quarta-feira, 6 de maio de 2009


Ela adorava escrever, mas vinha adiando esse desejo há algum tempo.
Num fim-de-semana prolongado ela conseguiu, finalmente, sentar-se e pôr a escrita em dia. Gostava de escrever a lápis de carvão. Não, não era para apagar ou corrigir, ela gostava de ouvir o som do lápis no papel, quase que o rasgava, era a ansiedade que lhe emprestava esse fulgor na escrita.
Escrevia como um rio inquieto que corre para o mar, sem margens e com ondulação forte, surfava nas vagas através das virgulas, dir-se-ia que fazia rafting pelas palavras, pelas frases e pontos de exclamação.
Um dia a sua escrita impetuosa e radical descontrolou-a e ela desorientou-se, ficou baralhada, foi um parágrafo que a tirou da aflição.
Achou melhor deitar-se e repousar.
Mais tarde, quando acordou, viu o seu caderno em branco, as palavras haviam ido com a corrente e nem uma consoante ficara para amostra. O lápis, esse, parecia um junco abandonado e à deriva.
Ela voltou a sentar-se, mas passou a usar capacete e colete salva-vidas.


"Sobre a terra,
antes da escrita e da imprensa,
existiu a poesia..."

Pablo Neruda

terça-feira, 5 de maio de 2009


postal de Cascais - foto flipvinagre
Andy-Warhol


Ao tempo que ele andava para fazer isto.Hesitava. Mas, naquele dia ganhou coragem.
Parou o carro e meteu a carta no correio.
Ao regressar para a viatura exibia um sorriso largo, dir-se-ia que estava feliz e estava mesmo. Pensava já na resposta àquela carta, no rosto dela ao ler o que lhe havia escrito, no sorriso dela e na surpresa que lhe causaria.
Porém, ele não havia colocado remetente, e ponderava agora se ela abriria ou não a carta. Voltou atrás mas a estação de correio já havia encerrado, ninguém estava presente para ele pedir a devolução da carta. Nada a fazer.
Já em casa, mal jantou e dormir, nem pensar, passou mal a noite.
No dia seguinte, no escritório, contou o sucedido ao amigo. Este, aconselhou-o a que ele desse uma palavrinha à destinatária da carta, podia ser que ela já a tivesse recebido.
Assim fez.
Ela não sabia de carta nenhuma e confessou-lhe que já estava noiva do amigo de escritório que lhe havia dado o conselho para telefonar.
Os correios deveriam ter um horário mais alargado.
"Deus não é malicioso, é subtil."

Albert Einstein, (1879-1955) - Prémio Nobel da Física em 1921


"Para os crentes, Deus está no princípio de todas as coisas; Para os cientistas, no final de toda a reflexão".

Max Planck, (1858-1947) - Prémio Nobel da Física em 1918

no Monte Estoril - foto flipvinagre


Quem nos deu olhos para ver os astros
Sem nos dar braços para os alcançar?!...

Florbela Espanca
Todos os anos dou a minha voltinha pela feira dos livros, no Parque Eduardo VII. São sempre lucrativas estas presenças, há sempre um descontosinho, um preço de lançamento e, além disso, as promoções do leve três pague dois. E gosto, especialmente, da presença deste ou daquele autor, a quem se pode solicitar um autógrafo, trocar dois dedos de conversa. É, afinal, o contacto directo com quem vive da escrita, com quem tem imaginação, com quem estuda e aprofunda assuntos e matéria diversa, que busca e rebusca nas teias do saber e do conhecimento para revelar algo novo, original, e isso vale a pena. Além do mais, nota-se também algum frenesim no ar, especialmente quando os altifalantes anunciam escritores e descontos, e vê-se também a ânsia dos livreiros em colocar os seus produtos, o leitor que procura especificamente esta ou aquela obra e vasculha de stand em stand, ou o curioso que vai desfolhando os livros até encontrar aquela mesma escrita que lhe diz algo mais, isto para não falar do cheiro do tabaco de cachimbo no ar, muito próprio do circunspecto leitor de poemas que imagino noite alta a devorar esta ou aquela estrofe. Mas há algo que não devia lá estar, não resisto, sim, refiro-me às malvadas farturas, ainda o ano passado engorduraram um livro de poesia acabadinho de comprar e carote, por sinal.

segunda-feira, 4 de maio de 2009


Oitavos Golf, Quinta da Marinha, Cascais - foto flipvinagre

Quer dar uma 'voltinha' pelos Oitavos? Clicke aqui.


