sexta-feira, 31 de Julho de 2009


Gauguin

"O Velho Fausto parecia um Domingo. Costumava vê-lo, manhã cedo, cruzar o passeio, pisando sem ruído as flores das acácias, muito aprumado no seu fato de linho branco, chapéu de palha, laço e bengala, e tão sem pressa, meu Deus!cumprimentando com acenos lentos(largos sorrisos) a turba ansiosa. Um dia alguém o provocou:
«Afinal, o que faz você nos dias úteis?»
Ele sorriu, ainda mais generoso, e o claro fulgor dos seus dentes perfeitos cegou o atrevido:
«Todos os meus dias são inúteis», respondeu com solene orgulho: «Eu os passeio.»
Durante muitos anos, devo confessar, quis ser como ele. Hoje sei que pecava por excessiva ambição.Trabalhando intensamente qualquer pessoa é capaz de alcançar, no fim da vida, relativa prosperidade e a admiração dos outros. Um ladrão hábil pode ficar rico em dez ou quinze anos. A conquista do poder também impõe considerável esforço; isto, já para não falar em santidade ou heroicidade. A inutilidade, porém,
exige algo de mais difícil:talento.Nem todos podem ser inúteis, realmente inúteis, da mesma forma que poucos conseguem fazer chorar um violino. Também nem todos merecem ser inúteis.Fausto, sim, era inútil- e merecia-o. Foi, enquanto viveu, ocioso e magnífico como uma bela tela de Gauguin."

José Eduardo Agualusa in "O homem que parecia um domingo - Contos e crónicas"

Dressage...divirta-se, clicke AQUI

que o sol brilhe para todos vós, sempre. Bom fim-de-semana.

quinta-feira, 30 de Julho de 2009



"Muitos anos mais tarde, neste ano em que escrevo esta história, estava num fim do mundo, junto ao rio Guadiana, num sítio tão vazio quanto o deserto, lá em baixo, no Alentejo. Estava a recuperar o fôlego de uma longa caminhada e tinha-me sentado numa pedra a olhar o rio que corria no fundo do desfiladeiro. Creio que estaria como tu estavas naquele dia, o mesmo olhar perplexo perante a vastidão daquele cenário: há alturas em que a beleza é tão devastadora que magoa. Devia haver qualquer coisa na forma como eu olhava aquela paisagem, todo aquele despojamento humano, que fez com que o alentejano que estava comigo, e que tinha sido pastor naqueles vales, comentasse:
- A terra pertence ao dono, mas a paisagem pertence a quem a sabe olhar.
E era assim connosco naqueles dias, também. Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era tudo nosso. E tínhamos um deserto inteiro para olhar."

Miguel Sousa Tavares in "No teu deserto"

foto flipvinagre


Pela luz amarela do candeeiro da rua
vejo cairem outras cores do céu
branca da paz, azul do mar
e é quando surge o rosa
que me lembro das faces dela.

Vilhelm Hammershøi


Caminha devagar:
desse lado o mar sobe ao coração.
Agora entra na casa,
repara no silêncio, é quase branco.
Há muito tempo que ninguém
se demorou a contemplar
os breves instrumentos do verão.
Pelo pátio rasteja ainda
o sol. Canta na sombra
a cal, a voz acidulada.

Eugénio de Andrade in O Peso da Sombra

Lisboa graffiti


indago-a no vento que acorda o dia
procuro-lhe o perfume à distância
tudo nela condiz
a silhueta, a ternura, a bondade
de me fazer feliz

terça-feira, 28 de Julho de 2009


fixou o seu olhar no relógio e ensaiou conjugar meia dúzia de palavras com nexo mas, um icebergue de baunilha com lascas de limão e alguns vestígios de natas baralharam-lhe as ideias e dali resultou nada, excepto um prazer nas papilas gustativas que o levou, transitoriamente, a um saboroso esquecimento da realidade

A father was at the beach with his children
when the four-year-old son ran up to him,
grabbed his hand, and led him to the shore
where a seagull lay dead in the sand.
"Daddy, what happened to him?" the son asked.
"He died and went to Heaven," the Dad replied.
The boy thought a moment and then said,
"Did God throw him back down?"

encontro no silêncio da noite, na brisa fresca e gentil que o luar insinua,
palavras vadias e soltas que junto num entendimento que só elas sabem conjugar
e torno-me servo voluntário do seu convívio, num prazer sem regras
e de perfeito conluio


" Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluído, um homem, muitos homens, um objecto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafísicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior daquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. " Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração. " Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma..."

