente que não!
Concordei logo. É claro, por amor de Deus!, não o punha nem nas minhas mãos.
— Levitar não é para qualquer um, — prosseguiu Emanuel Subtil carregando nas palavras. — Levitar exige fé, perseverança e ainda algo mais: responsabilidade. Quer tentar?
E logo ali expôs as suas condições. Trezentos reais por mês. Quatro vezes por semana. Uma hora cada sessão. Naturalmente, acrescentou, seria impossível observar resultados antes de três a quatro meses.
— E se não obtiver resultados?
Emanuel Subtil sossegou-me. Em três meses, convenientemente orientado, até um elefante consegue levitar. Mas ainda que eu me revelasse tão mau levitador quanto bailarino (só então percebi que passara a noite a observar-me) ele próprio me daria um empurrão. Citou-me o caso de um famoso médium inglês, Daniel Douglas Home, que nos anos trinta desafiava a tradicional fleuma britânica fazendo flutuar pianos e outros objectos pesados. Conta-se que uma noite levou um boi para o salão de um rico industrial, e o ergueu no ar. Ia o boi ao nível dos lustres, bem alto e iluminado, quando, por distracção ou um repentino desfalecimento de fé, lhe falharam as forças (ao médium), romperam-se os fluidos ectoplasmáticos, e o animal precipitou-se, com brutal fragor, sobre duas das acólitas.
— Morreram?
— O que lhe parece? — Suspirou. — A história da aeronáutica está cheia de tragédias, pequenas e grandes, mas nem por isso deixamos de andar de avião.
Declinei o convite. A festa chegara ao fim. Um velho negro dançava sozinho, de lágrimas nos olhos, alheio à música, vamos chamar-lhe música, uma mistura de alarme de carros, já rouco e exausto, e metais em convulsão. Duas raparigas muito loiras, muito lânguidas, dormiam abraçadas num sofá. Eu não conhecia ninguém. Ninguém me conhecia.
—Talvez você saiba de alguém que dê aulas de invisibilidade. Nisso estou interessado.
Emanuel Subtil olhou-me com desdém. Não respondeu. Já no hall, enquanto escolhia um guarda-chuva discreto, conforme ao meu ofício, entre um denso molhe deles, ainda vi o brasileiro abrir caminho através do fumo espesso e desabar no sofá, junto às duas raparigas loiras. Vi-o fechar os olhos. Cruzar os braços sobre o peito magro. Pareceu-me que sorria. Tenho conhecido gente um pouco estranha nestas festas. Existe de tudo. As ocupações mais bizarras. Eu sei, é claro, que isso depende sempre da perspectiva. Eu, por exemplo, vendo caixões. O meu pai vendia caixões. O meu avô vendia caixões. Cresci nisto. Acho até prosaico. Preferia, reconheço, dar aulas de levitação. Paciência. Consola-me saber que a morte é melhor negócio. Como o meu avô dizia - só uma coisa me aflige: a imortalidade.
José Eduardo Agualusa in Manual prático de levitação
quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Painel de Nuno Siqueira no Metro (Olivais)
O Metro ia apinhado, era hora de ponta. Ela tinha horror das multidões e sofria um pouco de claustrofobia. Não tinha alternativa, estava atrasada, o Metro era a opção obrigatória. Faltavam três paragens para o seu destino, ela mentalizava-se que era uma questão de poucos minutos. De repente, uma travagem repentina, ela, que ia em pé, viu-se abraçada a um cavalheiro ao seu lado. Ficou ruborizada, mas ele devolveu-lhe um sorriso e ela correspondeu. Ela pensava que era o fim dos seus dias de solidão e de aperto, ela adorou o encontro, o seu olhar de soslaio não largava aquela figura masculina. A sua estação de destino aproximava-se e ela não conseguiu resistir, despediu-se dele com um bom dia ternurento. Ele quis sair também, mas entretanto, tendo hesitado, as portas fecharam-se e ficou retido na composição.
Não voltaram a ver-se, embora se procurassem, diariamente, naquela estação do Metro, acalentando ambos um fogo de paixão.
A estação do “Socorro” nunca mais foi a mesma.
Guia, Cascais - foto flipvinagre
Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Hoje, 23 de Abril é o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor.
A todos quantos acrescentam algo mais, ensinam, divertem, ajudam a passar o tempo, tornam imortais os pensamentos e o sentir, as suas reflexões e conhecimentos, aqui fica a homenagem devida. Pelo que li, várias são as autarquias e bibliotecas que estão a promover a oferta de livros, ler é fundamental, é uma das fontes do saber, uma excelente iniciativa.
quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Comemora-se o Dia da Terra.
Esta celebração foi criada em 1970 pelo Senador norte-americano Gaylord Nelsin, que convocou o primeiro protesto nacional contra a poluição.
Desde 1990 é celebrado em vários países e foi instituído como forma de chamar a atenção do homem, para a preservação do ambiente, o que implica uma atitude diária.
Por isso, todos os dias devem ser DIA da TERRA.

No DN:
"A revolução que falhou
por Baptista-Bastos
Que vamos comemorar no sábado? O "dia inicial inteiro e limpo" [Sophia de Mello Breyner]? Mas que resta desse dia? As ruínas de uma história que se perdeu nela própria. A avenida encher-se-á, como de hábito, e os discursos, no Rossio, alegres e decididos, dissimulam a melancólica gravidade de uma peregrinação que se faz por uma memória feliz, tornada triste e antiga.
Ocultamos a dor do que perdemos, é isso. A multidão reflui, gritando estribilhos antigos, miméticos e elementares. "Fascismo nunca mais!" "O poder está no povo!" "Os ricos que paguem a crise!" Animamos a nossa profunda descrença, com a ressurreição nostálgica de um tempo delido que vai ficando efeméride.(...)
Afinal, vamos comemorar a nostalgia."
terça-feira, 21 de Abril de 2009

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do meu próprio coração.
Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou a brancura de um amor que nos prendia.
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até ouvir
o meu sangue jorrar na voz das fontes.
Eugénio de Andrade

Chamavam-lhe metro e meio. Na realidade ele tinha 1,58m, mas não se importava, não dava ouvidos à ironia. Era franzino, sim, ele reconhecia isso, mas cada um deve resignar-se ao que a natureza lhe reservou. Um dia, o gato do Ministro Adjunto do Ministro xis, um animal de uma beleza ímpar, merecedor da maior consideração de todos os membros do governo e respectivas familias e até mesmo do partido, desapareceu, a última vez que o viram foi num bueiro, zás, jamais se soube dele. Ninguém o encontrava, bombeiros, as mais variadas entidades, nada, ninguém conseguia dar com o gato, textualmente falando. Até que o metro e meio numa terça-feira ensolarada, nunca mais me esqueço, pediu uma audiência ao dito Ministro. Respondendo sobre o motivo do seu pedido, afirmou que lhe queria falar sobre o gato. O Ministro, esperançado que ele houvera descoberto o seu belo animal, deu instruções para que fosse ouvido imediatamente e assim foi. Após os cumprimentos, o Ministro, ansioso, perguntou-lhe sobre o que lhe queria dizer sobre o gato. O metro e meio, num ar perfeitamente natural, disse-lhe que a razão da sua presença ali era meramente circunstancial, apenas queria saber se já se sabia alguma coisa do paradeiro do gato.
Ora cá está mais um 'senão' dos dias que correm. No JN:
"Vários autarcas usaram dinheiro das câmaras para pagar multas passadas, a título pessoal, pelo Tribunal de Contas, em vez de as saldarem do próprio bolso, como manda a lei. O Ministério Público será chamado a intervir.
Os casos foram detectados em inspecções correntes do Tribunal de Contas e já motivaram uma investigação mais aprofundada a outros gestores públicos, que também foram multados, para saber se também cometeram a ilegalidade ontem noticiada pela Lusa. Para já, apurou o JN, só foram encontrados autarcas que usaram o dinheiro dos contribuintes para saldar multas que deviam ter sido eles próprios a pagar.
No mínimo, adiantou fonte oficial do TC, todas as pessoas encontradas nestas circunstâncias serão obrigadas a repor o dinheiro em falta, que constitui uma receita do Orçamento de Estado; e no máximo, admitiu o secretário de Estado do Tesouro, Carlos Pina, poderá estar em causa responsabilidade criminal, uma vez que foi usado dinheiro público para pagar uma dívida pessoal. Além disso, o governante admite que poderão ser assacadas consequências disciplinares."
Deviam até ficar interditos ad eternum de se (re)candidatar estes abusadores do erário público.
"Vários autarcas usaram dinheiro das câmaras para pagar multas passadas, a título pessoal, pelo Tribunal de Contas, em vez de as saldarem do próprio bolso, como manda a lei. O Ministério Público será chamado a intervir.
Os casos foram detectados em inspecções correntes do Tribunal de Contas e já motivaram uma investigação mais aprofundada a outros gestores públicos, que também foram multados, para saber se também cometeram a ilegalidade ontem noticiada pela Lusa. Para já, apurou o JN, só foram encontrados autarcas que usaram o dinheiro dos contribuintes para saldar multas que deviam ter sido eles próprios a pagar.
No mínimo, adiantou fonte oficial do TC, todas as pessoas encontradas nestas circunstâncias serão obrigadas a repor o dinheiro em falta, que constitui uma receita do Orçamento de Estado; e no máximo, admitiu o secretário de Estado do Tesouro, Carlos Pina, poderá estar em causa responsabilidade criminal, uma vez que foi usado dinheiro público para pagar uma dívida pessoal. Além disso, o governante admite que poderão ser assacadas consequências disciplinares."
Deviam até ficar interditos ad eternum de se (re)candidatar estes abusadores do erário público.
segunda-feira, 20 de Abril de 2009