Hoje o mar falou comigo
a espuma trouxe segredos
estava bravo, enraivecido
contou-me os seus medos
o sol apareceu também
os três tagarelámos
as ondas num vai-e-vem
foi nisto que falámos
e desta conversa banal
pusemos ponto final
nem passou quarto de hora
tudo trivial
pois, como agora


Há pequenas impressões finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, não sabemos aonde elas nos podem levar.
Hibernam, por assim dizer, nalgum circuito da memória e um dia saltam para fora, como se acabassem de ser recebidos.
Só que, por efeito desse período de gestação profunda, alimentada ao calor do sangue e das aquisições da experiência temperada de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já no estado adulto e prontas a procriar.
Porque as memórias procriam como se fossem pessoas vivas.

Agustina Bessa-Luís, in Antes do Degelo'

domingo, 3 de maio de 2009


a minha amiga gaivota - foto flipvinagre


Um dia, um homem transformou-se em pássaro e
voou à volta da mulher que esperava que um
pássaro se transformasse em homem.

Nuno Júdice

e de repente fez-se um silêncio
cedias finalmente
só murmúrios se te ouviam
eras tu docemente
até os olhos se te viam
chorar baixinho por mim
e tudo ficou assim
em silêncio


Tocam à campainha. Ele levanta-se e pelo intercomunicador pergunta “quem é”? Do lado de fora ninguém responde, ele insiste “quem é”? Nada. Ele volta a deitar-se no sofá. A campainha volta a tocar e ele, chateado, levanta-se de novo e volta a perguntar “quem é? Nada, nem um pio, ele insiste, agora com voz mais alta e já meio furioso, “QUEM É”? Nada. Ele bufa fundo e volta para o sofá. Nem um minuto decorrido e nova campainha. Ele torna a levantar-se, vai à janela e não vê ninguém a tocar à capainha, mas ela soa de novo. Ele fica a falar sózinho. Tou a ficar doido, pensa. Nova campainha mas ninguém na porta de entrada a tocar. Ele não quer continuar a ver isto. Pega no comando e muda para o canal trezentos, pode ser que aprenda alguma coisa.
No CM, leia, ao menos ouvimos quem diz a verdade, quem é sensato e quem quer o bem para o país.

“A economia vai derrotar esta democracia” (COM VÍDEO)

Medina Carreira, antigo ministro das Finanças, afirma que a economia vai derrotar a democracia de 1976. José Sócrates, diz, é um homem de circo, de espectáculo."

(clike AQUI e leia/veja)

Maternidade de Almada Negreiros


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...
Boa noite. Eu vou com as aves!

