terça-feira, 30 de Junho de 2009


em Cascais - movimento a favor do relax - foto flipvinagre

guerra de marcas - quem ganha é o consumidor

Ela só fazia poemas à luz das velas, só assim conseguia trazer à luz do dia as verdades escondidas na escuridão da sua memória quase centenária, carregadas do saber da experiência e da convivência com a luz do seu interior mais esclarecido

A distinguished young woman on a flight from Ireland asked the Priest beside her, 'Father, may I ask a favour?'
'Of course, child. What may I do for you?'
'Well, I bought an expensive woman's electronic hair dryer for my mother's birthday that is unopened and well over the Customs limits, and I'm afraid they'll confiscate it. Is there any way you could carry it through customs for me? Under your robes perhaps?'
'I would love to help you, dear, but I must warn you: I will not lie.'
'With your honest face, Father, no one will question you.'
When they got to Customs, she let the priest go ahead of her.
The official asked, 'Father, do you have anything to declare?'
'From the top of my head down to my waist, I have nothing to declare.'
The official thought this answer strange, so asked, 'And what do you have to declare from your waist to the floor?'
'I have a marvelous instrument designed to be used on a woman, but which is, to date, unused.'
Roaring with laughter, the official said, 'Go ahead, Father. Next!'

segunda-feira, 29 de Junho de 2009


em Cascais - foto flipvinagre

é a escrita
o resultado dos olhares filtrados
que nos dão que pensar
é assim o sentir
que se empresta às palavras
com as quais construímos pontes
nas estradas dos sentidos
enquanto cumprimos o tempo



dizia-se poeta de alta competição. construía poemas sem barreiras. um dia faltou-lhe a caneta,
não conseguiu cortar a meta

foto/imagem de Brad Downey

"Um pouco de tolerância, um pouco de senso e ainda um pouco de bom humor, e você não imagina como poderia tornar agradável a sua permanência neste planeta!"

Somerset Maugham

domingo, 28 de Junho de 2009


fui ver uma lenda viva: Chick Corea, um dos maiores pianistas e vultos do jazz mundial, a par de Keith Jarrett, por exemplo.
Corea tocou com Miles Davis em "In a Silent Way" e "Bitches Brew", recebeu múltiplos Grammy e foi descrito pela All About Jazz como "um artista que definiu e redefiniu o curso da música moderna".

Entre nós reviveu os seus mentores, Duke Ellington, Bill Evans, Thellonius Monk e algumas melodias de sua autoria, brindando a audiência com o requinte de um concerto a solo, puxando pela participação do público, que teve direito a um “encore”. Em suma, um espectáculo na verdadeira acepção do termo.
Fotografias nem pensar, fica a imagem na lateral para recordação.

ao largo de Cascais - foto flipvinagre


azul
sinto azul em mim
azul do mar azul do céu
noite ou dia
um azul infinitamente grande
onde voo e navego
sou asas
sou vela
sou livre

«Se apenas houvesse uma única verdade, não poderiam pintar-se cem telas sobre o mesmo tema.»

Pablo Picasso
"Morre lentamente quem não viaja, quem não lê quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo...
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece...
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade."

Pablo Neruda

em Cascais - foto flipvinagre

sábado, 27 de Junho de 2009



Inocência e possibilidade:

As imagens eram próximas / Como coladas sobre os olhos / O que nos dava um rosto justo e liso / Os gestos circulavam sem choque nem ruído / As estrelas eram maduras como frutos / E os homens eram bons sem dar por isso.

Um dos poemas inéditos de Sophia de Mello Breyner Andresen, está num papelinho escrito a tinta permanente azul, escrito na Granja, a 31 de Agosto de 1943, quando os verões ainda se passavam no Norte (vidé Público).
Hoje, no DN, sobre a cidade que mais me diz e com uma idéia interessante:


"A filosofia desceu ao Metro

por Ferreira Fernandes


Esta semana, o metropolitano de Londres começou a prestar um novo serviço: frases. Além das informações práticas - do género da nossa "Próxima paragem, Marquês de Pombal" -, os altifalantes londrinos debitam sabedorias de gente célebre ou provérbios de povos longínquos. Passou a ouvir-se: "A vida é mais do que aumentar a velocidade", de Mahatma Ghandi. E: "Nunca critiques um homem até andares uma milha nos seus mocassins", de uma tribo índia americana. O artista que vendeu a ideia à administração do Metro londrino acredita no género humano e acha-o disponível para ouvir mais do que o prudente (porque os cais londrinos, às vezes, não se chegam ao comboio) "Atenção ao buraco." A escolha das frases célebres implica algum exercício de bom senso, daí se ter proibido a frase de Sartre "O Inferno são os outros" porque o comboio pode estar parado num túnel e com as carruagens cheias. Eu aconselharia também que nunca se usasse "A luz ao fundo do túnel pode ser de um trem vindo em sentido contrário" (de Robert Lowell). Por outro lado, devia repetir-se a frase imortal de Chesterton: "A melhor maneira de apanhar um comboio é perder o anterior."

Parece que estou a ouvir "Mind the Gap, Mind the Gap" and just like Winston Churchill said " Attitude is a little thing that makes a big difference".
Think about...

"Eis o que aprendi
nesses vales
onde se afundam os poentes:
afinal tudo são luzes
e a gente se acende é nos outros.
A vida é um fogo,
nós somos suas breves
incandescências."

Mia Couto

sexta-feira, 26 de Junho de 2009



Acho piada quando encontramos alguém com o qual não temos grande relacionamento e procuramos algo para estabelecer ‘ligação’, do tipo 'conversa de enrola':

A - pois é...
B - cá estamos...
A - tem que ser...
B - é isso...

no Estoril - foto flipvinagre

quinta-feira, 25 de Junho de 2009


Ile de la Cité (1952) - fotografia de Henri Cartier-Bresson

"Para mim há sempre pontos de interrogação por todo o lado. A única coisa interessante são as perguntas, não as respostas. Saber do que se trata. É sempre este o problema. Do que se trata ? O que é ? Por quê ?"’

Henri Cartier-Bresson

A minha querida amiga Ani (Ana Prata) actualizou o seu Site, ora dêem uma espreitadela, ficou muito bonito, clickem aqui ou na lateral.
Parabéns Ani, beijinho :-)

como gostei de "Budapeste" eis-me descobrindo de novo Chico Buarque:
Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das joias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor. Não sei se foi sempre assim, se meus antepassados suavam debaixo de tanta roupa. Minha mulher, sim, suava bastante, mas ela já era de uma nova geração e não tinha a austeridade da minha mãe. Minha mulher gostava de sol, voltava sempre afogueada das tardes no areal de Copacabana. Mas nosso chalé em Copacabana já veio abaixo, e de qualquer forma eu não moraria com você na casa de outro casamento, moraremos na fazenda da raiz da serra. Vamos nos casar na capela que foi consagrada pelo cardeal arcebispo do Rio de Janeiro em mil oitocentos e lá vai fumaça. Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira que ficarei completamente bom. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras de meu avô. Mas se você não gostar da raiz da serra por causa das pererecas e dos insetos, ou da lonjura ou de outra coisa, poderíamos morar em Botafogo, no casarão construído por meu pai. Ali há quartos enormes, banheiros de mármore com bidês, vários salões com espelhos venezianos, estátuas, pé-direito monumental e telhas de ardósia importadas da França. Há palmeiras, abacateiros e amendoeiras no jardim, que virou estacionamento depois que a embaixada da Dinamarca mudou para Brasília."

Chico Buarque in "Leite Derramado", 2009 (excerto)

quarta-feira, 24 de Junho de 2009


nada de desperdícios...

não é o ar quente do passeio marítimo
não é o sol a pique na hora crítica do dia
não é o gelado que derrete
não é o voo da gaivota que esqueço
não é aquela onda que rebentava perto de ti
não é o veleiro que abrigava a nossa ansiedade
é não ter palavras
para gritar a tua ausência.