O intervalo chegou, ele ansiava respirar ar fresco. Foi até à janela do cinema e encheu os pulmões com aquele ar puro. Ao virar-se para o salão não viu ninguém, só ele havia aproveitado o intervalo para esticar as pernas. Caminhou um pouco de um lado para o outro, ia sacar uma cigarrilha para fumar quando sente uma mão pesada no seu ombro. Olhou para trás e viu que havia sido impressão sua, ninguém lhe havia tocado. Sugestão do filme que estava a ver? Talvez. Acabou o cigarro e foi para o seu lugar. A segunda parte do “Estranho caso da mão paralisante” ia recomeçar.

A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente,um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos – felizmente para mim e para os outros – mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher – na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e cousas parecidas – cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem – e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia... Isto explica, tant bien que mal, a origem orgânica do meu heteronimismo".
Fernando Pessoa. Carta a Adolfo Casais Monteiro, 13.Janeiro.1935
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Che
Che - Guerrilha - De: Steven Soderbergh - Com: Benicio Del Toro, Rodrigo Santoro, Demián Bichir
Che - O Argentino - De: Steven Soderbergh - Com: Benicio Del Toro, Julia Ormond, Pablo Guevara
Género: Biografia, Drama
A história de Che foi dividida em duas partes, “O Argentino” e “Guerrilha”.
Apesar de poderem ser vistas de forma independente as duas ‘fitas’, o filme só adquire o seu mais autêntico sentido na visão das duas. Porque, se uma não contraria a outra, o conjunto dá uma outra percepção da figura, do seu sentido e singular destino. Se “O Argentino” é o triunfo da revolução na sua ideia mais ‘pura’, “Guerrilha”, a segunda parte, representa o seu impasse, onde as ideias do revolucionário se mostram impotentes face a um mundo real onde elas não são entendidas. Neste caso, o idealista ‘puro’ acaba por se tornar o pior inimigo de si mesmo e das ‘ideias’, e conduzir todo o processo ao fracasso."
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Um dos heróis da juventude que vemos retratado no écran e que nos satisfaz a curiosidade. Bom filme.
domingo, 19 de Abril de 2009
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É frequente ver por aqui grandes paquetes passarem a caminho do porto de Lisboa. E isso recordou-me que em miúdo tive o enorme privilégio de viajar nos navios da Companhia Nacional de Navegação (CNN). Naveguei mar alto a bordo dos magníficos navios Vera-Cruz, Uíge, Príncipe-Perfeito e Pátria. Luanda- Lisboa e Lisboa-Luanda, com passagem pela ilha da Madeira, Canárias e por vezes um ou outro porto africano, eram escalas obrigatórias. O atlântico, esse mar imenso, atravessei-o, assim, várias vezes, ainda hoje lembro as vagas e vagalhões que num constante vai-e-vem tentavam derrubar-nos e nos punham em sentido, as emoções eram mais que muitas, mas quando a serenidade se impunha, o oceano que nos ocupava todo o horizonte, tornava-se dócil e molengão, os golfinhos acompanhavam-nos no percurso e as gaivotas e os albatrozes apanhavam boleia nas amuradas até onde lhes apetecia e à noite, com o luar, o eco do navio a sulcar o mar tinha um som calmo que chegava a embalar até as sereias, e nós espreguiçávamos nas cadeiras do convés enquanto ondas relaxantes pareciam sussurrar melodias compostas pelo vento, deixando-nos contemplativos, o firmamento na retina superava o melhor quadro. Recordo com saudade essa verdadeira prova de vida onde o mar ganhou o meu enorme respeito, e o homem do leme, a minha maior consideração.

The Visitor
De: Thomas McCarthy
Com: Richard Jenkins, Haaz Sleiman, Danai Jekesai Gurira
Género: Drama, Romance
Walter Vale (Richard Jenkins) é um professor universitário no Connecticut, viúvo, que perdeu todo o interesse pela convivência social e pelo seu trabalho. Durante vinte anos adnou a fingir que trabalhava, não viveu, não fez o que gostava de fazer na sua vida, enfim, foi-se arrastando pelos dias. Quando se desloca a Nova Iorque para assistir a uma conferência, encontra o seu apartamento naquela cidade ocupado por um casal de emigrantes, Tarek (Haaz Sleiman) e Zainab (Danai Jekesai Gurira, numa convincente estreia no cinema). Desfeito o equívoco (o par fora enganado por um ‘amigo’), os jovens prontificam-se a abandonar o apartamento, mas Walter acaba por lhes oferecer alojamento por essa noite. A noite transforma-se em dias, enquanto o professor vai descobrindo que se trata de emigrantes ilegais, à espera de um possível ‘cartão verde’ e sempre em alerta. Tarek, a pouco e pouco, faz Walter despertar para a vida, ensina o seu hospedeiro a tocar o seu tambor/djambé. Walter vai descobrindo um outro mundo e uma cultura viva e dinâmica, até ao dia em que o acaso, vestido de polícia, põe termo à relação, sendo Tarek preso e encarcerado, à espera que o seu destino seja resolvido. Walter luta pela liberdade e pelos direitos de Tarek, ao longo da qual vai conhecer a mãe do amigo, que lhe desperta sentimentos inesperados."
Um travo doce amargo marca o desenlace.
A ver, porque nos desperta que há mais vida para além das rotinas...

Perguntaram-lhe uma, duas, três vezes e ele, nada, dizia que não sabia, voltaram a perguntar-lhe se tinha a certeza que não sabia e ele confirmava, sim não sei, dizia ele, até que abriram o mapa e viram todos que ele tinha razão, quem ia saber que o raio da nota de cinco euros se tinha metido ali dentro? Por isso, quando alguém diz convictamente que não sabe, é porque uma nota de cinco euros se esconde, algures...mas há excepções!