Machado de Assis in "O espelho, esboço de uma nova teoria da alma humana"

segunda-feira, 27 de Julho de 2009


no Cais do Sodré, Lisboa - foto flipvinagre

dinner for one - clicke AQUI e divirta-se um bocadinho

uma borboleta acordou-me com o bater das asas,
dançando nas suas cores mirabolantes
e no seu voar frágil
maravilhou-me o tamanho da sua simplicidade

domingo, 26 de Julho de 2009


perspectiva do Hotel Camelo (Eurosol), Seia - foto flipvinagre

as palavras vão e vêm,
como marés,
enquanto umas recolhem ao seio do mar
outras vão flutuando à superfície,
oportunas,
traduzindo emoções na espuma dos dias


uma frase bailava ininterruptamente na mente daquela bailarina
e foi ao cair do pano
que percebeu que não havia mais volta a dar

sexta-feira, 24 de Julho de 2009


Tasquinha - Olivª do Hospital - foto flipvinagre

e da sua hesitação nasceu uma amizade indiferente, um arrependimento arrastado que nem o tempo cuidou de fazer esquecer, uma palavra sua e a vida teria outro sabor, nem que fosse 'não'.


decidida, avançou para as ondas
e a espuma do mar diluíu em instantes os seus medos,
afundando-os no oceano,
dentro de conchas que as marés impedem de chegar à superfície

Lisa Ekdahl em Cascais - foto flipvinagre

E o Cool Jazz Fest continuou esta noite, fresquinha, com a maravilhosa Lisa Ekdahl no Parque Marechal Carmona, Cascais. Ouviram-se trechos já clássicos e também novas melodias do seu novo album "Give me that slow knowing smile" onde, além do jazz, recorre a um combinado pop-folk. Lisa foi magistralmente acompanhada por um trio composto pelo multi-instrumentalista Mattias Blomdahl, Andreas Nordell e Tomas Hallonsten, terminando com um arranjo magnífico de “My Heart Belongs to Daddy”. Além de linda, canta como uma deusa. Valeu.

quinta-feira, 23 de Julho de 2009

Fechado numa casca de noz eu poderia julgar-me
rei de um espaço infinito

Shakespeare, in Hamlet


Brincar à Lingua Portuguesa

Um tufão pequeno: um tufinho?
O pequeno viaduto é um abreviaduto?
Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
Em águas doces alguém se pode salpicar?
O mato desconhecido é que é o anonimato?
A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
Onde se esgotou a água se deve dizer: «aquabou»?
Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?

Mia Couto

quarta-feira, 22 de Julho de 2009


a casinha da vizinha - Olivª do Hospital - foto flipvinagre

e foi ao admirar o firmamento
que me lembrei do brilho do teu olhar
os teus olhos cintilantes
não param de me fazer sonhar


esta decisão unilateral do tempo dispor que chova em Julho não cabe na razoabilidade de um bom pater familiae, é que há muitas pessoas em férias, outras tantas que gostam de praia e, convenhamos, não estava previsto, trata-se de mais um caso de imprevisibilidade danosa, a quem é que demando e imputo responsabilidades?

saco cama desenhado por Eiko Ishizawa - a garantia de um sono tranquilo

"Estou diante da tua porta, impecavelmente vestido e com um ramos de gardénias na mão.
Tenho a intenção de tocar, esperar uns segundos e ver aparecer a tua cabeça na moldura da entrada com uma expressão de cínica surpresa, pois ambos sabemos que estás à minha espera. Tenho a intenção de entrar, boa tarde, como estás, dar o primeiro passo, a alcatifa branca, o cadeirão, um café, cigarros turcos em cima da mesa, louvores pelo bom gosto na escolha dos cinzeiros, e as abomináveis reproduções de Picasso. (...)
Tomo balanço, isto é, a mão retrocede até ficar paralisada como que por uma parede de ar que impede uma maior deslocação e se prepara para cair contra a superfície branca da porta. (...)
Assim, as gardénias envelhecem em poucos segundos no seu invólucro transparente e, quando parto atravessando os umbrais do edifício, aquela boca que me cospe para a solidão húmida da rua, e inicio a minha caminhada com a cabeça metida entre os ombros sentindo uma vez mais a vergonha da derrota, acontece-me escutar nitidamente, lá em cima, o teu pranto de gardénias ausentes."

Luis Sepúlveda in "Encontro de amor num país em guerra"
Students at a local school were assigned to read 2 books, 'Titanic' and 'My Life' by Bill Clinton.

One student turned in the following book report, with the proposition that they were nearly identical stories!
His cool professor gave him an A+ for this report.

Titanic:.... Cost - $29.99
Clinton :..... Cost - $29.99

Titanic:..... Over 3 hours to read
Clinton :... Over 3 hours to read

Titanic:..... The story of Jack and Rose, their forbidden love, and subsequent catastrophe.
Clinton :... The story of Bill and Monica, their forbidden love, and subsequent catastrophe.

Titanic:.... Jack is a starving artist.
Clinton :...... Bill is a bullshit artist.

Titanic:.... In one scene, Jack enjoys a good cigar.
Clinton :.... Ditto for Bill.

Titanic:..... During the ordeal, Rose's dress gets ruined.
Clinton :..... Ditto for Monica..

Titanic:..... Jack teaches Rose to spit.
Clinton :.... Let's not go there.

Titanic:..... Rose gets to keep her jewelry.
Clinton :.... Monica' s forced to return her gifts.

Titanic:...... Rose remembers Jack for the rest of her life.
Clinton :..... Clinton doesn't remember Jack.

Titanic:..... Rose goes down on a vessel full of seamen.
Clinton :..... Monica.. ooh, let's not go there, either.

Titanic:..... Jack surrenders to an icy death.
Clinton :..... Bill goes home to Hillary - basically the same thing.

casa tradicional - Olivª do Hospital - foto flipvinagre



A casa como se fosse a crisálida,
e os seus habitantes esperando - os seres
do casulo, aprendendo a vida.