Para saber o quanto a nossa felicidade depende da jovialidade do ânimo e este do estado de saúde, é preciso comparar a impressão que as mesmas situações ou eventos exteriores provocam em nós nos dias de saúde e vigor com aquela produzida por eles quando a doença nos deixa aborrecidos e angustiados. O que nos torna felizes ou infelizes não é o que as coisas são objectiva e realmente, mas o que são para nós, na nossa concepção. É o que anuncia Epicteto: O que comove os homens não são as coisas, mas a opinião sobre elas. Em geral, 9/10 da nossa felicidade repousam exclusivamente sobre a saúde. Com esta, tudo se torna fonte de deleite. Pelo contrário, sem ela, nenhum bem exterior é fruível, seja ele qual for, e mesmo os bens subjectivos restantes, os atributos do espírito, do coração, do temperamento, tornam-se indisponíveis e atrofiados pela doença. Sendo assim, não é sem fundamento o facto de as pessoas se perguntarem umas às outras, antes de qualquer coisa, pelo estado de saúde e desejarem mutuamente o bem-estar. Pois realmente a saúde é, de longe, o elemento principal para a felicidade humana. Por conta disso, resulta que a maior de todas as tolices é sacrificá-la, seja pelo que for: ganho, promoção, erudição, fama, sem falar da volúpia e dos gozos fugazes. Na verdade, deve-se pospor tudo à saúde.

Arthur Schopenhauer

Por isso, espero que estejam todos bem.
O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê.

Platão


relembrando os Clássicos:

A velocidade do tempo é infinita, e só quando olhamos para o passado, é que temos consciência disso. O tempo ilude quem se aplica ao momento presente, de tal modo é insensível a passagem do seu curso vertiginoso. Queres saber porquê? Porque todo o tempo passado se acumula num mesmo lugar; todo o passado é contemplado em bloco, forma uma totalidade; todo ele se precipita no mesmo abismo. De resto, não é possível delimitar grandes intervalos nesta nossa vida tão breve. A existência humana é um ponto, é menos que um ponto. Só por troça é que a natureza deu a tão diminuta existência a aparência de uma grande duração, dividindo-a em infância, em adolescência, em juventude, em período de transição da juventude à velhice, finalmente em velhice. Tantos períodos num tão exíguo espaço de tempo!

(...) Habitualmente não me parecia tão veloz a passagem do tempo; agora, porém, parece-me incrivelmente rápida, talvez porque sinto aproximar-se o fim, talvez porque passei a dar-lhe atenção e a avaliar o desgaste que em mim provoca. Por isso mesmo me causa indignação ver como as pessoas gastam em futilidades a maior parte de uma vida que, mesmo dispendida com a maior parcimónia, não seria bastante para as coisas essenciais.

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'


Pés para que os quero
Se tenho asas para voar.

Frida Kahlo - Diário 1953

terça-feira, 23 de Junho de 2009


S.P.Estoril - foto flipvinagre

diria que são belas, imperiais


Eu nem sequer gosto de escrever, Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida

Eugenio de Andrade

o que de mim já não existe,
que ficou lá no tempo de então,
guarda-o a casca de um embondeiro,
é um registo feito à mão,
minha e tua


e lembras-te quando entravamos na floresta simplesmente para ouvir os sons dentro dela e no sorriso largo e maravilhado que deixavamos em todas as suas direcções?
Pois é, esse foi o tempo em que vivemos puros


A poesia é a emoção expressa em ritmo através do pensamento, como a música é essa mesma expressão, mas directa, sem o intermédio da ideia.
Musicar um poema é acentuar-lhe a emoção, reforçando-lhe o ritmo.

Fernando Pessoa

bananas e maré baixa não combinam ...

segunda-feira, 22 de Junho de 2009



A melhor prova duma real amizade está em evitar os compromissos entre aqueles que se estimam. Ainda que devendo muito aos que muito me louvam, eu não quero ser-lhes obrigada pela gratidão. Mas sim grata porque estou com eles, devido a circunstâncias que a todos nós agradam e são um laço mais entre nós, sem constituírem um dever. Eu pretendo dizer da amizade o que Diógenes dizia do dinheiro: que ele o reavia dos seus amigos, e não que o pedia. Pois aquilo que os outros têm pelo sentimento comum não se pede, é património comum. Neste caso, a Amizade.

Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'

O silêncio desce e de novo a quietude do mundo suspende os instantes do amanhã numa pausa que saboreio com a lua, e ela brilha com o vento das novidades solares, libertando a luz que nos ilumina neste presente transitório

Banksy é um artista de graffittis, talvez o mais conhecido do globo. As suas ‘obras’ encontram-se principalmente nas ruas de Londres e não é muito difícil encontrá-los, pois Bansky já conquistou estatuto municipal.

Banksy começou as suas aventuras pictóricas em Bristol integrado no Bristol's DryBreadZ Crew. Ninguém sabe o seu verdadeiro nome, os pais pensam que que é decorador. Os seus trabalhos já chegaram às galerias de Londres e Nova Iorque graças aos marchand d’art, sempre á procura de novidades.

Os graffittis de Banky caracterizam-se pela crítica social e política, em versão light ou mordaz. Faz da provocação o isco para interagir com quem passa.Porque são positivos e revestem uma mensagem com valores, aqui ficam para que se lhes dê o devido valor.

eis a diferença (substancial) entre 'graffiti' e 'destruição' que se vai vendo por aí...
«O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou»

Vergílio Ferreira


A Mentira é a Base da Civilização Moderna

É na faculdade de mentir, que caracteriza a maior parte dos homens actuais, que se baseia a civilização moderna. Ela firma-se, como tão claramente demonstrou Nordau, na mentira religiosa, na mentira política, na mentira económica, na mentira matrimonial, etc... A mentira formou este ser, único em todo o Universo: o homem antipático.
Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita. A máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa, e portanto, respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar impunemente, todos os assassinatos; como utilitarismo, todos os roubos; como senso prático, todas as tolices e loucuras.
A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são súbditos desta omnipotente Majestade. Derrubá-la do trono; arrancar-lhe das mãos o ceptro ensaguentado, é a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direcção dos grandes mestres de obras, que se chamam Jesus, Buda, Pascal, Spartacus, Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Tolstoi, Reclus, Bakounine, etc. etc.
...
E os operários que têm trabalhado na obra da Justiça e do Bem, foram os párias da Índia, os escravos de Roma, os miseráveis do bairro de Santo António, os Gavroches, e os moujiks da Rússia nos tempos de hoje. Porque é que só a gente sincera, inculta e bárbara sabe realizar a obra que o génio anuncia? Que intimidade existirá entre Jesus e os rudes pescadores da Galileia? Entre S. Paulo e os escravos de Roma? Entre Danton e os famintos do bairro de Santo António? Entre os párias e Buda? Entre Tolstoi e os selvagens moujiks? A enxada será irmã da pena? A fome de pão parecer-se-à com a fome de luz?...

Teixeira de Pascoaes in "A Saudade e o Saudosismo"

Reflexões

"Os sete pecados capitais responsáveis pelas injustiças sociais são: riqueza sem trabalho, prazeres sem escrúpulos, conhecimento sem sabedoria, comércio sem moral, política sem idealismo, religião sem sacrifício e ciência sem humanismo."

"O futuro dependerá daquilo que fazemos no presente."

"O que pensais, passais a ser!"

"A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte."

Mahatma Gandhi

domingo, 21 de Junho de 2009


ao largo de Cascais - foto flipvinagre
O poeta é incapaz de conter um segredo, acaba sempre por dizer no poema aquilo que queria guardar só para si

Eugénio de Andrade

Ontem Mariza 'apareceu' na baía de Cascais e deu um concerto espectacular, a baía encheu para ouvir a menina mais bonita do fado. Valeu a pena, é sempre um prazer imenso ouvi-la cantar, aquela voz maravilhosa entra cá dentro e arrepia-nos a alma e enche-nos de orgulho. Chegou num pequeno barco, deu meia volta na baía já a cantar e subiu ao palco com o público já ufano de poder contar e cantar com ela. Deu-nos a conhecer algumas músicas do seu novo album 'Terra' e cantou temas sempre magníficos, de que destaco 'Fado meu', um dos fados da minha preferência.

A época dos espectáculos vem aí e recheada de bons valores, no âmbito do Cascais CoolJazz Fest (programa aqui) e do Estoril Jazz, a não perder, claro, Chick Corea, Eliane Elias, Lisa Ekdahl, Buika, James Taylor...

sábado, 20 de Junho de 2009


na Av. Inf. Santo, Lisboa - foto flipvinagre


E se todo e qualquer ser humano, certa noite, tivesse o mesmo sonho?
Na manhã seguinte andariamos estranhos, olhariamos uns para os outros com desconfiança, a nossa presença uns perante os outros seria intrigante, até que o primeiro perguntasse: o que se passa?
Fará esta singela cogitação alguma razão de ser ou trata-se unicamente de especulação? Inclino-me para ambas, embora com pendor para a primeira, era coincidência que me faria prazer de ver. Aliás, o campo das coincidências é fabuloso, dá azo para alargar horizontes, colocar no mapa da existência mais este ou aquele episódio, grotesco, rocambolesco ou puramente imaginativo.
Tenho que ter mais cuidado com este sol das onze e cinquenta e cinco da manhã e com a especulação que as escadinhas da praia me suscitam sempre que atinjo o último patamar, mas que é curioso lá isso é!