Um anjo caiu do futuro e estatelou-se em pleno Chiado. Levantou-se, sacudiu a poeira das asas, ensaiou dois ou três passos, ainda um tanto aturdido, e finalmente interrogou Fernando Pessoa:
“Pode dizer-me em que tempo estou?”
Era Inverno, mas a noite, límpida e seca, poderia ser de Verão – excepto pelo frio. Nas ruas não se via alma. O poeta ergueu-se devagar do seu silêncio de bronze e espreguiçou-se. Estudou, sem surpresa, o viajante. Suspirou, enfim, morto de tédio:
“Em toda a parte o tempo é semelhante. De onde você vem, por exemplo, não há com certeza mais nem melhor futuro do que aqui. Eventualmente, haverá apenas um pouco mais de passado.”
O anjo era um tipo pálido e esguio. A sua silhueta recortava-se na noite como um simples traço de giz num quadro negro. Estava inteiramente nu e todavia isso não parecia incomodá-lo. Dir-se-ia imune ao frio. Fernando Pessoa esforçou-se durante um breve instante por aparentar alguma simpatia (há que ser simpático com os estrangeiros).
“Lá, de onde você vem, não se usam roupas?”
“Usam, mas ninguém viaja vestido através do tempo.”
Pessoa desinteressou-se do viajante e voltou a sentar-se. O outro postou-se muito sério diante dele; os olhos, de um azul etéreo, quase transparentes, fixaram-se nos olhos absortos do poeta. Falava pausadamente, num esforço por dar às palavras a sua inteira substância, sílaba a sílaba, como quem só há pouco aprendeu o idioma. O sotaque era macio e quente, um pouco cantado:
“O que eu quero é saber se este é o tempo das guerras.”
Fernando Pessoa encolheu os ombros magros:
“É tempo dos homens, o que vai dar o mesmo”. Indicou a cadeira ao seu lado esquerdo: “Não se quer sentar? Podemos fazer de conta que estamos os dois a beber um café…”
O anjo sentou-se de cócoras na cadeira, como um adolescente, o queixo apoiado nos joelhos e os braços prendendo as pernas. A cabeleira comprida, muito loira, quase lhe ocultava as asas.
“Vim em busca do ódio.”
“Veio em tempo certo. Lembro-me do ódio desde muito novo. Lembro-me do quanto eu lhe era alheio…Posso saber porque lhe interessa esse tema?”
“Curiosidade. Pense em mim como um investigador.”
“Compreendo”, murmurou Pessoa: “como um antropólogo entre os canibais.”
“ Não”, corrigiu o anjo: “como um zoólogo entre os chacais.”
Fernando Pessoa concordou. Visitavam-no ali, n’ A Brasileira, toda a espécie de excêntricos. Um viajante do futuro, nu e com asas, em busca do mal, era do mal o menos. Sentia pesar-lhe sobre as pálpebras um grande sono metálico. Queria fechar os olhos e dormir. O anjo, porém, não o largava:
“Veja –bem, o livre –arbítrio…”
“O que tem o livre- arbítrio?”
“O livre- arbítrio permite que o senhor adormeça nessa cadeira, agora, ou que se levante e vá pela cidade em busca da beleza da vida. O livre- arbítrio permite que os homens escolham entre o ódio e o amor…”
Fernando Pessoa começava a sentir um nervoso miudinho a subir-lhe pelas pernas. Seria o sono; seria aquele tipo com asas e a sua vã filosofia, ou tudo isso junto numa noite de Inverno. Cortou irritado:
“Pois o que eu quero é dormir!...”
O anjo assustou-se com a veemência do poeta.
“Certo. Consigo compreender a sua escolha. Mas entre o amor e o ódio o que leva um homem a escolher o ódio?”
Fernando Pessoa não respondeu. Vieram-lhe à memória, sem motivo algum, imagens da sua infância em África. Ele nunca falava daquele tempo. Os dias eram cheios de vento. Os ossos estacavam, ao sol, sob a pele, como coisas antigas. Algures, na imensidão das tardes, ladravam cães. Voltou a ouvir o eco disperso dos gritos. Um menino, numa bicicleta, fugindo da turba (teria roubado a bicicleta?). Certa ocasião, numa estrada abandonada, vira uma coisa incrível: uma roseira explodindo em pleno asfalto.
“ Não sei”, disse. “Talvez o vazio. Talvez as pessoas se tenham esquecido de que existe livre-arbítrio.”
O tempo mudou com a madrugada. Choveu. Uma água mole, exausta, que a luz do sol atravessava com esforço. Os primeiros transeuntes que passaram, apressados, diante d’A Brasileira, estranharam um pouco: não havia ninguém sentado à mesa do poeta.
José Eduardo Agualusa
Livre- arbítrio In “Contos Que Contam
sábado, 18 de Abril de 2009
"Escreve-se em solidão e lê-se em solidão, mas o acto de leitura permite a comunicação entre dois seres humanos."
Paul Auster
Paul Auster

Sobre a descolonização, escreveria o Grande Miguel Torga:
" Fomos descobrir o mundo em caravelas e regressámos dele em traineiras.
A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a irresponsabilidade de todos deu este resultado: o fim sem a grandeza de uma grande aventura.
Metade de Portugal a ser o remorso da outra metade."