Não bato à porta, para
não os perturbar, nem saber
as feições do seu rosto, o som
da sua voz, a articulação
de uma frase sem fim.

Mas o olhar que atravessa
as paredes, como o vidro transparente
da eternidade, adivinha os corpos
em volta da mesa, os brindes
que secaram nos seus copos,
os olhares cúmplices
no viço dos minutos.

E entro pela porta fechada,
juntando-me ao grupo dos que
acordam para a vida.


Nuno Júdice

terça-feira, 21 de Julho de 2009


o azul do mar suscitava-lhe a maior curiosidade,
as águas cristalinas reforçaram a sua ânsia de partir,
sem rumo definido,
largou tudo por ter descoberto que valia a pena tentar descobrir-se
e o mar era um simples pretexto

para quem quiser...


Deslumbrar perante a vida

"E diz: Eu Molero, poseur, ignorante e cabotino, falso íntimo de profundidades várias e outros abismos, correndo há milhares de anos atrás da minha veia caótica, fazendo agulha para os descampados das aferições mais ou menos compartimentadas, distribuindo de passagem lantejoulas literárias em segunda mão, confesso muitas vezes dar comigo, em certas manhãs suspensas, sentado num banco de jardim, vendo as crianças correndo alegremente para a escola, desenhando no ar os gestos da minha antiquíssima imagem, e confesso este espanto, este perfume, esta luz sobre os telhados, esta ave e este céu, este riso e esta cor, este jogo do agarra, estas mãos que tudo querem, esta estampa na sacola, este grito de alegria, esta troca de pedrinhas, este saltitar à chuva, esta água de brincar deste chafariz que canta, este bibe, esta violeta, esta mulher que vai ali, esta mulher que eu amo tanto, este filho que eu lhe dava, este coração que quero, este mundo que começa, este sol que é o primeiro, esta nuvem que se forma, este som que desagua, este sonho que se afasta, este regresso à tarde, esta luz indirecta no vestibulo, este espelho, oh este espelho, o ombro já curvado, o olhar turvo, o passo preso, a tosse seca, o tempo atrás deitado ao vento, as cores da vida num só, o meu próprio estudo em sépia".

Diniz Machado in "O que diz Molero"

moonlanding09, sensacional (da Google)

em Olivª do Hospital - foto flipvinagre

segunda-feira, 20 de Julho de 2009

e nos murmúrios que aquela concha vai guardando, juntámos outros tantos segredos para viajarem no tempo, quem a ouvir saberá o que diziam os teus lábios aos meus

Starlight Over The Rhone de Van Gogh


"deixem-me sentir e o quadro nasce como um sonho"

Vincent Van Gohg

domingo, 19 de Julho de 2009



Há dias em que a melancolia chove dentro de nós como num pátio interior, atapetado de jornais velhos. Não se ouve, não se sente - mas rebrilha na sujidade densa. Eu estava num desses dias quando afastei a cortina e olhei pela janela a tarde que se ofuscara de repente, com pressa de se evadir da atmosfera enfastiada e, sobretudo, de um cenário sem alegria (…) Mas em fechando a cortina tudo isso desaparecia: eis-me de novo isolado no gabinete fofo, de paredes que, a partir de certo momento, me davam a sensação irrespirável de uma espessura acolchoada onde tudo ficava retido: a fadiga, o silêncio.

Fernando Namora in "Retalhos da Vida de Um Médico

em Oliveira do Hospital - foto flipvinagre


voltar ao ninho da familia, beber do convivio são e fraterno com tios e primos é como recarregar baterias e a ocasião foi ainda mais além pois o pequenino Luís Maria foi baptisado.

São tónicos destes que nos alimentam a alma e vão alumiando o caminho, revisitar uma parte do berço, constatar mudanças e benfeitorias que o tempo vai impondo, saber que um dos nossos cantinhos especiais ainda conserva as características que nos moldaram o ser, é um bem agradável de sorver, e por isso aquela emoção de menino volta sempre, com um brilho nos olhos para notar o que mudou, o que melhorou, e o que ainda continua na mesma, como é nosso desejo bem fundo que fique preservado.

sexta-feira, 17 de Julho de 2009


have a peaceful week end...



Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?

Sophia de Mello Breyner Andresen

Yesterday is gone

Tomorrow is mystery

Today is a gift

that's why we call it...

..the present!


desconheço o autor...

quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Cascais - foto flipvinagre


«As Gaivotas»

Mas o seu pequeno coração
- que é o dos equilibristas -
por nada suspira tanto
como por essa chuva tonta
que quase sempre traz vento,
que quase sempre traz sol.

Bernardo Atxaga
inserido no livro de Luís Sepúlveda "História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar"

não se vislumbra nada além
vagueiam ideias várias
as pessoas pensam
planeiam amam
mentem batalham
morrem
e
perguntam-se porquê

O Prazer é Silencioso

Ao contrário da ideia assente
A palavra não é criadora de um mundo;
O homem fala como o cão ladra
Para exprimir raiva, ou medo.

O prazer é silencioso,
Tal como o é o estado de felicidade.

Michel Houellebecq, in "A Possibilidade de uma Ilha"

há 40 anos que o Homem foi à lua...