Há um pequeno livro de Marcel Proust que se chama o Prazer da Leitura, e que é um pequeno ensaio sobre o que o título diz e começa com uma descrição do pensamento de um autor Inglês sobre o mérito da leitura.
Segundo esse autor, a leitura é uma experiência humana única pois permite a qualquer um experimentar o outro, sem a limitação do tempo e do lugar: através da leitura podemos privar com pessoas que nunca teriam sido nossas amigas e com as quais jamais nos teriamos cruzado. A simples prática das traduções amplia essa possibilidade consideravelmente, derrubando mais uma limitação: a da língua. A leitura era assim - para esse autor Inglês - a experiência da humanidade por excelência. Como nenhuma outra actividade, ler, permitiria a qualquer um conhecer os melhores, ser amigo de almas gémeas milenares ou, para além de milenares, que tivessem vivido no outro lado do mundo e falassem línguas inacessíveis para o nosso conhecimento.
Em síntese, os livros seriam a grande experiência de fraternidade humana.
Porém, Proust afirma que o prazer da leitura não é nada disso. Está errado o amigo Inglês. O prazer da leitura é o prazer do diálogo que estabelecemos connosco no momento da leitura. É falso que o diálogo principal seja estabelecido com o outro que existiu ou existe e escreveu. No silêncio da noite, no recolhimento do tempo de ler, nas impressões e sensações que se vão formando com o acto de ler mais do que o outro, experimentamo-nos a nós e é esse o prazer maior da leitura, é o prazer de estar connosco, de nos descobrirmos.
Creio que as duas posições se tocam, através da leitura completamo-nos, e também é grato e reconfortante conhecer o pensamento dos outros, partilhá-lo, sendo mais uma forma de, através dos outros, nos enriquecermos. Eis uma das vantagens da net, que Proust ou Pessoa, Camus ou Eugénio de Andrade, caso vivessem hoje, certamente iriam partilhar.

sexta-feira, 19 de Junho de 2009



Concordo com Delmore Schwartz:
"uma mulher nua é uma prova da existência de Deus".
Podia dizer: uma prova suficiente. Apenas
o indispensável para que a dúvida se dissipe,
e o grande cenário do Paraíso se abra
em écran gigante e som estereofónico (sim:
os anjos cantam por cima disto).

Nuno Júdice


Lars e o Verdadeiro Amor
Lars and the Real Girl
De: Craig Gillespie
Com: Ryan Gosling, Emily Mortimer, Paul Schneider
Género: Comédia, Drama
EUA 2007

um filme que é uma surpresa e com uma história que nos reconcilia com a vida, mesmo que o faça apenas durante o breve espaço de tempo em que o vemos.
Lars é um jovem com problemas, é introvertido e magoado, vive à parte (numa casa construída no quintal da irmã e do cunhado), numa pequena e simpática comunidade no norte dos EUA, onde todos gostam dele e o compreendem, aceitando a sua singular idiossincrasia. Certo dia, Lars surge em casa da irmã com uma estranha «namorada»: uma boneca insuflável que encomendara pela net e que corresponde ao seu ideal de perfeita companheira.
Não existe no caso qualquer «perversão» de carácter sexual. A boneca é, para Lars, objecto de devoção e de ternura, a companheira «perfeita» que não desilude quem nela confia. Bianca (como se «chama») é, para Lars, um ser vivo, que ele trata com respeito, e como ser vivo «passeia» pela cidade, «vai» às compras e mais tarde «cai» de cama «doente»."
Interessantíssimo o envolvimento de toda a comunidade em redor de Lars, que o ajuda a superar o seu «problema», a solidariedade e a compreensão humana são realçadas neste filme, paradoxal, onde a comédia romântica dá lugar à superação de um drama pessoal. A ver, sem dúvida.


Ainda conseguiu voltar a superfície e pôr outra vez a cabeça fora de água. Então deram-lhe mais uma bordoada com a pá do remo, sólida e certeira, bem no alto da cabeça. Ao mergulhar definitivamente, engolindo água e sentindo-se ir para o fundo, teve um último pensamento lúcido:
«Que felizes devem ser os anfíbios!».

Mário-Henrique Leiria in ”novos contos do gin”, 1978


" Um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir,qualquer coisa que faça não pensar"

Bernardo Soares. Fernando Pessoa
Livro do Desassossego

quinta-feira, 18 de Junho de 2009


Casa/Museu C Castro Guimarães, Cascais - foto flipvinagre


«Creio que a verdade é perfeita para as matemáticas, a química,
a filosofia, mas não para a vida.
Na vida, a ilusão, a imaginação, o desejo, a esperança contam mais.»

Ernesto Sábato


"Assim, apesar de diminuir a nossa sensação de certeza quanto ao que as coisas são, a filosofia aumenta em muito o nosso conhecimento do que elas podem ser; ela elimina o dogmatismo algo arrogante daqueles que nunca viajaram no território da dúvida libertadora, e mantém vivo o nosso sentido de deslumbramento ao mostrar coisas familiares sob um aspecto estranho."

Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia

porque me apeteceu especular...

quarta-feira, 17 de Junho de 2009


«Um grande inventor respondia um dia a quem lhe perguntava como fazia para ter tantas ideias novas: 'pensando ininterruptamente nelas'. E, de facto, bem pode dizer-se que as ideias inesperadas nos vêm porque estávamos à espera delas. São em grande parte o resultado conseguido de um carácter, de certas inclinações constantes, de uma ambição tenaz, de uma incessante ocupação com elas. Que tédio uma perseverança assim! Mas vista de outro ângulo, a solução de um problema intelectual não acontece de modo muito diferente, como um cão que traz um pau na boca e quer passar por uma porta estreita; vira a cabeça para a esquerda e para a direita tantas vezes até que consegue passar com o pau; o mesmo acontece connosco [...] de repente estamos do outro lado, e sentimos claramente um ligeiro desconcerto em nós pelo facto das ideias terem vindo por sua iniciativa, em vez de esperarem pelo autor.»

Robert Musil, O homem sem qualidades

No Vale de Elah
Título original: In the Valley of Elah (EUA, 2007)
De: Paul Haggis
Com: Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Susan Sarandon, Jonathan Tucker
Género: Drama, Thriller

Depois de regressar do Iraque, Mike Deerfield (Jonathan Tucker) desaparece e é considerado desertor. O pai(Tommy Lee Jones, num surpreendente desempenho) é um veterano, e a sua mulher Joan (Susan Sarandon) recebem o telefonema com a trágica notícia do desaparecimento do filho. O pai resolve procurá-lo. A detective Emily Sanders (Charlize Theron) ajuda-o na investigação, mas à medida que o mistério se revela e Hank descobre pormenores sobre a missão do filho no Iraque, tudo aquilo em que acreditava é posto em causa.
Um filme sobre a perda e uma interrogação sobre o sentido dessa perda. Uma contribuição de peso de Tommy Lee Jones. De facto, é ele quem domina inteiramente o filme, é ele que marca as suas variações dramáticas e dá o mote para todos os seus comparsas. Mesmo uma Charlize Theron admiravelmente desglamourizada parece ceder ao seu magnetismo e acompanhar o seu movimento como o par de uma dança.
Por outro lado, resulta ainda do filme a desumanidade e a insensibilidade que a guerra produz no soldado norte-americano e que os leva a considerar a vida (até dos próprios camaradas) como algo banal. A ver.

Farol de Sta. Marta, Cascais - foto flipvinagre


"Nunca tinha sido capaz de me enamorar, nunca tinha encontrado a mulher perfeita; havia sempre algo errado. Foi quando conheci Doris, uma mulher maravilhosa, com uma grande personalidade. Mas por alguma razão, não me atraiu sexualmente, não me pergunte porquê. Foi quando me cruzei com Rita, um verdadeiro animal, indecente, problemática. Adorava ir para a cama com ela. No entanto, mas tarde, o meu pensamento virava-se sempre para Doris. Então, pensei: e se fosse possível pôr o cérebro de Doris no corpo de Rita? Tal seria maravilhoso. E porque não? Preparei a operação e correu tudo bem. No fim estava satisfeito. Tinha mudado as suas personalidades. Cheguei ao pé de Rita e disse-lhe que era uma mulher ardente, doce, sexy, maravilhosa, madura... mas que estava apaixonado por Dóris."