Pode ler-se no Correio do Minho/Lusa:
"Defesa: 'Abandono de África' é o pior legado da revolução de Abril - Jaime Neves
O súbito 'abandono' de África foi um dos piores legados do 25 de Abril, considerou o coronel Jaime Neves, operacional da contra-revolução que em Novembro de 1975 neutralizou uma tentativa de assalto ao poder da extrema-esquerda em Portugal.
'Na altura não me apercebi bem do que era abandonar África, não dei o devido relevo. Se eu me tivesse apercebido que íamos abandonar África com certeza que não sei se entraria [na revolução de Abril]. Pelo menos não tomava parte activa', disse o coronel na reserva, em declarações à agência Lusa.
Para Jaime Neves, o 'problema de África tinha que ser resolvido', mas os responsáveis políticos do pós-25 de Abril em Portugal demitiram-se de 'controlar a independência'.
'A independência devia ter sido controlada por nós. Angola e Moçambique tinha muitos brancos já nascidos lá. Lembro-me em Moçambique de haver a quinta e sexta geração. Como é, foram ignorados? Tinham que ter uma palavra a dizer', referiu.
E acrescentou: 'Havia muitas maneiras de ficarmos em África. Não sou um defensor do Portugal inalienável e indivisível. Se a Guiné não aguentava, tenho muita pena, largávamos a Guiné. Mas isso não nos obrigava a largar Angola e Moçambique. Em Angola, quando se deu o 25 de Abril, não havia um tiro há seis meses'.
(...)À 'indisciplina e anarquia' Jaime Neves acrescenta outra razão: 'Eu não fiz o 25 de Abril para ver o PCP e forças de extrema-esquerda a assenhorarem-se deste país e a mandarem em tudo, passarmos de um extremo para o outro'.
(...)Há cerca de um ano, Jaime Neves sofreu um acidente de automóvel e, ainda em convalescença, sofre um acidente vascular cerebral e foi submetido a uma intervenção cirúrgica ao coração.
Olhando para trás, o 'histórico' do 25 de Novembro arrepende-se de 'poucas coisas' e admite que 'as circunstâncias obrigam por vezes as pessoas a tomar determinadas atitudes'.
Mas observa: 'não posso estar satisfeito com a situação actual do nosso país se olho à minha volta e vejo tudo descontente. Chego eu próprio a pôr em dúvida se valeu a pena. Honestamente'.
A ler, no DN, um tema actual e em discussão:
"Enriquecimento ilícito
por PAULO PINTO DE ALBUQUERQUE
Nas sociedades modernas, o enriquecimento ilícito de políticos tem sido combatido com vários instrumentos legais, como o registo e a publicidade das declarações de rendimentos e o regime de incompatibilidades no período do exercício de funções políticas e depois desse período. Um dos instrumentos legais mais eficazes de combate ao enriquecimento ilícito de políticos consiste na criação de uma incriminação que pune o agente quando se verifica uma disparidade gritante entre os seus rendimentos e o seu património ou modo de vida e exista um perigo de o enriquecimento do agente ter provindo de fontes ilícitas.
Esta incriminação tem um fundamento ético-social claro e indiscutível. Quando um político com um ordenado modesto apresenta um rico património ou um modo de vida faustoso, o povo desconfia. E desconfia com razão se esse património e modo de vida não puderem ser justificados por outras fontes lícitas de rendimentos, como heranças. Nestes casos, o cidadão comum é levado a concluir que o património e modo de vida do político podem ser sustentados por rendimentos provenientes de crimes cometidos no exercício das funções do político. Isto é, há uma percepção generalizada na população de um perigo associado à situação de disparidade gritante entre os rendimentos do político e o seu património e modo de vida e esse perigo é o de o político ter enriquecido ilicitamente.
Portanto, se o exercício de funções políticas coloca o cidadão numa posição de poder na sociedade e o poder pode ser corrompido ou abusado, resultando dessa corrupção ou abuso proveitos avultados para o político, é razoável o juízo de perigosidade formulado sobre um político que tem um património ou um modo de vida totalmente incompatíveis com os seus rendimentos lícitos.
Contudo, a consagração desta nova incriminação suscita problemas, designadamente no que respeita ao princípio da presunção da inocência. Todo o cidadão se presume inocente até ao trânsito da decisão condenatória e, como decorrência deste princípio, ele não tem de fazer prova da sua inocência. Compete antes ao Ministério Público fazer a prova dos factos criminosos.
Mas este problema pode ser ultrapassado, e tem sido ultrapassado nos países que consagraram esta incriminação da seguinte forma: o Ministério Público mantém o dever de fazer a prova dos elementos do crime, isto é, dos rendimentos lícitos do político, do seu património e modo de vida e da manifesta desproporção entre aqueles e estes e ainda de um nexo de contemporaneidade entre o enriquecimento e o exercício das funções políticas. Se o Ministério Público não provar todos estes elementos do crime, não se pode punir o político. Se o Ministério Público provar todos estes elementos do crime, então o político deve ser punido, porque se verifica o referido perigo de o enriquecimento do político provir de crimes cometidos no exercício de funções.
O político não tem de fazer qualquer prova, mas pode destruir a prova da acusação, mostrando que os seus rendimentos lícitos são mais elevados, que o seu património e modo de vida são mais modestos ou que o enriquecimento não é sequer contemporâneo do exercício de funções políticas.
Assim se compreende que esta incriminação esteja prevista na convenção das Nações Unidas contra a corrupção e em diversos ordenamentos jurídicos, como o francês, onde está associada ao enriquecimento injustificado de pessoas no âmbito da criminalidade sexual e patrimonial. Também Portugal deve dar este passo fundamental no sentido de um combate mais eficaz à corrupção dos políticos."
Ou seja, tipifica-se e moraliza-se, muito bem, apoiado. Esperemos é que quem tenha o poder de decisão assim decida...
"Enriquecimento ilícito
por PAULO PINTO DE ALBUQUERQUE
Nas sociedades modernas, o enriquecimento ilícito de políticos tem sido combatido com vários instrumentos legais, como o registo e a publicidade das declarações de rendimentos e o regime de incompatibilidades no período do exercício de funções políticas e depois desse período. Um dos instrumentos legais mais eficazes de combate ao enriquecimento ilícito de políticos consiste na criação de uma incriminação que pune o agente quando se verifica uma disparidade gritante entre os seus rendimentos e o seu património ou modo de vida e exista um perigo de o enriquecimento do agente ter provindo de fontes ilícitas.
Esta incriminação tem um fundamento ético-social claro e indiscutível. Quando um político com um ordenado modesto apresenta um rico património ou um modo de vida faustoso, o povo desconfia. E desconfia com razão se esse património e modo de vida não puderem ser justificados por outras fontes lícitas de rendimentos, como heranças. Nestes casos, o cidadão comum é levado a concluir que o património e modo de vida do político podem ser sustentados por rendimentos provenientes de crimes cometidos no exercício das funções do político. Isto é, há uma percepção generalizada na população de um perigo associado à situação de disparidade gritante entre os rendimentos do político e o seu património e modo de vida e esse perigo é o de o político ter enriquecido ilicitamente.
Portanto, se o exercício de funções políticas coloca o cidadão numa posição de poder na sociedade e o poder pode ser corrompido ou abusado, resultando dessa corrupção ou abuso proveitos avultados para o político, é razoável o juízo de perigosidade formulado sobre um político que tem um património ou um modo de vida totalmente incompatíveis com os seus rendimentos lícitos.
Contudo, a consagração desta nova incriminação suscita problemas, designadamente no que respeita ao princípio da presunção da inocência. Todo o cidadão se presume inocente até ao trânsito da decisão condenatória e, como decorrência deste princípio, ele não tem de fazer prova da sua inocência. Compete antes ao Ministério Público fazer a prova dos factos criminosos.
Mas este problema pode ser ultrapassado, e tem sido ultrapassado nos países que consagraram esta incriminação da seguinte forma: o Ministério Público mantém o dever de fazer a prova dos elementos do crime, isto é, dos rendimentos lícitos do político, do seu património e modo de vida e da manifesta desproporção entre aqueles e estes e ainda de um nexo de contemporaneidade entre o enriquecimento e o exercício das funções políticas. Se o Ministério Público não provar todos estes elementos do crime, não se pode punir o político. Se o Ministério Público provar todos estes elementos do crime, então o político deve ser punido, porque se verifica o referido perigo de o enriquecimento do político provir de crimes cometidos no exercício de funções.
O político não tem de fazer qualquer prova, mas pode destruir a prova da acusação, mostrando que os seus rendimentos lícitos são mais elevados, que o seu património e modo de vida são mais modestos ou que o enriquecimento não é sequer contemporâneo do exercício de funções políticas.
Assim se compreende que esta incriminação esteja prevista na convenção das Nações Unidas contra a corrupção e em diversos ordenamentos jurídicos, como o francês, onde está associada ao enriquecimento injustificado de pessoas no âmbito da criminalidade sexual e patrimonial. Também Portugal deve dar este passo fundamental no sentido de um combate mais eficaz à corrupção dos políticos."
Ou seja, tipifica-se e moraliza-se, muito bem, apoiado. Esperemos é que quem tenha o poder de decisão assim decida...