O Alberto João quer acabar com os comunas por lei...ao tempo que ele não me fazia rir, parece que estou a ver a cara dos peles vermelhas, ao rubro!!!
No Público:
" A proibição do comunismo na Constituição é feita pelo PSD/Madeira na proposta de revisão constitucional e foi noticiada hoje pelo “Diário de Notícias”. João Jardim diz esperar o apoio da direcção de Manuela Ferreira Leite a essa e a outras propostas, como a extinção do cargo de representante da República e a criação da figura do “presidente da região”

"- Um poeta! O que aquele humano faz chama-se poesia. Volume dezassete, Letra «P», da enciclopédia - garantiu Sabetudo.
- E o que te leva a pensar que esse humano sabe voar? - quis saber Secretário.
- Talvez não saiba voar com asas de pássaro, mas ao ouvi-lo sempre pensei que voa com as palavras - respondeu Zorbas."

Luis Sepúlveda in "História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar"
um livro maravilhoso!

navegar é preciso - foto flipvinagre

quarta-feira, 15 de Julho de 2009


as cores do dia vão pincelando o horizonte e pelo eco das horas vão emergindo várias tonalidades que a nossa distracção quotidiana deixa passar em vão, entusiasmados com as vontades por cumprir noutras cores de diversas pigmentações

Não há modo de mandar, ou ensinar mais forte, e suave, do que o exemplo: persuade sem retórica, impele sem violência, reduz sem porfia, convence sem debate, todas as dúvidas desata, e corta caladamente todas as desculpas. Pelo contrário, fazer uma coisa, e mandar, ou aconselhar outra, é querer endireitar a sombra da vara torcida.

Manuel Bernardes(1644-1710)in 'Luz e Calor'
E recomeçou O Cool Jazz Fest 2009


numa noite fresquinha, aqueceu a alma a voz doce e quente de Eliane Elias e o som da Bossa Nossa tocado ao ar livre e em Quarteto de piano, violão, baixo (o excelente Marc Johnson) e percussão.
Uma belíssima noite de música a arrancar o Fest.
Próximos, estão Lisa Ekdahl e James Taylor.

terça-feira, 14 de Julho de 2009

imagem: Téa Leoni

"Havia a tua beleza um pouco insolente agressiva, era talvez prudente aniquilá-la para que nenhum deus a desejasse. Eras de uma outra natureza de seres viventes, de uma outra ontologia. Como diabo podia eu ascender a ti com o meu desastre de ser humano?"

Vergílio Ferreira in "Em nome da terra"

Antes que o Diabo Saiba que Morreste
( Before the Devil Knows You're Dead)
De: Sidney Lumet
Com: Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney
Género: Drama, Thriller
EUA/GB, 2008

Andy e Hank Hanson, dois irmãos desesperados por dinheiro, decidem assaltar a ourivesaria dos próprios pais, dois idosos que ainda mantêm aberto o negócio da sua vida. Andy (Philip Seymour Hoffman), alto quadro de uma empresa e heroinómano nas horas vagas, é o estratega do golpe que, se correr bem, não trará prejuízos, já que a ourivesaria dos pais tem seguro. Para realizar o plano, precisa da ajuda do irmão Hank (Ethan Hawke), um inseguro. Só que o golpe, programado para ser limpo e sem tiros, deixa um cadáver, uma velha em coma e os dois irmãos ficam com as portas do inferno à sua frente.
Excelentes desempenhos de todos os actores e uma realização de mestre de Lumet que, com grande mestria, faz um belo exercício de montagem a partir de uma estrutura de «flash-backs».
Bom filme.


Da Leitura

O ler faz um homem completo, o conferir destro, o escrever exacto. Bem por isso, se alguém escreve pouco, deve ter boa memória; se confere pouco, muita sagacidade; se lê pouco, muita manha para afectar saber o que não sabe.

Francis Bacon in "Ensaios Civis e Morais"


o tempo permanece vestido de sol,
as cores equilibradas chegaram apoderando-se dos dias e
colocaram fora de controlo a vontade de excluir e erradicar da paleta
os cinzentos acumulados,
que caem ora apodrecidos

segunda-feira, 13 de Julho de 2009



"O que me atrai nos brincos não é as mulheres terem-nos, é o momento em que os prendem na orelha, de queixo esticado e olhos vazios. A mesma expressão, aliás, ao procurarem as chaves na carteira. Parece que se ausentam. Depois voltam a estar ali ao rodarem a fechadura."

António Lobo Antunes

Aproveito o arco-íris e ensaio numa aguarela os contornos do teu corpo,
que defino em cores quentes,
e o meu talento é incapaz de reter outras cores que te descobri,
no silêncio intacto do meu olhar.

domingo, 12 de Julho de 2009


trabalho é trabalho conhaque é conhaque

“- Será que o cão tem espírito?, perguntou-me o filho do meio. Olhei para ele surpreendido. E acabei por responder: - Não sei sequer se nós próprios temos espírito ou se é o espírito que nos tem ou está em nós. - É isso o que eu queria dizer. Olha para ele. Era um fim de tarde de Agosto, o cão estava parado frente ao mar, o pêlo muito luzidio, a cabeça levantada, narinas abertas, sorvendo o ar. - Ele está a cheirar o espírito. O espírito da terra, o espírito do vento, o espírito das águas.”