Woody Allen in "Memórias" (1980)

hoje: inauguração oficial da época balnear 2009, com condições de sol e mar soberbas, praia excelente com ondas elegantes e estrelas do mar serpenteantes. Aleluia!

terça-feira, 16 de Junho de 2009


Hipódromo Municipal Manuel Possolo, em Cascais (onde de 10 a 13/06 teve lugar o Festival Internacional do Cavalo Puro Sangue Lusitano)- foto flipvinagre

you, me and almost everybody

Mia Couto escreveu este delicioso conto, não exclusivamente para o público infanto-juvenil ou infantil, mas “para a criança que há em cada um de nós” (sic). Ou seja, para um público sem idade. O Autor revelou em entrevista às Correntes d’Escritas – Encontro Internacional de Escritores de Expressão Ibérica, na Póvoa de Varzim (Fevº/08), o seguinte:

- Aqui há tempos, dei um autógrafo a um menino que tinha lido esse livro. Conversámos um pouco, mas só quando lhe perguntei se ele tinha medo do escuro é que ele respondeu, é que ele falou realmente comigo: "Sim. E Tu?" e eu respondi "Também." Então aconteceu algo de extraordinário: Ele sentiu-se na obrigação de me consolar e, com isso, citou-me uma frase do livro como se fosse dele – Somos nós que enchemos o escuro com os nossos medos! - Para mim foi o melhor prémio literário que tive até hoje!
We live we die and the wheels on the bus go round and round
vivemos e morremos e tudo continua a girar

(afirmação de Jack Nicholson a Morgan Freeman no filme “the bucket list” sobre a existência (ou não) de Deus)

segunda-feira, 15 de Junho de 2009


Pausa

Sentada, de costas para mim, olhas
esse ponto em que todos os sonhos
se concentram; e a serenidade envolve-te
com o seu lençol efémero, para que
não penses em mais nada.

Nuno Júdice

Oeiras - foto flipvinagre


Deixa as mãos cegas
Aprender a ler o meu corpo
Que eu ofereço vales
curvas de rio
óleos
Deixa as mãos cegas
Descer o rio
Por montes e vales.

Ana Paula Tavares


O Verdadeiro e o Falso

A primeira diligência do espírito é a de distinguir o que é verdadeiro do que é falso. No entanto, logo que o pensamento reflecte sobre si próprio, o que primeiro descobre é uma contradição. Seria ocioso procurar, neste ponto, ser-se convincente. Ninguém, há séculos, deu uma demonstração mais clara e mais elegante do caso do que Aristóteles: "A consequência, muitas vezes ridicularizada, dessas opiniões é que elas se destroem a si próprias".

Porque, se afirmarmos que tudo é verdadeiro afirmamos a verdade da afirmação oposta, e, em consequência, a falsidade da nossa própria tese (porque a afirmação oposta não admite que ela possa ser verdadeira). E, se dissermos que tudo é falso, essa afirmação também é falsa. Se declararmos que só é falsa a afirmação oposta à nossa, ou então que só a nossa e que não é falsa, somos, todavia, obrigados a admitir um número infinito de juízos verdadeiros ou falsos.

Porque aquele que anuncia uma afirmação verdadeira, pronuncia ao mesmo tempo o juízo de que ela é verdadeira, e assim sucessivamente, até ao infinito.

Albert Camus, in "O Mito de Sísifo"

domingo, 14 de Junho de 2009



O VALOR DO VENTO

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo

um piano como música de fundo,
um lago onde a lua reflecte a sua vaidade
e tu, com um sim nos lábios,
eis os ingredientes certos para que não questiones
os inconvenientes dos dias úteis

sábado, 13 de Junho de 2009



O velho ancião largou a solidão do seu lugar e caminhou finalmente pela estrada nova para colher as impressões da novidade

écrire c'est surtout essayer de survivre - Le Clézio

94 milhões foi o valor da transferência do Cristiano Ronaldo para o Real Madrid. Um valor destes é absurdo, inflacionista, desajustado e revela, no fim de contas, que
os criadores de ilusões deturpam ainda mais a sociedade de consumo, confundindo-a ou condenando-a a níveis que ultrapassam o admissível.

sexta-feira, 12 de Junho de 2009


o poeta sente o que o comum mortal não sente, o poeta vê o que o comum mortal não vê, o poeta não tem os sentidos mais apurados, mas a sua sensibilidade, à flor da pele, desperta com o mais pequeno raio de luz, colorindo o que antes não possuía cor, ou vida, ou sentido, ou...

verde código verde, a ladaínha ouve-se nas catedrais de consumo, mas com o substancial endividamento de muitos consumidores, já deveria ter sido substituída a cantilena, agora deveria ser amarelo código amarelo...


Estou muito mais descansado...
"Estudo publicado na "Nature" - Mercúrio, Marte, Vénus e Terra passarão três mil milhões de anos sem colidir"
(vidé 'Público')


um artigo interessante na ípsilon, da autoria de Miguel Portas(texto) e Camilo Azevedo (fotografias)
"A esquerda falhou completamente nos países islâmicos do Mediterrâneo
O Sul do Mediterrâneo andou devagar milhares de anos. De repente, levou com colonialismo, ditaduras, globalização - e refugiou-se nas mesquitas. A esquerda tem culpa, reconhece Miguel Portas. "Périplo", com texto de Portas e fotografias de Camilo Azevedo, é uma viagem no tempo e no espaço.(...)
A dificuldade de fazer em 50 anos o caminho que as sociedades do Norte puderam fazer em 150 ou 200, ou seja, a aceleração dos tempos no presente. Onde tive a melhor ideia disto foi em Sana, no Iémen. O camelo ainda é meio de transporte e o último todo-o-terreno também. A sociedade é a do petróleo e ao mesmo tempo tão arcaica, conservadora e fechada como os sauditas das areias. Foi aí que tive a noção de como é difícil a comunidades tribais lidarem com a avalancha de modernidade e ao mesmo tempo com o facto de os modernistas que os dirigiram serem ditadores.(...)
Os poderes locais sempre foram fortíssimos.(...)
A esquerda é vítima quer da força da religião como resistência identitária quer das ditaduras. (...)
A esquerda árabe é tributária da formação marxista europeia e teve sempre dificuldade em compreender o fenómeno religioso. O que faço no livro é um exercício que hoje muita gente na esquerda faz: tentar compreender o fenómeno religioso depois de a fractura entre religião e ciência ter deixado de ser o que era. Hoje a ciência não tem que se opor à fé para resolver problemas de ordem filosófica que decorrem estritamente da crença. Não há resposta científica para algo que decorre da fé. O facto de eu não ter religião, e de pensar que a religião é um produto dos homens, permite-me ter a distância que de algum modo um jornalista pode ter. Não parto para a análise da religião com um "parti pris" de ateu. Parto para a análise da religião como fenómeno humano, que é o que me interessa.(...)
Em Alepo, em 2007, num encontro ecuménico, defendi isto: pelo menos podemos concordar que o homem inventa Deus à sua semelhança. E no fim eles declararam-me crente: você acredita no homem. E eu disse que sim. Tive que dizer. Mas, de facto, hoje não tenho uma crença particular no homem. Transitei do cristianismo para o marxismo bastando-me acreditar no homem. Substituí uma crença por outra. E hoje estou convencido de que o homem é capaz do pior e do melhor, e que não há nenhum destino escrito. Não há uma bondade inata que, no fim, triunfe sobre o mal. É possível, aliás, que o mal triunfe. Tenho a certeza absoluta que se quiser algum bem tenho que lutar muito, e que vale a pena fazê-lo. Mas hoje a minha relação com a crença na humanidade resume-se a quase uma atitude egoísta: poder chegar ao fim da vida e achar que, apesar de tudo, fui útil, não sacaneei o próximo, não fiz coisas de que me tenha mesmo que arrepender. Que a minha vida teve algum sentido - e só entendo a minha vida com outros.(...)
Não me esqueço de um momento em Gaza, num encontro com vários deputados, em que eu e a [eurodeputada] Luisa Morgantini estamos a discutir com eles: "Porque é que continuam a atirar 'rockets'? Isso não presta para nada, não tem nenhum efeito militar, só une a sociedade israelita contra vocês. Que falta de sentido nisso!". E um homem da FDLP [partido de esquerda] levanta-se e diz: "São capazes de ter razão, mas digam-me lá o que faz um gato numa jaula? Pelo menos tem que mostrar as garras. Isto são as nossas garras. A gente sabe que não serve para nada, mas temos que mostrar qualquer coisa".
Gostei de ler, hoje no DN a douta opinião de Paulo Pinto de Albuquerque, revelando algo que corresponde, estou em crer, ao sentimento generalizado da grande maioria dos portugueses, conclusão que, aliás, é coerente nos pressupostos e na respectiva conclusão, muito bem.
"Dívida sem aval
O Governo tem um programa de grandes obras públicas que inclui o novo aeroporto de Lisboa, o TGV e um conjunto de novas auto-estradas. Deste conjunto de auto-estradas já foram adjudicadas seis subconcessões rodoviárias, num investimento de cerca de três mil milhões de euros. Há ainda duas subconcessões, as auto-estradas do Centro e pinhal interior, que ainda não foram adjudicadas. Trata-se de um investimento de mil milhões de euros em cada um dos casos. Os encargos vão onerar os portugueses nos próximos trinta anos.
Uma obra desta dimensão requer um consenso mínimo da sociedade portuguesa. Por esta razão óbvia: esta opção condiciona de modo decisivo a liberdade da próxima geração de gerir os seus destinos, pois limita muito significativamente os meios financeiros de que ela poderá dispor. Dito sem rodeios, uma dívida desta dimensão exige um aval claro do povo português, e o Governo quer avançar sem esse aval.
Com efeito, o resultado das eleições europeias foi claro. O PSD venceu e o povo português sufragou maioritariamente as suas propostas, que associavam intimamente os assuntos europeus e nacionais. A principal proposta do PSD neste sector das grandes obras públicas foi precisamente a de pôr cobro a um programa sobredimensionado de grandes obras públicas, cujo retorno económico é incerto e cujos encargos desmesurados são certos. Este assunto foi tema da campanha. Os candidatos pronunciaram-se sobre ele repetidamente. Os cartazes do PS nas ruas falavam até de um "direito ao TGV". Por isso, não é legítimo dizer agora que o assunto não foi submetido ao sufrágio do povo. Ao contrário, este assunto estava em cima da mesa e o povo português pronunciou-se no sentido da rejeição das propostas do Governo.
É claro que o povo português não pode ficar refém desta má opção do Governo. Se nas eleições legislativas o povo português confiar maioritariamente o seu voto no PSD, o novo Governo pode resolver os contratos entretanto celebrados, invocando para o efeito razões de interesse público e pagando ao co-contratante uma justa indemnização. A indemnização a que o co-contratante tem direito corresponde aos danos emergentes e aos lucros cessantes, devendo, quanto a estes, ser deduzido o benefício que resulte da antecipação dos ganhos previstos. Por isso, a indemnização seria sempre elevadíssima, a que acresceria o dano colateral grave para a imagem do Estado português como parceiro de negócios desta dimensão.
O respeito pela vontade de povo português impõe, pois, que o Governo retroceda no seu propósito de avançar com novos contratos de adjudicação de obras até ao termo da legislatura e, designadamente, que pare o processo de contratação para as novas subconcessões das auto-estradas do centro e Pinhal interior. Se der luz verde para os novos contratos, o governo está a contrair mais uma dívida brutal para todos nós e para os nossos filhos. Sem o aval do povo português."