imagem de Chapatte
"United Airlines cobra dois bilhetes a obesos
por V.M.Ontem
Companhia diz ter recebido 700 queixas de passageiros que tiveram de compartilhar os assentos
A United Airlines vai obrigar os passageiros obesos a comprar dois lugares quando o avião for cheio.
A companhia aérea norte-americana explica que, no ano passado, recebeu 700 queixas de passageiros que tiveram de compartilhar os seus lugares com obesos.
Outras companhias, como a Continental, Delta, JetBlue e Southwest já adoptaram a mesma política, que define “obeso” todo o passageiro que não deixa espaço para baixar os apoios dos braços ou que não consegue apertar o cinto de segurança" (no DN)
Ainda bem que sou jeitosinho...
Também no DN, algo que merece nossa aprovação porque defende a nossa língua, isto é, nós:
"A linguagem dos entendidos
por J.M. Nobre-Correia
"Para perceber um jornal português é preciso um bom dicionário de inglês...
Há princípios elementares que os responsáveis dos media portugueses esquecem. E um deles é o que diz que é preciso endereçarem-se aos seus públicos numa linguagem que esteja ao alcance do comum dos mortais. Desde que se trate de media destinados ao "grande público", claro. Porque os especializados poderão naturalmente recorrer a uma terminologia de iniciados.
Ora, os media portugueses que visam o "grande público" não só consagram demasiado espaço a temáticas do microcosmo lisboeta que não interessam à grande maioria dos cidadãos como, ainda por cima, utilizam uma linguagem globalmente incompreensível! A tal ponto que, quando se procura ler hoje um diário ou um semanário português "grande público", é indispensável armar-se de um bom dicionário de inglês para tentar compreender o que querem dizer os site, online, lay-off, play-off, franchising, outlet, offshore, lifting, share, target, outdoor e outros deliciosos termos perfeitamente desconhecidos para a grande maioria da população...
Para quem escrevem os jornalistas? Para eles próprios? Para as "fontes" que lhes forneceram a informação? Para os media estrangeiros em que se "inspiraram"? Que inconsciência! Que snobismo! Como podem os editores não perceber que estão a fazer jornais propriamente ilegíveis, que os leitores rejeitarão mais cedo ou mais tarde? Pegue-se no maior diário espanhol, El País (444 290 ex.): praticamente tudo nele está escrito em castelhano. Na pior das hipóteses, o termo em castelhano é seguido do original em língua estrangeira entre parênteses.
Que falta de respeito pelos leitores é esta que autoriza uma tal ausência de sentido da exigência em termos de lin-guagem? Não haverá lexicógrafos neste país capazes de fazer os jornalistas portugueses falar e escrever em português? Quando compreenderão os responsáveis dos media nacionais que só uma linguagem límpida e rigorosa poderá permitir que se encare seriamente um alargamento sensível do "leitorado" de uma publicação?.."
"A linguagem dos entendidos
por J.M. Nobre-Correia
"Para perceber um jornal português é preciso um bom dicionário de inglês...
Há princípios elementares que os responsáveis dos media portugueses esquecem. E um deles é o que diz que é preciso endereçarem-se aos seus públicos numa linguagem que esteja ao alcance do comum dos mortais. Desde que se trate de media destinados ao "grande público", claro. Porque os especializados poderão naturalmente recorrer a uma terminologia de iniciados.
Ora, os media portugueses que visam o "grande público" não só consagram demasiado espaço a temáticas do microcosmo lisboeta que não interessam à grande maioria dos cidadãos como, ainda por cima, utilizam uma linguagem globalmente incompreensível! A tal ponto que, quando se procura ler hoje um diário ou um semanário português "grande público", é indispensável armar-se de um bom dicionário de inglês para tentar compreender o que querem dizer os site, online, lay-off, play-off, franchising, outlet, offshore, lifting, share, target, outdoor e outros deliciosos termos perfeitamente desconhecidos para a grande maioria da população...
Para quem escrevem os jornalistas? Para eles próprios? Para as "fontes" que lhes forneceram a informação? Para os media estrangeiros em que se "inspiraram"? Que inconsciência! Que snobismo! Como podem os editores não perceber que estão a fazer jornais propriamente ilegíveis, que os leitores rejeitarão mais cedo ou mais tarde? Pegue-se no maior diário espanhol, El País (444 290 ex.): praticamente tudo nele está escrito em castelhano. Na pior das hipóteses, o termo em castelhano é seguido do original em língua estrangeira entre parênteses.
Que falta de respeito pelos leitores é esta que autoriza uma tal ausência de sentido da exigência em termos de lin-guagem? Não haverá lexicógrafos neste país capazes de fazer os jornalistas portugueses falar e escrever em português? Quando compreenderão os responsáveis dos media nacionais que só uma linguagem límpida e rigorosa poderá permitir que se encare seriamente um alargamento sensível do "leitorado" de uma publicação?.."
Hoje, no DN:
"..aumento dos preços para aceder à justiça.
O bastonário da Ordem dos Advogados (OA) Marinho Pinto tem sido uma das vozes activas neste protesto. O advogado defende que este diploma "impede os cidadãos de acederem à Justiça". Porquê? "Porque o Estado, que é tão manhoso e caloteiro a pagar as suas dívidas, quer que as pessoas que recorrem à Justiça paguem logo à cabeça a taxa na totalidade". (...)Também Vítor Tomás, do Conselho Distrital de Évora da OA, considera que este diploma limita e faz com que os cidadãos desistam de recorrer ao tribunais. E exemplificou: "imaginemos uma acção com o valor de 30 mil euros. O cidadão terá que pagar 672 euros e não os 336 euros iniciais quando propunha uma acção como acontecia até aqui", explica o advogado de Évora, responsável por um estudo do Conselho Distrital que tentou demonstrar o encarecimento da justiça com estas novas regras."
Eis o que espera o cidadão. Quer justiça? Pague primeiro, e bem, e depois vá estando com atenção e tenha paciência, atendendo à morosidade que caracteriza a nossa justiça, quem sabe(?)pode ser que o litígio se resolva...
"..aumento dos preços para aceder à justiça.
O bastonário da Ordem dos Advogados (OA) Marinho Pinto tem sido uma das vozes activas neste protesto. O advogado defende que este diploma "impede os cidadãos de acederem à Justiça". Porquê? "Porque o Estado, que é tão manhoso e caloteiro a pagar as suas dívidas, quer que as pessoas que recorrem à Justiça paguem logo à cabeça a taxa na totalidade". (...)Também Vítor Tomás, do Conselho Distrital de Évora da OA, considera que este diploma limita e faz com que os cidadãos desistam de recorrer ao tribunais. E exemplificou: "imaginemos uma acção com o valor de 30 mil euros. O cidadão terá que pagar 672 euros e não os 336 euros iniciais quando propunha uma acção como acontecia até aqui", explica o advogado de Évora, responsável por um estudo do Conselho Distrital que tentou demonstrar o encarecimento da justiça com estas novas regras."
Eis o que espera o cidadão. Quer justiça? Pague primeiro, e bem, e depois vá estando com atenção e tenha paciência, atendendo à morosidade que caracteriza a nossa justiça, quem sabe(?)pode ser que o litígio se resolva...
sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Uma brisa trouxe um cheiro a jasmim
Pensou, era ela que se aproximava
Mas era o vento, passara pelo jardim
O cheiro dela, ansiado, tardava
O olhar deitava-o para um céu azulado
O pensar, esse, era ainda mais ausente
As horas corriam para qualquer lado
ele guardava aquele beijo, ardente
E mais não sei
Foi coisa que sonhei

"O tempo é uma indiscrição de Deus. A noção de tempo é-nos dada para nos situarmos aos pés de qualquer acção que se repetirá pelos milénios fora com a mesma sagacidade e importância inefável. Se perguntardes a um chinês quanto tempo leva a desenhar uma cena quase imperceptível numa pedra, ele dirá: “Dois ou três anos”.
- Então, em toda a vida, não pintará senão vinte pedras” – direis. E ele responde:
- “Nesta vida”.
Agustina Bessa Luís, “A Pedra Pintada”
Algo que realmente vale a pena ver.
De Dali a Bosch, passando por um Dante a revisitar...
Sente-se...
Respire fundo...
Acerte o pulsar...
Abra a mente, o espírito, o sentir e deixe-se transportar...
Eis o Surreal a avançar...
clike aki
De Dali a Bosch, passando por um Dante a revisitar...
Sente-se...
Respire fundo...
Acerte o pulsar...
Abra a mente, o espírito, o sentir e deixe-se transportar...
Eis o Surreal a avançar...
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Ele só trabalhava à noite, tinha negócios escuros, diziam, mas era tudo rumores, nada de concreto se apurara sobre as suas actividades. Uns especulavam mas outros, prudentes, preferiam omitir a sua opinião. Faziam bem estes últimos. Para cúmulo, usava sempre óculos escuros, mesmo dentro de casa, do escritório, onde quer que fosse. As pessoas questionavam-se se ele via alguma coisa, mas o facto é que ele não andava às apalpadelas, por isso via, e outros até diziam que ele via muito bem, por exemplo quando a colega vinha um bocadinho mais airosa ele não tirava os olhos dela, melhor dizendo, não tirava os óculos escuros de cima dela. Alguns chamavam-lhe Don Corleone. Quando recebia os amigos também não tirava os óculos escuros. Os amigos, aliás, também só usavam óculos escuros. A intriga, a especulação, a curiosidade agitavam os comentários da vizinhança. Um dia uma vizinha surpreendeu-o no pátio e viu que ele tinha olhos vermelhos, pareciam olhos do diabo. Ela, atrevida, perguntou-lhe, ó menino, mas que olhos são esses? Ai credo (disse ela meio espantada). Ele olhou bem para ela com aqueles olhos tais e ela desmaiou. No dia seguinte, ela própria tinha os olhos diferentes, estavam iguais aos dele.
Ele tinha conjuntivite, era extremamente contagioso e estava em processo de cura, ninguém sabia, ninguém lhe perguntou.
quinta-feira, 16 de Abril de 2009

A porta rangia ao abrir-se lentamente e um raio de luz penetrava na sala. Ela estava em contraluz, não via absolutamente nada. Ninguém aparecia à vista, nem uma sombra! Ela saltou do sofá e olhava incrédula para a porta. Um segundo olhar atento, porém, despertou-lhe a atenção para o fundo da entrada, uma figurinha projectava a sua sombra até ao tapete persa que ornamentava o meio da sala. Era uma pequena tartaruga, ela apanhou-a e viu-lhe uma guita atada a uma pata no fim da qual um cartão de visita se arrastava ao compasso da sua marcha. Curiosa (como as mulheres são curiosas meu deus), desatou a guita colocando de novo a tartaruga no chão. Afastou-se um pouco e quis ler o teor do cartão, dizia “hoje jantamos fora, diz à Lolita para pôr a mesa no jardim”. Ela sorriu, o marido continuava parvo de todo.
«Não querer dizer, não saber o que queremos dizer, não poder acreditar no que queremos dizer, e no entanto dizer, ou quase, eis o que importa não perder de vista, no calor da escrita.»
Samuel Beckett, em Molloy
Samuel Beckett, em Molloy
Ainda não era uma verdadeira obra de arte, faltava-lhe um je ne sais quoi. Uns aventavam o acrescento de uma cor bizarra, outros um rabisco original, algo surreal e abstracto e outros ainda que o que fazia mesmo falta era um grande vaso rosa que centrasse a atenção do espectador. O autor, desinspirado, mandou a tela contra a parede, o quadro ficou todo empenado, ele decidiu-se apelidar a obra de “Transtornos e acidentes da vontade”.
quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Há coisas que não fazem sentido. E mais tarde conclui-se que além de não fazerem sentido são pura perda de tempo. Não levam a lado nenhum. Por exemplo, este ‘post’, não faz sentido até aqui ou faz? Nada, nem o leitor sabe do que se fala ou onde isto vai acabar. Pois eu também não, estou para aqui a teclar a teclar e não faço ideia como sair daqui. É que este teclado é novo e então tenho que me adaptar a ele. Possui várias funções, as teclas são lindíssimas, acho até que as grandes empresas de teclados ainda não se lembraram de os equipar como deve ser, um lugarzinho para o copo de Gin ao lado da tecla de ‘delete’, as teclas numéricas com gatinhas, só com uma pata, duas patas, três patas, por aí fora, a tecla ‘Pause’ com dispositivo automático para abertura do jacuzzi, era muito mais divertido, as teclas como nos telemóveis, com som...uma loucura, até me apetece gritar, do que estão à espera hein (?) desculpem, às vezes dá-me, é que tenho uma printer que fala comigo com sotaque brasileiro, uma vozinha feminina que se derrete toda, à terceira página já só oiço risinhos, enfim, onde é que ia eu...ah, pois, sem sentido e perda de tempo, mas sempre agradável. Ah, e fica a ideia para os teclados da nova geração, nada mau! Tem chovido muito não tem? Ontem apanhei uma carga daquelas...fiquei todo ensopado!