Manuel Alegre in "Cão como Nós"

sexta-feira, 10 de Julho de 2009

sentados, ouviam ao longe o rumor contínuo do tempo. As mãos, juntas, em carícias mútuas, procuravam apaziguar qualquer contratempo

Cansei os braços
a pendurar estrelas no céu.
Destino dos fados lassos.
Tudo termina em cansaços
braços
e estrelas
e eu.

António Gedeão

quinta-feira, 9 de Julho de 2009


Calçada da Bica Grande, Lisboa - foto flipvinagre

O nosso olhar tinha a lua como destinatária de uma inibição mútua e quando uma nuvem nocturna se colocou em frente dela, tapando o que nos tolhia os movimentos e o impulso interior, as nossas sombras prescindiram do luar para se tornarem mais próximas das estrelas

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

Miguel Torga
Sem a sensibilidade nenhum objecto nos seria dado; sem o entendimento nenhum seria pensado. Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas. Pelo que é tão necessário tornar sensíveis os conceitos (isto é, acrescentar o objecto na intuição), como tornar compreensíveis as intuições (isto é, submetê-las aos conceitos). Estas duas capacidades ou faculdades não podem permutar as suas funções. O entendimento nada pode intuir e os sentidos nada podem pensar. Só pela sua reunião se obtém conhecimento.»

Kant in Crítica da Razão Pura

escrevi-lhe assim: diz-me de que flor mais gostas e transformar-me-ei rapidamente no melhor fertilizante natural...não, isto é muito terra-a-terra, fica melhor assim, tornar-me-ei abelha para fabricar-te o mel de que tanto gostas, mas não, também não gosto, sei lá voar como uma abelha, vou tentar esta, adorava ser as pétalas que vais encostar ao nariz, ui, ao nariz, nada disto, sei lá o que ela tem no nariz, bem, só mais esta, se quiseres ir jantar telefona-me, ah, gostei, prática, directa e romântica nas entrelinhas
"Penso que não ter necessidades é coisa divina".

Sócrates

quarta-feira, 8 de Julho de 2009


Calçada da Estrela, Lisboa - foto flipvinagre


Hoje, ao mergulhar naquela vaga já em pleno momento de sustentação, deixei os olhos abertos, propositadamente, e comprovei algo que um amigo me confidenciara. Há pequenas partículas do mar que se especializaram em fazer-nos cócegas, não são visíveis a olho nu, requerem uma vista apurada e uma sensibilidade fora do normal. Por isso crianças e adultos riem e divertem-se na praia, esquecendo tantas outras coisas desimportantes.

"Vi tanta gente curvada no cais...Tanta gente. Ocorreu-me, da minha varanda, novamente a ideia de os aeroportos, os portos e os cais serem, mais do que lugares de partida, lugares de desencontro. Um toque íntimo de destinos cruzados mas, no instante seguinte, a infinita distanciação das pessoas. Vi, nessa manhã, tanta gente curvada no cais. O dia começava, a manhã estava clara e fresca na sua inauguração. Mesmo assim toda aquela gente curvada. Crianças, sim, crianças. Os velhos sentados – conversando, olhando, esperando. Mas as pessoas que se moviam, estavam curvadas. A vida é pesada.”

Ondjaki in “E se amanhã o medo” (O Pássaro do Cais)
leio na imprensa que "Proibição das candidaturas duplas no PS não agradou
em nada à candidata à Câmara do Porto (...)" ou seja, à candidata Elisa Ferreira, que também foi candidata ao parlamento europeu, o mesmo acontecendo com Ana Gomes (igualmente candidata a dois lugares, câmara de Sintra e parlamento europeu).
O que me deixa intrigado, é não existirem neste ou noutro qualquer partido político, outros militantes que sejam candidatos àqueles lugares, porque o "sacrifício" teria que ser destas duas criaturas? A ser assim, eis que se tornava óbvio que só elas contavam para o dito partido, só elas poderiam arrastar os votos dos eleitores, os outros "camaradas" não possuiriam perfil para o efeito, ou, quiçá naquele partido, não exista mais gente capaz, sei lá, digo eu a pensar alto. Imagino os comentários internos...Haja pluralidade meus senhores, estimulem a diversidade, sempre os mesmos é de um egoísmo militante que até o eleitor indaga a valia do candidato ou a não-valia dos não candidatos e outras coisas mais...

terça-feira, 7 de Julho de 2009


Ascensor da Bica, Lisboa - foto flipvinagre


Por vezes acalentamos esperanças sobre factos que desejamos que aconteçam e, em simultâneo, tememos a sua não realização. Voam em paralelo, lado a lado e só se acabam por desfazer quando e se um deles se concretiza. Mas isso pode ser evitado, se se viver sempre no presente. Compatível com a natureza humana? Não sei...