quinta-feira, 11 de Junho de 2009


Cascais, hoje - foto flipvinagre

toldo, água e sol q.b., receita fantástica para a boa disposição

"É preciso sonhar e continuar. É preciso continuar o duplo jogo e opor a ilusão à realidade e crer obstinadamente no próprio sonho e fazê-lo viver e sobreviver e continuar a alimentar esse sonho."

Cervantes, in "D. Quixote de La Mancha"


Essencial é que cada um descubra o melhor trajecto e colha as impressões mais agradáveis e possíveis nesta viagem, antes que se esgote a validade do bilhete ou algum percalço pelo meio torne ingrata a superior tarefa de sermos felizes

quarta-feira, 10 de Junho de 2009



a vida é feita de pequenas coisas, um pequeno porsche, um pequeno iate, uma pequena mansão nos alpes suiços, um pequeno emprego no governo das arábias...


Valeu, hoje, o discurso de António Barreto (já on line no 'Público') e destacaria:
" Dia de Portugal... É dia de congratulação. Pode ser dia de lustro e lugares comuns. Mas também pode ser dia de simplicidade plebeia e de lucidez.Várias vezes este dia mudou de nome. Já foi de Camões, por onde começou. Já foi de Portugal, da Raça ou das Comunidades. Agora, é de Portugal, de Camões e das Comunidades. Com ou sem tolerância, com ou sem intenção política específica, é sempre o mesmo que se festeja: os Portugueses. Onde quer que vivam.(...)
Comemora-se para criar ou reforçar a unidade. Para afirmar a continuidade. Para reinterpretar o passado. Para utilizar a História a favor do presente. Para invocar um herói que nos dê coesão. Para renovar a legitimidade histórica. São, podem ser, objectivos decentes. Se soubermos resistir à tentação de nos apropriarmos do passado e dos heróis, a fim de desculpar as deficiências contemporâneas. Não é possível passar este dia sem olharmos para nós. Mas podemos fazê-lo com consciência. E simplicidade.(...A Sociedade e o Estado são ainda excessivamente centralizados. As desigualdades sociais persistem para além do aceitável. A injustiça é perene. A falta de justiça também. 0 favor ainda vence vezes de mais o mérito.(...)
A cidadania europeia é uma noção vaga e incerta. É um conceito inventado por políticos e juristas, não é uma realidade vivida e percebida pelos povos. É um pretexto de Estado, não um sentimento dos povos. A pertença à Europa é, para os cidadãos, uma metafísica sem tradição cultural, espiritual ou política (...)
Não usemos os nossos heróis para nos desculpar. Usemo-los como exemplos. Porque o exemplo tem efeitos mais duráveis do que qualquer ensino voluntarista.
Pela justiça e pela tolerância, os portugueses precisam mais de exemplo do que de lições morais.
Pela honestidade e contra a corrupção, os portugueses necessitam de exemplo, bem mais do que de sermões. Pela eficácia, pela pontualidade, pelo atendimento público e pela civilidade dos costumes, os portugueses serão mais sensíveis ao exemplo do que à ameaça ou ao desprezo. Pela liberdade e pelo respeito devido aos outros, os portugueses aprenderão mais com o exemplo do que com declarações solenes.
Contra a decadência moral e cívica, os portugueses terão mais a ganhar com o exemplo do que com discursos pomposos. Pela recompensa ao mérito e a punição do favoritismo, os portugueses seguirão o exemplo com mais elevado sentido de justiça.
Mais do que tudo, os portugueses precisam de exemplo. Exemplo dos seus maiores e dos seus melhores. O exemplo dos seus heróis, mas também dos seus dirigentes. (...)
Dê-se o exemplo e esse gesto será fértil! (...)
Em momentos de crise económica, de abaixamento dos critérios morais no exercício de funções empresariais ou políticas, o bom exemplo pode ser a chave, não para as soluções milagrosas, mas para o esforço de recuperação do país."

vista parcial da piscina oceânica Alberto Romano(Cascais) - foto flipvinagre


Hoje comemora-se entre nós (e pelo mundo fora, onde há chama e alma lusitana) o dia de Portugal, dia de Camões e dia das Comunidades Portuguesas. Hoje há comemorações, há medalhas para alguns, palmadinhas nas costas, sorrisos envergonhados (nem sei porquê e nem me interessa, mas que há, há). E os discursos são os mesmos, todos apontam para um mundo melhor, que isto que aquilo, são do tipo programático, lá chegaremos lá chegaremos (isto desde os nossos tetravós). Oxalá os próximos dias 10 de Junho sejam mais favoráveis, este não está para celebrações, pelo menos para a grande maioria dos portugueses, dentro e fora do país. Até lá, vamos mostrando cartões amarelos que, espero, não se tornem pálidos ou descoloridos. Mas, cá bem no fundo, ainda tenho ar pra gritar, bem alto, Viva Portugal.

no DN:

"José Eduardo Agualusa espreita o trágico futuro de Luanda
por MARIA JOÃO CAETANOHoje