A Polish man moved to the USA from Poland and married an American girl.
Although his English was far from perfect, they got along very well until one day he rushed into a lawyer's office and asked him if he could arrange a divorce for him.
The lawyer said that getting a divorce would depend on the circumstances, and asked him the following questions:
Have you any grounds?
Yes, an acre and half and nice little home.
No, I mean what is the foundation of this case?
It made of concrete.
I don't think you understand. Does either of you have a real grudge?
No, we have carport, and not need one.
I mean. What are your relations like?
All my relations still in Poland.
Is there any infidelity in your marriage?
We have hi-fidelity stereo and good DVD player.
Does your wife beat you up?
No, I always up before her.
Is your wife a nagger?
No, she white.
Why do you want this divorce?
She going to kill me.
What makes you think that?
I got proof.
What kind of proof?
She going to poison me. She buy a bottle at drugstore and put on shelf in bathroom. I can read, and it say:
'Polish Remover'
terça-feira, 14 de Abril de 2009

Sempre sonhou vir a ser prestidigitador. Inscreveu-se como aprendiz das artes circenses numa escola nocturna mas havia falta de holofotes para as aulas práticas. Como era um rapaz cheio de iniciativa, tomou a liberdade de comprar três holofotes em segunda mão na feira da ladra e instalou-os em local onde só um verdadeiro artista conseguia chegar. Ficou tudo muito mais claro. Passou a ser o melhor malabarista da companhia.

O mal verdadeiro, o único mal, são as convenções e as ficções sociais, que se sobrepõem às realidades naturais - tudo, desde a família ao dinheiro, desde a religião ao Estado.
A gente nasce homem ou mulher - quero dizer, nasce para ser, em adulto, homem ou mulher; não nasce, em boa justiça natural, nem para ser marido, nem para ser rico ou pobre, como também não nasce para ser católico ou protestante, ou português ou inglês.
É todas estas coisas em virtude das ficções sociais.
Ora essas ficções sociais são más por quê?
Porque são ficções, porque não são naturais.
Tão mau é o dinheiro como o Estado, a constituição de família como as religiões.
Se houvesse outras, que não fossem estas, seriam igualmente más, porque também seriam ficções, porque também se sobreporiam e estorvariam as realidades naturais.
Ora qualquer sistema que não seja o puro sistema anarquista, completamente, é uma ficção também.
Empregar todo o nosso desejo, todo o nosso esforço, toda a nossa
inteligência para implantar, ou contribuir para implantar, uma ficção social em vez de outra, é um absurdo, quando não seja mesmo um crime, porque é fazer uma perturbação social com o fim expresso de deixar tudo na mesma.
Se achamos injustas as ficções sociais, porque esmagam e oprimem o que é natural no homem, para que empregar o nosso esforço em substituir-lhes outras ficções, se o podemos empregar para as destruir todas?
PESSOA, Fernando. O Banqueiro Anarquista.

Lê-se no “CM”:
“Quatro milhões para executivos da Galp
Os seis administradores que compõem a Comissão Executiva da Galp Energia ganharam em 2008 mais de quatro milhões de euros (2,9 milhões em remunerações fixas e 1,1 milhões em variáveis).
De acordo com o relatório de governo da petrolífera, divulgado pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), Ferreira de Oliveira, Fernando Gomes, Carlos Gomes da Silva, André Palmeiro Ribeiro e os representantes da petrolífera italiana ENI, Cláudio De Marco e Fabrizio Dassogno, tiveram, em média, um salário mensal da ordem dos 48 700 euros (considerando 14 meses), mais de 1800 euros por dia. Para além deste ordenado, a Galp oferece aos administradores executivos a constituição de um Plano de Poupança Reforma (PPR) que, em 2008, contou com uma contribuição da empresa superior a 90 mil euros por administrador.”
Justifica-se pois o riso com que posam na fotografia.
Sinceramente já não posso ler este tipo de notícias, fico mal disposto. O aparelho de estado está totalmente invadido por personagens que se enchem desmesuradamente com os frutos gerados pela riqueza nacional. É que não se tratam de empresas particulares meus senhores, são empresas estatais, património público, e no entanto permite-se que aconteça esta imoralidade . Podem até auferir rendimento acima da média mas...não exageremos, isto é um saque ao património colectivo!!! Não há ética, os valores e princípios sofreram uma derrocada assinalável, estão pelas ruas da amargura. O conceito e a extensão de “democracia” não é ‘isto’, só se vêem benefícios para meia dúzia de cidadãos, e de forma totalmente exagerada, escandalosamente exagerada. E depois têm a ousadia de impôr tectos salariais, restrições nos aumentos dos pensionistas, dos funcionários públicos... Tenham dó, não há mesmo paciência. Tou farto e sinto-me espoliado. Arre, destino trágico este...

Hoje, no DN:
"A justiça em Portugal parece-lhe confusa? Não faz ideia porque é que todos os processos que envolvem pessoas importantes acabam sempre em regabofe? Diga não à desorientação! Em apenas 20 passos, eis o guia ideal para entender todos os casos que em Portugal começam com a palavra "caso":
1) Os jornais publicam uma notícia sobre qualquer pessoa muito importante que alegadamente fez qualquer coisa muito má. 2) Essa pessoa muito importante considera-se vítima de perseguição por parte de forças ocultas. 3) Outras pessoas importantes vêm alertar para o vergonhoso desrespeito do segredo de justiça em Portugal, que possibilita a actuação de forças ocultas. 4) Inicia-se o debate sobre o segredo de justiça em Portugal. 5) Toda a gente tem opiniões firmes sobre o que é preciso mudar na legislação portuguesa para que estas coisas não aconteçam. 6) Toda a gente conclui que não se pode mudar a quente a legislação portuguesa. 7) A legislação portuguesa não chega a ser mudada para que estas coisas não aconteçam. 8) As coisas voltam a acontecer: os jornais publicam notícias sobre essa pessoa muito importante dizendo que ainda fez coisas piores do que as muito más. 9) Outras pessoas importantes vêm alertar para o vergonhoso jornalismo que se faz em Portugal, que nada investiga e se deixa manipular por forças ocultas. 10) Inicia-se o debate sobre o jornalismo português. 11) Toda a gente tem opiniões firmes sobre o que é preciso mudar no jornalismo português. 12) Toda a gente conclui que estas mudanças só estão a ser debatidas porque quem alegadamente fez uma coisa muito má é uma pessoa muito importante. 13) Nada muda no jornalismo português. 14) Enquanto o mecanismo se desenrola do ponto 1) ao ponto 13) a justiça continua a investigar. 15) Após um período de investigação suficientemente longo para que já ninguém se lembre do que se estava a investigar a justiça finaliza as investigações e conclui que a pessoa muito importante: a) Não fez nada de muito mau. b) Já prescreveu o que quer que tenha feito de muito mau. c) É possível que tenha feito algo de muito mau mas não se reuniram provas suficientes. d) Afinal o que fez não era assim tão mau. 16) Pessoas importantes que são amigas dessa pessoa muito importante concluem que ela foi vítima de perseguição por parte de forças ocultas. 17) Pessoas importantes que não são amigas dessa pessoa muito importante concluem que em Portugal nada acontece às pessoas muito importantes que fazem coisas alegadamente muito más. 18) As pessoas citadas no ponto 17) iniciam mais um debate sobre a justiça em Portugal. 19) As pessoas citadas no ponto 16) iniciam mais um debate sobre o jornalismo em Portugal. 20) Os jornais publicam uma outra notícia sobre uma outra pessoa muito importante que alegadamente terá feito outra coisa muito má. Repetem-se os passos 1) a 19)."
JOÃO MIGUEL TAVARES in Diário de Notícias
segunda-feira, 13 de Abril de 2009