"Diz ele: «deixarás de ter medo quando deixares de ter esperança».
Perguntarás tu como é possível conciliar duas coisas tão diversas. Mas é assim mesmo, amigo Lucílio: embora pareçam dissociadas, elas estão interligadas. Assim como uma mesma cadeia acorrenta o guarda e o prisioneiro, assim aquelas, embora parecendo dissemelhantes, caminham lado a lado: à esperança segue-se sempre o medo. Nem é de admirar que assim seja: ambos caracterizam um espírito hesitante, preocupado na expectativa do futuro.
A causa principal de ambos é que não nos ligamos ao momento presente antes dirigimos o nosso pensamento para um momento distante e assim é que a capacidade de prever, o melhor bem da condição humana, se vem a transformar num mal. As feras fogem aos perigos que vêem mas assim que fugiram recobram a segurança. Nós tanto nos torturamos com o futuro como com o passado. Muitos dos nossos bens acabam por ser nocivos: a memória reactualiza a tortura do medo, a previsão antecipa-a; apenas com o presente ninguém pode ser infeliz!"

Séneca in 'Cartas a Lucílio'

olho para as ondas e para a espuma do mar com uma familiaridade aconchegante, no verão tornamo-nos mais íntimos, partilhamos as marés, o vai-e-vem ululante da rebentação, a mesma areia, as rochas, o calor do sol. Só as sombras serpenteantes que se projectam no fundo do mar fazem de mim um precário espectador da sua felicidade

segunda-feira, 6 de Julho de 2009



O mundo é conduzido por loucos e ambiciosos, que só têm em mira o êxito e o lucro, estão-se nas tintas para as preocupações dos poetas, que são, como toda a gente sabe, seres da utopia, essa utopia sem a qual não há progresso

Eugenio de Andrade

Há dias em que só pactuo com o mar quando ele se esquece de recolher os seus pertences

a amizade mais pura está no abraço de uma criança

A recordação é uma forma de reencontro.
O esquecimento é uma forma de liberdade.

Kahlil Gibran

Lg. Luís de Camões, Lisboa - foto flipvinagre (a minha homenagem em 'photoshop')

Quando de minhas mágoas a comprida
Imaginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
Que foi para mim sonhos nesta vida.

Luís de Camões
«O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.»

Willian George Ward

domingo, 5 de Julho de 2009



acordei naquele enorme descampado sem me lembrar como ali fui parar. Estava completamente despido, nada no pelo, sujeito, pois, às leis da natureza. Tu, nada, nem sinal, havíamos combinado encontrar-nos à sombra daquele cipreste e reconhecer-te-ia pela blusa lilás que envergarias mas, tudo indica que não apareceste. Indaguei os meus botões, ao mesmo tempo, se estando eu naqueles propósitos, tu terias aparecido e te recusasses a admitir que eu teria a coragem de te receber naquelas condições. Enfim, admito que não, como já referi, nunca poderei esclarecer como tal aconteceu. Entretanto, algumas peças de roupa penduradas num cipreste mais baixo, atrás daquele onde acordámos juntar-nos, começava a aparecer à minha frente e junto delas um estojo de madeira, requintado, de um vinho de marca, mas garrafa alguma se via no interior. Receei o pior, perdoa-me este mal entendido, sim, sei que também bebes mas, neste caso, devo ter perdido as estribeiras, a sede deve ter tomado conta de mim.
De repente, não sei surgida de onde, vejo a tua irmã gémea a correr em minha direcção, abraçou-me, eufórica. Ela vestia a minha camisa!
Lembro que agendámos novo pic-nic em Agosto. Estás por cá?

sábado, 4 de Julho de 2009


Convento do Carmo, Lisboa - foto flipvinagre

O fim das histórias
"- Assim dizem que se passaram as coisas - dirá o compadre Nushino cuspindo ainda uma última vez antes de partir, porque os xuar se afastam quando acabam uma história, evitando as perguntas que geram mentiras. "

Luis Sepúlveda in O velho que lia romances de amor

foi no rio que ela se libertou
eu era um simples navegante
no seu leito
delirante
A Tarde

Rodam as ondas frágeis
dos entardeceres
como limpas canções de mulheres.

José Gorostiza
Trad. Horácio Costa

sexta-feira, 3 de Julho de 2009


Tv. da Arrochela (a S.Bento), Lisboa - foto flipvinagre


A multidão invadira a praça, rodeando a estátua que lá em cima apontava, imperativa, a grande glória da pátria. Espezinhando canteiros, inundando ruas adjacentes, vociferante. A manifestação.
Os gritos indicados. Guinchos. Várias crianças à procura da mãe ou do pai. Era o apoio. Incondicional, ininterrupto, ao primeiro-ministro. Ali, na praça enorme e impaciente.
O primeiro-ministro olhou por uma das janelas, no terceiro andar antiquíssimo do paço Ministerial. Sorriu levemente. Apalpou a cara, passou as mãos pela lapela do casaco, numa carícia inconsciente. Acenou com a cabeça, discreto, um pouco irónico, ao ministério perfilado no fundo da Sala dos Actos. Dirigiu-se à varanda alta, sobre a praça apopléctica.
Abriu a janela num gesto amplo e paternal e deu um passo em frente.
Ouviu-se um som murcho e abafado, uma espécie de paff das bandas desenhadas, lá em baixo, no empedrado decorativo que circundava o Paço. Alguém tirara a varanda. Toda.