Em 'Barroco Tropical', lançado pela Dom Quixote, o escritor angolano imagina o futuro próximo de Luanda: o fim do petróleo, a profunda crise social, o medo. Um livro "fantasista" mas que é também um aviso. "Espero que sirva para lançar o debate, pelo menos nesse pequeno grupo de pessoas que o lêem".
"Luanda corre a toda a velocidade em direcção ao Grande Desastre", diz Bartolomeu Falcato, o escritor angolano que surgiu em As Mulheres do Meu Pai (2007) e que agora ganha protagonismo em Barroco Tropical. Bartolomeu Falcato não é José Eduardo Agualusa. Mesmo se ambos moraram em Berlim e Amesterdão, se escrevem poemas que serão musicados por João Afonso, se ouvem Bossa Nova e se até se envolveram numa polémica por criticarem a poesia de Agostinho Neto. Mesmo se ambos partilham a preocupação pelo futuro do seu país. José Eduardo Agualusa não é Bartolomeu Falcato mas gosta de lançar estas pequenas piscadelas de olho aos seus leitores, de lhes ir dando pequenos pedaços de si. E há outra maneira de escrever?
Bartolomeu Falcato, o escritor, e Kianda, a cantora, são os protagonistas de Barroco Tropical. Uma história passada em 24 horas - "de um crepúsculo a outro crepúsculo" - em Luanda. São Paulo de Assunção de Luanda. "Oito milhões de pessoas aos uivos, aos choros e às gargalhadas. Uma festa. Uma tragédia. Tudo o que pode acontecer acontece aqui. O que não pode acontecer, acontece igualmente."
De acordo com ao resumo feito na contracapa, a acção passa-se em 2020. É a única referência à data. O futuro pressente-se em pequenas coisas - as referências à senhora Presidente e ao fim do petróleo são as mais óbvias. "O futuro permite pensar melhor o presente", explica Agualusa. " É um futuro muito próximo mas que permite esse distanciamento para pensar em determinadas dinâmicas que estão presentes hoje na sociedade angolana e imaginar o que pode acontecer."
No livro, acontece o pior. "É uma distopia", reconhece o autor. "O movimento de crescimento económico quebra com o fim do petróleo, os grande prédios que estavam em construção ficam parados, a fractura social aprofunda-se e Luanda torna-se um pesadelo maior do que já é." A referência ao filme Blade Runner, de Ridley Scott, não é inocente - o ambiente é quase de um pós-apocalipse, com um prédio abandonado onde há prostitutas e raves de kuduro; com um bar que nunca fecha e onde pára um homem que perdeu o rosto e se esconde sob uma máscara do Rato Mickey; um centro médico que é como uma prisão em forma de labirinto e onde os "doentes" estão acorrentados às camas. A Termiteira, o prédio de Falcato, é um microcosmos da sociedade - as elites vivem no topo e à medida que se desce nos elevadores desce-se também na condição humana, até chegar às galerias do subsolo, habitadas por mendigos e criminosos e onde a Menina-Cão é queimada, acusada de feitiçaria.
A galeria de personagens é, na verdade, incrível. "Por isso também o livro se chama Barroco Tropical, porque tem uma exuberância de personagens que normalmente eu tento controlar", justifica o autor. "Deixei que os personagens surgissem e criei uma estrutura que fosse capaz de os amparar. "
José Eduardo Agualusa diz que este é o seu livro menos realista. "É o mais fantasista de todos, o que está menos colado à realidade." Porque tem anjos a dançar nos telhados, sonhos inexplicáveis, um jovem autista que desenha o futuro e uma Mãe Mocinha que sabe coisas que ninguém lhe disse. E, no entanto, a gente lê e acredita. "O interessante é ver como as pessoas o lêem como se fosse um documentário. O que é bom, quer dizer que acreditam naqueles personagens, que os levam a sério, mesmo se eles se movimentam entre anjos e sereias."
Luanda caminha para o desastre mas José Eduardo Agualusa acredita que ainda é possível inverter a situação. Barroco Tropical pode ser visto como "uma história de amor num contexto difícil", mas Agualusa gostaria que fosse um bocadinho mais do que isso. "Espero que sirva para lançar o debate, pelo menos nesse pequeno grupo de pessoas que o lêem, e que esse debate sirva para alterar estas tendências." Uma corrida contra o tempo. Faltam onze anos para o futuro."
no DN, Baptista-Bastos:

"Acentua-se a decadência do PS, esse projecto sem projecto, esse 'socialismo' desacreditado e desacreditante".

terça-feira, 9 de Junho de 2009



Princípios

Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

Nuno Júdice
É fácil perdoar uma criança que tem medo do escuro.
Difícil é entender um adulto que tem medo da luz

A paisagem é extraordinariamente bela, mas tu não estás e eis que o deslumbramento é vítima da mais pura negligência


Nenhum poeta canta porque tem que cantar. Pelo menos, nenhum grande poeta o faz. Um grande poeta canta porque resolve cantar. É assim agora e sempre foi. Às vezes somos levados a pensar que as vozes que se ouviam na alvorada da poesia eram mais simples, mais arejadas, mais naturais que as nossas e que o mundo que os poetas primevos contemplavam e pelo qual passeavam era dotado de uma espécie de virtude poética própria que podia quase sem alteração passar à canção. Hoje a neve está acumulada no Olimpo e suas encostas íngremes e escarpadas estão ermas e estéreis, mas imaginamos que outrora os alvos pés das musas roçavam o orvalho das anêmonas pela manhã e, à noite, chegava Apolo para cantar aos pastores do vale. Mas com isso estamos apenas atribuindo a outras eras o que desejamos, ou cremos desejar, para a nossa. Nosso senso histórico é deficiente. Todo século que produz poesia é, na medida em que o faz, um século artificial, e a obra que nos parece o produto mais natural e simples da sua época é sempre o resultado do esforço mais autoconsciente. Creia-me, Ernest, não há belas-artes sem autoconsciência, e a autoconsciência e o espírito crítico são uma coisa só. ...

Oscar Wilde, excerto de "The critic as artist"
No 'Público':
"
É o 10.º veto do PR
Cavaco Silva veta lei de financiamento dos partidos
09.06.2009 - 09h56 Leonete Botelho, Lusa
O Presidente da República vetou hoje a nova lei do financiamento dos partidos, apontando “várias objecções de fundo” ao diploma, como o “aumento substancial do financiamento pecuniário não titulado” ou a possibilidade dos partidos obterem lucros nas campanhas."

Apoiado, e penso que o veto encerra em si a vontade do povo em geral, os partidos que recolham os donativos decorrentes da sua base de apoio, das quotas dos seus apoiantes e simpatizantes, chega de 'massacrarem' os contribuintes/cidadãos com mais este peso. Cavaco amigo, estamos contigo.


"Dois estudos na Science
Só com guerras e muita gente é que ficámos “humanos”
04.06.2009 - 22h02 Nicolau Ferreira
Aparentemente não foi a genética que proporcionou por si o comportamento humano moderno. Se não houvesse conflitos entre os grupos de caçadores recolectores e se a população de humanos anatomicamente modernos não aumentasse, seria difícil a manutenção do altruísmo e a aprendizagem de todos os aspectos culturais e simbólicos que nos tornam únicos, adiantam dois artigos publicados hoje na Science.

Fazendo as contas, levou no mínimo 70 mil anos até que pessoas com anatomia igual à nossa começassem a ter um comportamento moderno, “um salto radical na complexidade tecnológica e cultural, que torna a nossa espécie única”, explica Adam Powell, autor de um dos artigos. “Isto inclui um comportamento simbólico como a arte abstracta e realista, instrumentos musicais, artefactos de marfim,” explicou o investigador da University College London.

Os primeiros testemunhos desse comportamento aparecem na África subsaariana há 90 mil anos — no continente de origem da humanidade. Perderam-se na mesma região há 65 mil anos, encontraram-se na Europa há 45 mil — pouco tempo depois destas populações chegarem cá—, recuperam-se em África há 40 mil anos e foram surgindo pelo Médio Oriente, Ásia e Austrália.

A investigação relaciona este desenvolvimento cultural com a demografia. Os modelos mostram que sem um certo número de pessoas, é impossível haver passagem do conhecimento sem a sua degeneração e é difícil que as inovações sejam aproveitadas e se mantenham nas populações. O estudo bate certo com o número de pessoas que se estima terem existido em África, Europa e Médio Oriente quando se deu a mudança cultural.

Por outro lado, Samuel Bowels, da Universidade de Siena em Itália, mostra no segundo artigo a importância dos conflitos entre estas populações para a manutenção genética dos comportamentos de altruísmo.