"Pegou na folha, resoluto.
Minha muito Amélia querida:
Reflectiu. Solução demasiado possessiva. Outra folha.
Muito Amélia querida:
Muito Amélia...Não ia perceber. Outra folha.
Amélia querida:
pouco e muito. Afinal, apesar de sempre juntos, nunca nada...Depois, as idades, a diferença de letras.
Tentou:
Querida:
Querida, uma violência! Assédio: processo e rua! E optou por fazer como ela dizia, sempre lúcida, no despacho: «Nada como dormir sobre os assuntos!»
Pela manhã, mais prudente, resolveu o caso. À primeira:
Excelentíssima Senhora Doutora D. Amélia Leão
Digníssima Chefe da 3ª Repartição de Finanças
Veneranda Senhora: "
Augusto Baptista in Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias
domingo, 12 de Abril de 2009

Muitas vezes, a coisa mais importante para manter um casamento estável não é a fidelidade, a honestidade ou sequer o amor - é o raciocínio rápido. Como mostra esta história.
- Feliz aniversário, doutor Roberto!
- Obrigado, Maura. Obrigado. Pelo menos, alguém se lembrou. Pelo menos, a minha secretária...
- Eu nunca esqueço o seu aniversário, doutor Roberto.
- É verdade. Eu sei. E, este ano, você foi a única que não esqueceu.
- Mas a dona Vivinha...
- Minha mulher? Foi viajar. Escolheu justamente hoje para ir visitar a mãe dela e levar as crianças.
- Eu sinto muito, doutor Roberto.
- Pois é. Esqueceu.
Naquela manhã, antes de sair de casa, ele ainda dera uma indirecta:
- Sabe que eu estou me sentindo óptimo para a minha idade?
A Vivinha nem ouvira. Estava ocupada fazendo sua mala. Depois iria ajudar as crianças a se prepararem para a viagem. Quando ele a beijou na face, disse:
- Olha, tem uma lasanha na geladeira para esta noite. É só esquentar. Nos outros dias, vai ter de comer fora. É só até domingo.
Uma lasanha. Seria o seu jantar de aniversário. Uma lasanha solitária. A triste lasanha de um abandonado. Nem seu Itacir, porteiro do edifício, se lembrara de cumprimentá-lo.
- Maura...
- Sim, doutor Roberto.
- Por favor, não interprete mal o que eu vou dizer...
- O quê, doutor Roberto?
- Você... tem algum programa para esta noite?
- Não. Só ir para casa, jantar e ver novela.
- Sozinha?
- Com a minha mãe, que mora comigo.
- Você não tem, assim, um namorado?
- Tinha, doutor Roberto. - E Maura sorriu antes de continuar: - Mas ele também esquecia muita coisa que não devia esquecer.
- Venha jantar comigo, na minha casa, Maura. Uma lasanha. Não vai ter ninguém lá. E eu tenho televisão.
Maura disse que só precisava avisar sua mãe. Estava subentendido entre eles que uma lasanha pode ser apenas uma lasanha, mas também pode ter decorrências. Afinal, ela estava sem namorado e ele estava se sentindo óptimo para a sua idade. A lasanha podia muito bem inaugurar uma nova fase no relacionamento dos dois, depois de todos aqueles anos. Se tudo desse certo.
Quando ele abriu a porta do apartamento e entrou com Maura, todas as luzes se acenderam e dezenas de vozes gritaram:
- SURPRESA!
A Vivinha liderava o coro, rodeada pelos filhos. Atrás deles, parentes, amigos - até a sogra, que viera especialmente para a festa. Vivinha hesitou antes de abraçá-lo, visivelmente intrigada com a presença de Maura. Foi quando entrou o raciocínio rápido. Esforçando-se para recuperar o fôlego e um ritmo cardíaco normal, Roberto disse:
- Você não pensou que podia me enganar tão facilmente, pensou?
- Você sabia?!
- O seu Itacir não pode guardar segredo. Não se aguentou e me contou de todos os preparativos.
- Não! - gritou Vivinha, abraçando e beijando o marido e depois sua secretária de tantos anos, que, claro, ele fizera muito bem em convidar para a festa.
- Entre, entre, fique à vontade - disse Vivinha para Maura.
E Roberto pensou, respirando fundo: amanhã vou ter de dar uma boa gorjeta para o seu Itacir confirmar sua inconfidência.
Luís Fernando Veríssimo
sábado, 11 de Abril de 2009

Uma incógnita é algo que ainda não possui definição, é algo desconhecido e se procura saber. Quando se descobre, ela ganha nome, referências, propriedades, e sai do anonimato onde vagueou perdidamente durante dias, meses, anos, décadas, séculos. Por exemplo, se renascer, teria necessariamente que voltar a nascer neste tempo e nesta sociedade?

No 'Público':
As funcionárias da Loja do Cidadão de Faro, inaugurada a 3 de Abril, foram proibidas de usar saias curtas, decotes, saltos altos, roupa interior escura, gangas e perfumes agressivos. As instruções foram dadas numa acção de formação antes da abertura da loja, denunciou uma funcionária.(...)“Esta acção incide sobre várias matérias e, em particular, sobre o que deve constituir um atendimento de qualidade, que ajuda ou prejudica o relacionamento com os cidadãos”, justificou Maria Pulquéria Lúcio, vogal do Conselho Directivo da agência, ao jornal."
Só queria dizer à Sô dona Pulquéria que eu não me importo nada de ser atendido por uma jovem com saia curta, decote pronunciado e roupa interior preta. Só o perfume deverá ser brando, quanto ao resto, meninas, estejam á vontade. Ele há cada coisa!!!!
A police officer pulls over a speeding car. The officer says, " I clocked you at 80 miles per hour, sir."
The driver says, "Gee, officer I had it on cruise control at 60, perhaps your radar gun needs calibrating."
Not looking up from her knitting the wife says: "Now don't be silly dear, you know that this car doesn't have cruise control."
As the officer writes out the ticket, the driver looks over at his wife and growls, "Can't you please keep your mouth shut for once?"
The wife smiles demurely and says, "You should be thankful your radar detector went off when it did."
As the officer makes out the second ticket for the illegal radar detector unit, the man glowers at his wife and says through clenched teeth, "Woman, can't you keep your mouth shut?"
The officer frowns and says, "And I notice that you're not wearing
your seat belt, sir. That's an automatic $75 fine."
The driver says, "Yeah, well, you see officer, I had it on, but took it off when you pulled me over so that I could get my license out of my back pocket."
The wife says, "Now, dear, you know very well that you didn't have your seat belt on. You never wear your seat belt when you're driving."
And as the police officer is writing out the third ticket the driver turns to his wife and barks, "WHY DON'T YOU PLEASE SHUT UP??"
The officer looks over at the woman and asks, "Does your husband always talk to you this way, Ma'am?"
(I love this part)....
Only when he's been drinking."
sexta-feira, 10 de Abril de 2009
pormenores de Cascais - foto flipvinagre
Bebido o luar,
ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.
Sophia de Mello Breyner Andresen

É muito difícil escrever sobre o impensável. Não faço ideia absolutamente nenhuma do que escrever sobre o impensável, nem um pequenino sinal ou mesmo uma singela definição se atravessa no meu espírito, e não me apetece especular sobre o impensável, e se penso o que não devo? Portanto, sobre o impensável fica assente, não se escreve, ponto final.
quinta-feira, 9 de Abril de 2009