Mário-Henrique Leiria in "Fábulas do Próximo Futuro", Estampa (1978)
Praia branca, tristeza
Mar sem fim
Lua nova
Mulher
Pobre de mim
Vento sul que o seu corpo acarinhou
Céu azul
De manhã me despertou

Vinicius de Moraes


continua este país (salvo seja...) a não dar o devido mérito a quem o merece, a não reconhecer a valia, o contributo e o esforço de quem honra a nação. Triste, tudo isto é triste, tudo isto é fado.
Hoje, no Público:
Pianista zangada com autoridades governamentais
Maria João Pires renuncia à nacionalidade portuguesa
03.07.2009 - 09h13 Margarida Gomes
A pianista Maria João Pires vai renunciar à nacionalidade portuguesa, tornando-se aos 65 anos cidadã brasileira. A notícia é avançada pela Antena 2 da RDP, que adianta que a pianista se fartou “dos coices e pontapés que tem recebido do Governo português".
Decepcionada com o modo como tem sido tratada a nível governamental, sobretudo no seu projecto de ensino artístico de Belgais (Castelo Branco), Maria João Pires, que tinha dupla nacionalidade, decidiu agora ficar apenas com a brasileira. (...)
A pianista tem recebido telefonemas de vários organismos governamentais de Espanha e do Brasil a convidarem-na para se instalar definitivamente nesses países, mas o convite feito pelas autoridades brasileiras terá sido muito sedutor, levando a pianista a optar por se mudar de armas e bagagens para o outro lado do Atlântico."

e há tantos outros que partem desta ocidental praia lusitana descontentes, nas ledas e tristes madrugadas...

na Praia da Poça, Estoril (o mural foi obra dos alunos das Escolas de S. João do Estoril/Galiza) - foto flipvinagre

quinta-feira, 2 de Julho de 2009


duas crianças olhavam o mar,
em silêncio,
e viam a repetição das ondas, uma após outra desfaziam-se na areia
e tudo recomeçava,
como elas


Não creio nos filósofos,
mas cativou-me sempre a sua audácia de pensar.
É bonito, leiam-nos.
Quanto aos poetas (o pp. foi um deles) sorriam-lhes de longe.
Mas atenção aos grandes músicos, à sua estranha perfeição,
à nostalgia que nos invade ao escutá-los.
Quando encontrarem um, não o deixem escapar.
Poderia pensar-se que nos trazem notícias de Deus.
É mais: como Deus não existe, eles têm de forjá-las.

Sebastião Alba in "Albas" - Editora Quasi(2003)

eis que não é para todos essa enorme responsabilidade (social, política, ética...) de representar o governo de um país. O ministro Manuel Pinho revelou hoje no Parlamento, peremptoriamente, que a banalidade e a grosseirice já chegaram ao topo, atitude que se lamenta profundamente, estes 'maus' exemplos em nada dignificam o país, o governo, as instituições democráticas, os cidadãos e a causa pública. A todos os títulos, lamentável! E fico-me por aqui.

Tu matas-me - "You Kill Me" (2007)
REALIZADOR
John Dahl

INTÉRPRETES - Ben Kingsley, Téa Leoni, Luke Wilson, Dennis Farina, Philip Baker Hall, Bill Pullman, Marcus Thomas, Scott Heindl.

"Olá, o meu nome é Frank, sou alcoólico, e ganho a vida a matar pessoas...
Isto é anónimo, certo?"

Frank Falenczky (Sir Ben Kingsley) é um assassino profissional e trabalha para uma família mafiosa polaca em Buffalo/USA que, quando o seu alcoolismo o leva a falhar uma missão crítica, é obrigado pelo seu tio (mafioso) a ir para São Francisco curar-se. Frank não tem alternativa, segue o destinado pelo tio e ainda é obrigado a aceitar um emprego numa casa mortuária bem como a ir a reuniões dos alcoólicos anónimos, onde acaba por confessar a sua ocupação e que o alcoolismo lhe está a afectar negativamente a sua capacidade de matar pessoas. Ele acaba por se apaixonar por Laurel Pearson (Téa Leoni, continua linda), uma excêntrica cliente da mortuária onde este trabalha (foi ali celebrado o funeral do padrasto). Entretanto as coisas não correm bem em Buffalo pois um Gang Irlandês em ascensão ameaça o negócio da família e, quando a violência ressurge, Frank é forçado a voltar ao lar para, com a improvável ajuda de Laurel, enfrentar antigos rivais em novos termos.
Uma comédia, a ver.

na Ericeira - foto flipvinagre

Téa Leoni (sempre maravilhosa)

"Conhecemo-nos na rua. Foi a única que conheci assim. Deixou cair um aquário e eu tentei salvar o peixe. Enfiei-o numa garrafa e ele morreu. Prometi-lhe: «Vais ver - vai ficar como novo.» Ela acreditou. Desiludi-a pela primeira vez. Ela era tão bonita que me senti um assassino. Pedi-lhe o número de telefone. Ela não mo deu. Podia ter-me dado um número qualquer - sempre seria um esforço - mas limitou-se a dizer «Não!». Era a palavra favorita. Estava sempre a dizer que não. A mim irritava-me imenso, sendo eu uma pessoa pouco cumpridora, mais virada para o sim. Depois conheci o pai dela. Vendeu-me uma enciclopédia náutica. Naquele tempo eu comprava tudo o que os pais das minhas namoradas vendiam. Móveis, gravuras. Tinha uma casa horrível. Estilo rococó. A filha do homem que ma vendeu recusou-se sempre a ir comigo para a cama em casa dela. «É a cama do meu pai», dizia a anormal e lá tinha de me vestir outra vez e levá-la para um hotel ainda mais piroso que a minha casa, o predilecto dela, caríssimo. Apaixonei-me num momento desprevenido. Estava a ver um jogo de futebol, ela meteu-se à frente do televisor e, em vez de lhe dar um grito, não reparei, pela minha saúde, fiquei ali especado a olhar para ela. Um minuto de exposição foi quanto bastou. Não se pode olhar muito tempo para raparigas bonitas sem este género de merdas acontecer."