O altruísmo melhorava a produção e cooperação num grupo, além de proporcionar um número de pessoas prontas para combater. O resultado seria uma população mais capaz, com maior probabilidade de ganhar conflitos e ter mais descendência."

artigo no 'Público' (clicke aqui)

segunda-feira, 8 de Junho de 2009


maré baixa, Cascais - foto flipvinagre


navegar sem orientação,
livre,
ao sabor dos ventos e marés,
eis como a confiança se perde nos labirintos da liberdade

É URGENTE A POESIA

Procura a maravilha.
Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha.

Eugénio de Andrade


Ir às compras é uma excelente terapia, é destino e remédio santo para sanar aborrecimentos, afastar a monotonia, quebrar a rotina. Procurar ou obter algo que nos agrada distrai, há uma explosão de emoções e uma estimulação física e mental que contribuem para que o ego saia reforçado e renovado. E pode ser algo não muito substancial, a procura (que só por si já distrai) muitas vezes redunda num pequeno objecto ou num livro de baixo valor (a propósito, já há edições de grandes obras a baixo custo, tipo livro de bolso). Isto contribui para a nossa felicidade e bem estar? Sim. Então, façamos compras, à medida do bolso de cada um, claro.


" Forças
Luís Fernando Veríssimo
"Deus, me dê forças!"

Era a frase que toda a vizinhança ouvia, mais de uma vez por dia, vinda do apartamento do quarto andar onde moravam a dona Ritinha e seu marido Manuel, chamado por todos de Manuelão.

"Deus, me dê forças!"

A vizinhança entendia a dona Ritinha. Ela era uma santa pessoa, educadíssima. Professora de piano. Louca pelo Debussy. Uma mulher pequena de aspecto frágil. E a convivência com o Manuelão certamente não ajudava sua saúde. A vizinhança só podia imaginar o que o Manuelão, que tinha o dobro do tamanho da mulher, aprontava para provocar aquelas súplicas repetidas.

"Deus, me dê forças!"

Dona Ritinha precisava mesmo de forças para aguentar o Manuelão. O que ninguém entendia era porque aquele casamento se dera. Não poderiam haver duas pessoas mais diferentes do que a frágil e sensível dona Ritinha e seu gordo e lamentável marido. Nada combinava menos com Debussy do que o Manuelão. Mas o casamento continuava. Era, pensavam todos, para que o casamento continuasse que dona Ritinha pedia a Deus que lhe desse forças. Uma santa pessoa, diziam.

Mas um dia aconteceu o seguinte: o Manuelão foi jogado do apartamento do quarto andar. Voou pela janela.

Deus tinha atendido ao pedido da dona Ritinha!"

domingo, 7 de Junho de 2009



A indecisão resolve-se no fundo dos corredores
das casas antigas. Mas já não há casas antigas, e
os corredores desembocam em paredes fechadas,
em espaços sem eco, em espelhos sem vidro,
para reflectir o teu rosto.

Nuno Júdice, in "Poesia Reunida", 2000

era previsível, e embora o ps diga que são eleições para o pe, o facto é que a abstenção e a subida de votos em todos os partidos da oposição só tem uma leitura, uma derrota claríssima e manifesta do partido no poder, adivinhando-se duas outras eleições nacionais em que o cartão amarelo ainda pode estar na mãos dos portugueses. Esperemos que o governo saiba ler esta indicação do eleitorado. Por mim, o cartão voltará a ser apresentado, sem qualquer argumento ou benesse a favor de quem teve oportunidade para, com maioria, fazer algo de substantivo pelo país e pelos portugueses.

Roger Federer conquistou hoje pela primeira vez o torneio de Roland Garros, em Paris, e igualou o recorde de 14 títulos de Grand Slam de Pete Sampras, desafiando a história do ténis mundial aos 27 anos.
Honra ao vencido Robin Soderling, sueco, que se bateu com valentia e revelou-se uma agradável surpresa.
Hoje fez-se história no ténis em Roland Garros.


Imortalizo no papel
emoções do que sinto
há sempre um sabor a mel
em tudo o que pinto
sinto-me bizarro
acho que morri
talvez seja do barro
onde, espantado, vivi

ontem quase perdia o jogo de futebol entre Portugal e a Albânia e isso poderia ter implicado uma inconsciente frustração de emoções desejadas, além de gerar a posteriori uma onda de vitupérios contra mim mesmo, contra o mundo e demais coisas vivas.
Felizmente pude ver o jogo e viver as emoções respectivas, todas associadas no espaço de cerca de 95 minutos, a esperança, a alegria, o espanto, a incredulidade, a frustração, o arrependimento, a angústia, o sofrimento, a desilusão, o ânimo, a vontade, o incentivo, a coragem, o risco, e no final a alegria e a esperança de novo. Suei, sentado, eu e o gelo que coloquei no Baileys. Foi duro!
E hoje, ao ver as parangonas dos jornais, vejo o título no ‘Sol’: “Bruno Alves dá vitória a Portugal nos descontos frente à Albânia - Com um golo já para além dos noventa minutos, Bruno Alves deu hoje os três pontos tão necessários à selecção portuguesa para continuar a alimentar esperanças na qualificação para o Mundial 2010, na África do Sul”.
Esta ideia de individualizar e atribuir o sucesso a alguém num jogo colectivo é completamente desajustada, injusta e incoerente, isto para ser breve. Desajustada porque se trata de um jogo em que participam vários jogadores e todos possuem um objectivo, colectivo, o de ganhar, injusta porque aquele que marca foi ajudado pelos restantes e incoerente por não faz sentido, de todo. Assim, proponho-me ignorar o título e recomendar ao respectivo autor que tenha em consideração, no futuro, que num jogo onde participam onze ou mais jogadores, em caso de vitória, até o guarda-redes é merecedor de consideração. Além do público, claro, o que nós ‘sofremos’ também deve ser ‘contabilizado’. Bah!!!!

sábado, 6 de Junho de 2009


marina de Oeiras - foto flipvinagre

caminhei sózinho pela praia, a espuma que rebentava na areia deu asas aos meus pensamentos e as ondas levaram-nos para o alto mar, já vi sereias com um sorriso nos lábios

ainda não sei se vou recorrer ao dado...mas fica aqui para quem precisar.


Hoje é dia de reflexão, há que pensar nos candidatos, nas suas propostas, e eleger a quem atribuir o voto. Para o Parlamento europeu, claro. Estamos todos, os eleitores e os eleitos, em reflexão. Sim, porque ‘eles’ também votam, e votam neles próprios, está bem de ver. Mas nenhum me convenceu, um azar destes é terrível, não sei pois a quem atribuir o meu voto. A propaganda, os tempos de antena, os slogans, nada, nada me convenceu. Não, não sou do contra, o facto é que não fui convencido por nenhum dos candidatos a votar no próprio ou, por exclusão, num outro e por isso fico nesta dúvida, categórica, claro.
A reflexão em que incorro assenta mais noutros pressupostos, o oportunismo político e individual dos candidatos, a campanha que se centrou no debate interno e não no debate das instituições europeias, a falta de discussão ampla e aberta sobre as ideias para defesa dos cidadãos em Bruxelas, o que farão para assegurarem uma melhor qualidade de vida às populações que os elegem, os destinos dos fundos que acabaram por não chegar e não ser aplicados...não sei, vou reflectir mais um pouco, mas afigura-se-me que os candidatos não vão ter sucesso, prevejo um voto de censura ou um voto carregado de contestação e indiferença. Vou reflectir mais um pouco...isto de ser eleitor exigente tem que se lhe diga! (a ter em conta: O Parlamento Europeu é o único órgão da União Europeia que resulta de eleições directas. Os 785 deputados que nele têm assento são representantes dos cidadãos, escolhidos de cinco em cinco anos pelos eleitores de todos os 27 Estados-Membros da União Europeia, em nome dos seus 492 milhões de cidadãos.(do site do Parlamento Europeu, clicke aqui).
As eleições do dia 7 de Junho têm grande importância para o nosso futuro colectivo. O Parlamento Europeu tem hoje poderes muito alargados, em relação a um passado que começou em 1979. É o Parlamento que decide sobre as directivas comunitárias que influenciam mais de 2/3 da nossa legislação interna nos mais variados domínios: saúde, ambiente, segurança, educação, emprego, energia... escolher os nossos representantes não é apenas um direito, é, também, uma obrigação. Precisamos de uma Europa mais forte e mais solidária. Votando, contribuímos também para o nosso futuro).
Um dilema na qualidade da 'oferta'...e na contrapartida...



"Os escritores têm que vencer o medo."