Camilla bought a new pair of shoes for her wedding which got increasingly tighter & tighter as the day went on. That night after the festivities were finally over, she & Charles had retired back to there room.
Camilla flopped on the bed and said 'Please remove my shoes darling. Ones feet are killing me.'
Ever obedient, the Prince of Wales attacked her right shoe with vigor . . . . But it would not budge.
'Harder' yelled Camilla.
'Harder' Charles yelled back, 'I'm trying darling! But it's just so bloody tight!'
'Come on give it all you've got ' she cried..
Finally when it released, Charles let out a big groan, and Camilla exclaimed 'There! Oh God, that feels so good.'
In their bedroom next door The Queen turned to Prince Phillip and said 'See I told you she was still a virgin with a face like that!'
Meanwhile back in the other bedroom Charles was attempting to remove the other shoe when he cried out 'Oh god, darling this ones even tighter'
At which point Prince Phillip turned and said to the Queen 'That's my boy, Once a Navy man, always a navy man!'
a janela dela, a dela - foto flipvinagre
A inútil tragédia da vida
Não chega a merecer um poema.
Só o poema merece, por vezes
A inútil tragédia da vida.
As pessoas caem como folhas
E secam no pó do desalento
Se não as leva consigo
A fúria poética do vento.
Para que se justifique a nossa vida
É preciso que alguém a invente em nós.
Os que nunca inspiraram um poema
São as únicas pessoas sós.
Natália Correia

Ele acendia o cigarro com aquele velho isqueiro zippo que ganhara de um amigo na guerra. Aquele zippo era como um cão, seguia-o para todo o lado, lembrava-lhe o tempo em que mais sofreu, dizia ele enquanto mergulhava os olhos no chão, pensativo. O zippo sabe porque ambos passámos e é um companheiro silencioso, dizia ele. Um dia ele perdeu o zippo, e só pensava que no dia seguinte não poderia fumar.

The first job
A young family moved into a house, next to a vacant lot.
One day, a construction crew turned up to start building a house on the empty lot.
The young family's 5-year-old daughter naturally took an interest in all the activity going on next door and spent much of each day observing the workers.
Eventually the construction crew, all of them "gems-in-the-rough," more or less, adopted her as a kind of project mascot."
They chatted with her, let her sit with them while they had coffee and lunch breaks and gave her little jobs to do here and there to make her feel important.
At the end of the first week, they even presented her with a pay envelope containing ten dollars.
The little girl took this home to her mother who suggested that she take her ten dollars "pay" she'd received to the bank the next day to start a savings account.
When the girl and her mom got to the bank, the teller was equally impressed and asked the little girl how she had come by her very own pay check at such a young age.
The little girl proudly replied, "I worked last week with a real construction crew building the new house next door to us."
"Oh my goodness gracious," said the teller, and will you be working on the house again this week, too?"
The little girl replied, "I will, if those as*!#!es at Home Depot ever deliver the fu*#'ng sheet rock..."
quarta-feira, 8 de Abril de 2009
Palácio e Quinta dos Marqueses de Pombal ou Condes de Oeiras - Oeiras - foto flipvinagre
"O meu mundo não é como o dos outros,
quero demais, exijo demais,
há em mim uma sede de infinito,
uma angústia constante que nem eu mesma compreendo,
pois estou longe de ser uma pessoa;
sou antes uma exaltada, com uma alma intensa,
(...)
uma alma que ___________________,
que tem saudade,
sei lá de quê!"
Florbela Espanca

One Sunday morning, the pastor noticed little Alex was staring up at the large plaque that hung in the foyer of the church.
It was covered with names, and small American flags were mounted on either side of it.
The seven-year-old had been staring at the plaque for some time, so the pastor walked up, stood beside the boy, and said quietly, "Good morning, Alex."
"Good morning," replied the young man, still focused on the plaque.
"What is this?" Alex asked.
"Well, son, it's a memorial to all the young men and women who died in the service."
Soberly, they stood together, staring at the large plaque.
Little Alex's voice was trembling and barely audible when he asked, "Which service, the 9:45 or the 11:15?"
terça-feira, 7 de Abril de 2009

No DN (ou vidé Resolução da Assembleia da República n.º 21/2009):
"A palavra do deputado faz fé, não carecendo por isso de comprovativos adicionais". É esta a redacção do ponto sete do novo regime de presenças e faltas dos deputados em plenários, que o presidente da Assembleia da República fez aprovar. Jaime Gama acabou por deixar a possibilidade de os deputados poderem alegar ausência por motivo de doença sem que para isso seja necessária a apresentação de quaisquer justificativos nos primeiros cinco dias. Excepto quando a doença "se prolongue por mais de uma semana". Ou seja, um deputado que falte e que com isso impeça ou prejudique uma votação pode invocar doença sem que tenha que apresentar qualquer tipo de atestado médico.” (...)
Ora cá está. Em Dezembro passado, aquando da votação no parlamento de um projecto de resolução, faltaram 48 deputados. Foi um escândalo. Em Abril de 2006, dos 230 deputados faltaram 120, inviabilizando diversas votações. Foi terrível. Eis dois exemplos que chocaram o país. Os senhores deputados meteram os pés pelas mãos e lá foram justificando as faltas... Em bom tempo, a Assembleia da República entendeu que a situação devia ser alterada. Afinal, os representantes dos portugueses têm de dar o exemplo. O que fizeram? Acabaram com as justificações. O problema, afinal, não estava nas faltas em si mas na justificação. Chama-se a isto ‘reengenharia, um termo que serve (como neste caso) para mandar poeira para cima dos olhos do povo. Por isso, povo, já sabeis com quem podeis contar.
É por esta e por outras que cada vez os cidadãos se revêem menos neste ‘sistema’, deles, não nosso. Para o comum dos cidadãos, trabalhadores, há deveres (legais) mas eis que os representantes do povo se tornam numa excepção, estão as excelências excelentíssimas não sujeitas a quaisquer obrigações. Afinal o princípio da legalidade e da igualdade perante a lei é o quê? República de quê? Vão...
segunda-feira, 6 de Abril de 2009
ancorados ao largo, Cascais - foto flipvinagre
A incerteza cai com a tarde
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da
angústia. Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco de ondas
na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro
com o verso, prendo-o à frase,
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma.
Nuno Júdice

Escrever é um pouco como conduzir, é tudo uma questão de direcção e de velocidade, podemos tomar o rumo que quisermos, passear simplesmente em quarta e assim construir calmamente um poema ou então imprimir ao texto uma quinta de respeito, sem ninguém no retrovisor. Neste último caso, a escrita daí resultante, afigura-se muito próxima de um soneto relâmpago.

um professor de filosofia entrou na sala de aula, colocou uma cadeira em cima da mesa e escreveu no quadro:
"Provem-me, por escrito, que esta cadeira não existe."
Apressadamente, os alunos começaram a escrever longas dissertações sobre o assunto.
No entanto, um dos alunos escreveu apenas duas palavras numa folha de papel e entregou-a ao professor...
Este, quando a recebeu, não conteve um largo sorriso depois de ler:
"Qual cadeira?"
Moral da história: Ser inteligente é ter simplicidade para resolver questões!

E aquelas pessoas a quem contamos uma graça e elas não riem, antes pelo contrário, reagem como se tivessemos proferido alguma blasfémia? É caso para dizer, arre que é trombudo!!! Ó Senhores, riam mais, abram esse crânio e não levem tudo a sério. Às vezes só a minha boa educação me impede de mandar certas pessoas àquela parte. Até os dedos dos pés se torcem!
domingo, 5 de Abril de 2009

Um poder judicial activo, actuante, dinâmico e profícuo, que garanta, em tempo, a aplicação da lei e assim satisfaça os direitos individuais e colectivos, abafa e secundariza o chamado quarto poder, transformando a especulação em facto concreto e a ideia em realidade palpável. Ou seja, a aplicação do princípio da celeridade processual transforma-se na guilhotina da tagarelice mediática e hollywoodesca. Mas hoje é domingo, descansemos pois!
sábado, 4 de Abril de 2009

Eis o que é um AMIGO:
Disse um soldado ao seu comandante:
-"O meu amigo não voltou do campo de batalha. Meu comandante, solicito autorização para ir buscá-lo."
Respondeu o oficial:
-"Autorização negada!" "Não quero que você arrisque a vida por um homem que, provavelmente, está morto!"
O soldado ignorando a proibição saiu e uma hora mais tarde voltou mortalmente ferido, transportando o cadáver do seu amigo.
O oficial estava furioso:
-"Eu não lhe disse que ele estava morto?!"-"Diga - me, valia a pena ir até lá para trazer um cadáver?"
E o soldado, moribundo, respondeu:
-"Claro que sim, meu comandante!Quando o encontrei, ele ainda estava vivo e disse-me:
- Tinha a certeza que virias!"
Autor: desconhecido
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