Miguel Esteves Cardoso in "O amor é fodido", 2000

Procuramos por toda a parte
O que está para além das coIsas
E o que encontramos são apenas coisas.

Novalis - Fragmentos
Trad. de João Barrento

praia dos três irmãos, Alvor - foto flipvinagre


A minha homenagem a uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. Gosto muito!

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua

Sophia de Mello Breyner Andresen
(faleceu em 2 de Julho de 2004)

quarta-feira, 1 de Julho de 2009


pátio interior do Centro Cultural de Cascais (estátua de Camões no canto inferior direito) - foto flipvinagre



naquela manhã, em que buscava na praia vestígios da tua resposta, a rebentação deixou-me ler os sinais da tua última vontade, na areia molhada, metade do meu nome subsistia ao recuo das ondas e um sim espreguiçava-se na espuma do mar


"A letra de Deus nem sempre á decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana. Às vezes, a gente julga que as palavras chegam para esclarecer a vida mas, hoje, estou certo de que muitas coisas permanecem por detrás de palavras que ainda não foram feitas e outras, por detrás de palavras de que perdemos o uso.
(...)
Tudo me leva a crer que as marcações que nos deram para o desempenho da vida passam ao lado do caminho por onde os nossos afectos continuam a fluir conforme o que está escrito no mapa oculto do ser humano. Pressinto que continuamos fora do essencial e que as razões das circunstâncias - que, muitas vezes, são poderosas e reais - só servem para nos afastar dos enigmas que estão à frente das coisas e que nos caberia decifrar. Porque, algumas vezes, até parece que a simplicidade emana do andamento da vida e que bastaria um pequeno gesto de espírito para passarmos para o lado de lá de tantas incomodidades que nos fazem viver como se tivéssemos calçado dois números abaixo da forma da alma.
(...)"

António Alçada Baptista in "O Riso de Deus"

visto por "Modigliani"

transforme-se aqui, e divirta-se.
Do Baptista Bastos, também no DN de hoje:


"(...) Cada vez mais desarvorado com os sucessivos dislates, José Sócrates decidiu, agora, consultar os "magos" que ajudaram Barack Obama a conquistar o poder. Uma mistura de marquetingue e de Alvin Tofler. E, embora um técnico português de publicidade, altamente qualificado, tenha dito que não há nenhum génio que consiga, hoje, vender fruta bichada, Sócrates não abdicou de escutar os americanos. Atingimos a era do desequilíbrio e da alucinação. O Estado é entendido como uma empresa, não como a configuração de um corpo político, social e administrativo.
Afinal, que deseja de nós o secretário-geral do PS? Ambiciona os votos de quem? Enquanto esta espessa mediocridade sem alma e sem valores campeia infrene, que nos espera? Manuela Ferreira Leite? Dá que pensar."
Gostei de ler, no DN, a crónica de Vasco Graça Moura – “O desprezo da criatura”, sobre o projectado negócio entre a PT e a Media Capital:

“ (...) Vimos Sócrates, Lino e Zeinal Bava meterem os pés pelas mãos. O significado da golden share e a importância da PT, mais as tergiversações e as descoincidências entre o que dizia o primeiro, o que engrolava o segundo e o que tartamudeava o terceiro, indiciavam desde logo que não podia ser assim. (...)
Mas afinal viu-se no dia seguinte um Sócrates de visagens circunspectas e a modos que embatucado, corroborando lugubremente a sua incompetência, a dizer que usaria o veto da golden share como se fosse uma espécie de benzina preventiva para tirar nódoas da sua própria imagem… enquanto o novo porta-voz do Governo intervinha quanto a estas e algumas outras trapalhadas, arvorando um risinho esparvoado para dizer umas patetices inócuas. (...)
Estou em crer que Medina Carreira, quando na passada sexta-feira disse a Mário Crespo do nojo que certas coisas lhe metiam e usou com ácida indignação o termo "trafulhas", não se estava a referir propriamente a traficâncias em casas de alterne. O tópico fornece uma proposta de hermenêutica laboriosa para os Estados Gerais do PS.
Entretanto, o Presidente da República deu a Sócrates o mais violento puxão de orelhas que ele recebeu até hoje. Só se compreende que o tenha feito nos termos em que o fez por ter sido alertado para a turva promiscuidade dos objectivos subjacentes e para a iminência escandalosa da conclusão do negócio.
De resto, ainda bem que o fez nos termos em que o fez: não podendo já pôr Sócrates no olho da rua por força da Constituição, só lhe restava exprimir o maior desprezo pela criatura.”

e assim vamos indo, creio que a silly season se prolonga cada vez mais no tempo...e o Vasco não está com meias medidas, é açoite de se lhe tirar o chapéu