José Eduardo Agualusa in Entrevista na ípsilon (leia aqui)

sexta-feira, 5 de Junho de 2009


no Estoril - foto flipvinagre


esta tarde vi o reflexo dos teus olhos num azulejo azulado
e verifiquei,
então,
que o tacto também me ajuda a deitar fora pedaços da saudade

hummm...

nas ruas um silêncio sibilino, só a lua emprestava sombras aos objectos inanimados e tu, serena e tranquila, cogitavas nas origens do caos

quinta-feira, 4 de Junho de 2009



Entre o livro e a laranja, uma sombra.
Entre os lábios e as pálpebras, uma cor.
Entre os braços e os seios, o branco.

Na flor que os dedos prendem, um perfume.
No risco dos cabelos, uma luz.
No ar com que sonha, um lume.

Na página que lê, um desenho.
Na testa descoberta, um sonho.
E na cabeça, o que só ela sabe.

Nuno Júdice
este ano o Prémio Camões foi atribuído ao poeta Arménio Vieira, de Cabo Verde.
é o primeiro cabo-verdiano a receber o Prémio Camões, nasceu na cidade da Praia, na Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 24 de Janeiro de 1941.
além de escritor, é jornalista, com colaborações em publicações como o “Boletim de Cabo Verde”, a revista “Vértice”, de Coimbra, “Raízes”, “Ponto & Vírgula”, “Fragmentos” e “Sopinha de Alfabeto”. Arménio Vieira foi redactor no jornal “Voz di Povo”.
este escritor da língua portuguesa, nasceu na cidade da Praia, em Santiago de Cabo Verde, em 24 de Janeiro de 1941 e três das suas quatro obras estão publicadas em Portugal: «Poemas», de 1981, «O eleito do sol», 1990 e «No inferno», em 1999.
o Prémio Camões, criado em 1988 pelos governos português e brasileiro, distingue todos os anos escritores dos países lusófonos.
autores como os portugueses Antonio Lobo Antunes (em 2007) e José Saramago (em 1995), o brasileiro Jorge Amado (em 1994) e o angolano Pepetela (em 1997) foram alguns dos vencedores em edições anteriores.

SER TIGRE

O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.

Ele busca a fêmea
como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.

Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.

Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.

Não soa,
porque não respira.

É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.

Não tem forma,
é quase nada, parece morto.

Porém existe,
por isso espera.

Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,

Ele será
quando for tempo disso.


(in "Vozes poéticas da lusofonia", Sintra, 1999)

quarta-feira, 3 de Junho de 2009


no Estoril - foto flipvinagre


esta noite
não te vi
e por isso havia outro brilho nas estrelas


Um galo que canta, um cavalo que relincha,
um gato que volteia: a aurora.
Um lírio que se inclina, um limão que cai,
uma árvore que estala: meio dia.
As areias que azulecem, os fumos que sobem,
os amantes que se encontram: a noite.


autor árabe desconhecido

(da colectânea O Jardim das Carícias - traduzido por Joaquim Pessoa, in Os Herdeiros do Vento)
No 'Público':

"Vivemos uma democracia de audiência", diz Conceição Pequito
01.06.2009, São José Almeida
Portugal tem uma sociedade civil anestesiada, os partidos estão longe do povo e as suas direcções controlam a constituição das listas eleitorais, cujo processo é o jardim secreto da política
O sistema político português está bloqueado e uma larga maioria dos cidadãos deixou de se reconhecer nos partidos políticos existentes, que funcionam de forma oligárquica e sonegaram a soberania popular, que lhes é delegada pelo voto e que deveriam representar. Este diagnóstico é a conclusão que ressalta da obra O Povo Semi-Soberano. Partidos Políticos e Recrutamento Parlamentar em Portugal, que identifica e analisa as especificidades portuguesas da crise dos sistemas políticos representativos.
"Vivemos uma democracia de audiência, feita de comunicação social, sondagens e líderes, em que há uma espécie de sondocracia, de videocracia e de lidercracia", resume Conceição Pequito, explicando as novas condições em que é exercida a política: "As sondagens funcionam como um escrutínio permanente ao eleitorado e é desse escrutínio que saem as ofertas políticas que os partidos direccionam, como produtos no mercado, para rentabilizar votos. Depois há a questão da videocracia, com o peso da comunicação social, que personaliza, por sua vez, os líderes. Tudo isto se vai afunilando, até que torna a sociedade civil claustrofóbica". Leia mais aqui)


crónica de Baptista Bastos no 'DN':

"(...) Nada do que dizem Ilda Figueiredo, Miguel Portas, Paulo Rangel, Vital Moreira ou Nuno Melo suscita a mais escassa emoção ou o mais módico entusiasmo. O pessoal a quem se dirigem não os conhece, ou mediocremente dá por eles. A nitidez crescente desta ignorância popular faz dos "políticos" algo de criminosos, porque a eles cumpre não só esclarecer como evitar o declínio acentuado da democracia e a degenerescência de um regime que têm de ocupar o espaço mais amplo de definição.
Esta democracia é uma desgraça. E os protagonistas são pessoas inadequadas à construção da sua desejável e inequívoca grandeza. O que dizem reactiva, permanentemente, a colonização das mentes, porque o que dizem é baseado em velhos conceitos de exclusão do "outro". Esta democracia reflecte a debilidade de convicções morais de quem dela se diz paladino. O que por aí se vê de corrupção, de mentira, de fraqueza dos mecanismos institucionais, de hipocrisia, de inquietação social, resulta das enormes variações de carácter e de ideologia daqueles que abandonaram a defesa das específicas identidades partidárias.
O desfile de nulidades e de apparatchiks de que as televisões são palco constitui a afirmação de um tribalismo generalizado, que não comporta a esperança mas a resignação. Esta democracia é uma desgraça porque espicaça o desprezo, alimenta o ressentimento, incrementa o rancor e não conseguiu, em 35 anos, extirpar os odiosos fantasmas do racismo e da xenofobia.
Tudo isto é muito mau: a mediocridade dos dirigentes; a incultura e a ignorância dos quadros intermédios; o culto da competitividade como modo e forma de triunfo; o apagamento da cidadania; a liturgia do dinheiro como expressão única de ascensão. A natureza profunda do envilecimento do regime encontra-se na péssima qualidade dos seus dirigentes. Esta democracia é uma miséria. Mas é minha. Também eu a construí. Lá estarei a votar."


hoje fugi do mundo
fugi até de mim
seguiram-me meia dúzia de palavras
e entreguei o poema às aves do jardim

terça-feira, 2 de Junho de 2009


quiosque lisboeta - Pça. Príncipe Real - foto flipvinagre


Quando o poeta chegou à cidade
A aurora vinha clareando o céu distante
E as primeiras mulheres passavam levando cântaros cheios.

Os olhos do poeta tinham as claridades da aurora
E ele cantou a beleza da nova madrugada.

As mulheres beijaram a fronte do poeta
E rogaram o seu amor.
O poeta sorriu.

Mostrou-lhes no céu claro o pássaro que voava
E disse que a visão da beleza era da poesia
O poeta tem a alegria que vive na luz
E tem a mocidade que nasce da luz.

As mulheres seguiram o poeta
Oferecendo a tristeza do seu amor e a alegria da sua carne
O poeta amou a carne das mulheres
Mas não envelheceu no amor que elas lhe davam.

Vinicius de Moraes in "O caminho para a distância" 1933

segunda-feira, 1 de Junho de 2009


Maldivas

não semeio palavras para as utilizar em desabafos. Cultivo e uso-as para expressar o que vou sentindo na minha trajectória por este espaço e tempo, e na sua raiz está o espanto na obra em que tenho a oportunidade de viver, eis o que vale o meu latim


21 A Última Cartada
Género: Drama
De: Robert Luketic
Com: Kevin Spacey, Laurence Fishburne, Kate Bosworth, Jim Sturgess, Aaron Yoo, Liza Lapira

"A Última Cartada” baseia-se numa história verídica e relata a vida de cinco estudantes do Instituto Tecnológico de Massachusetts (M.I.T) que foram treinados para "aldrabarem" o jogo, tornando-se especialistas na arte de contar cartas e decididos a usar essa habilidade nos Casinos em… Las Vegas.... Os riscos são elevados e embora a contagem de cartas não seja ilegal, os casinos consideram-no como um acto de batota. Por isso quando eles começam a atrair atenções, especialmente de Cole Williams (Laurence Fishburne), o desafio deixa de ser apenas de vencer no jogo, mas de sobreviver no jogo da vida.
Um filme divertido, sem grandes complexidades nem análises psicológicas das personagens (...), porém com ritmo e graça.