Poema à mãe, de Eugénio de Andrade

sábado, 2 de maio de 2009


Cascais - foto flipvinagre
Eis o teor de um excelente artigo do Douto Juiz Desembargador Rui Rangel no 'CM' e que traduz a pura realidade nos dias que correm:
"A ignorância da lei
Hoje venho falar-vos de um princípio geral de Direito que está previsto na lei civil, que tem como matriz jurídico-cultural o fundamento de que a ignorância da lei não serve ou não aproveita a ninguém. Ninguém pode fazer-se valer do argumento da ignorância da lei para daí tirar proveito próprio.
Ou seja, nenhum indivíduo se pode escusar das suas responsabilidades com base na desculpa de que não conhece a lei. Este princípio, que é percebido e assumido pelo povo e tem raízes muito antigas, desde o direito românico, começa a fazer pouco sentido e a estar em causa. Mesmo antes da lei escrita ele já pairava sobre a cabeça do indivíduo. Todavia, com a organização do Estado moderno a lei escrita passou a ser um pilar essencial para a transparência e para a publicidade da política legislativa de qualquer governo, daí a ‘obrigação’ da não ignorância da lei.
Esta relação contratual, de compromisso por acção ou por omissão, impõe ao cidadão o dever de se manter actualizado acerca das leis que fazem parte do ordenamento jurídico e ao Estado o dever ético de fazer leis simples, de qualidade e tecnicamente bem feitas, de forma a que seja fácil e acessível o seu conhecimento.
E é nesta partilha de responsabilidades que o princípio segundo o qual ‘a ignorância da lei não serve a ninguém’ começa a evidenciar sérios problemas que podem afectar a eficácia do edifício legislativo.O Estado não tem cumprido com a sua parte, exige o que não dá.
As leis saem em cascata, são muitas e exageradas, são confusas, pouco pensadas e estudadas, e têm uma técnica deficiente. Legisla-se a propósito de tudo e de nada, a um ritmo alucinante, agravado agora pelas muitas directivas comunitárias. As novas tecnologias de acessibilidade informativa (acabou em papel o Diário da República), não oferecem garantias e segurança, tornando mais difícil a publicidade das leis e o seu acesso.
Acresce que o acesso via internet é pago. O cidadão ou paga ou não tem acesso, apesar de estar obrigado a conhecer as montanhas de leis que são feitas e que mudam de repente o sentido das coisas, sendo apanhado de surpresa. Vivemos debaixo de um manto excessivamente garantístico.
Ninguém pode acompanhar e manter--se actualizado com esta ‘diarreia’ legislativa, que num dia diz uma coisa e no outro já diz coisa diferente.
Qualquer dia a ignorância da lei tem de aproveitar o cidadão para legitimar as justificadas insuficiências de conhecimento.
Porque qualquer dia, somos todos ignorantes."
(no CM)
Hoje, no 'Público':
"Críticas em surdina no Parlamento à lei para dar mais dinheiro “vivo” aos partidos
30.04.2009 - 20h35 São José Almeida, Nuno Simas
A lei que aumenta em mais de um milhão de euros a entrada de dinheiro “vivo” nos cofres dos partidos foi hoje aprovada na Assembleia da República por todos os partidos.(...)Apesar das reservas, feitas em surdina por vários deputados, na hora da votação o único a levantar-se contra a lei foi o socialista António José Seguro, que rompeu a disciplina de voto da maioria. (...)Seguro assumiu as divergências com orientação de voto da maioria. “Esta lei aumenta o financiamento privado, mas não diminui os dinheiros públicos, o que em tempo de crise deveria também concretizar-se”, afirmou o ex-ministro de António Guterres. António José Seguro trabalhou, pelo PS, a lei aprovada em 2003 que reduzia “ao mínimo” (22 mil euros) a entrada de dinheiro vivo.
A mudança hoje aprovada, alertou o deputado, “inverte este princípio” e traduz-se “numa menor exigência” quanto à justificação do dinheiro entrado nos partidos.Com esta alteração, Saldanha Sanches diz que a Assembleia da República faz o país regredir. “Voltamos às malas cheias de notas, das quais uma parte chega aos partidos e outra fica com as pessoas que as recebem”, afirma contundente, para sustentar que “não há razão para estas alterações, numa altura em que todos os organismos públicos estão em contenção de despesas” e quando “os partidos desperdiçam dinheiro, não há necessidade de aumentar o financiamento das campanhas”.

Não concordo com mais este saque aos fundos públicos. E enquanto isto, o zé povinho tem aumentos da treta etc etc etc...uma falta enorme de coerência, transparência e rigor numa democracia que de representativa só tem já o nome.

Hoje, no 'Público', mais um buraco, e o zé povinho a pagar isto tudo, só penso em quantos mais andam à boleia do orçamento...não há rigor, não há nada, ficamos com a impressão que a apropriação do erário público e do património do estado para fins pessoais até parece uma coisa banal. E ninguém faz nada, deixa andar...
"Alberto João Jardim gastou em viagens "secretas" meio milhão de euros em 2008
02.05.2009 - 07h00 Tolentino de Nóbrega
O presidente do Governo Regional da Madeira gastou em 2008 mais de meio milhão de euros em viagens, todas classificadas de “secretas”. Este montante representa mais de um quarto do orçamento da presidência do executivo, que não tem qualquer despesa de investimento."
(no 'Público')

sexta-feira, 1 de maio de 2009



"«Diz Molero», disse Austin, «que um homem ama e odeia, ou é simplesmente indiferente, mas que tudo recomeça em cada minuto que passa, disseram-lhe que nasceu uma criança, amanhã vai ao enterro de alguém, laços fazem-se e desfazem-se dentro dele, segue sonhando a luz de um pirilampo ou de um farol, fica uma noite acordado a olhar para trás, há um sótão mágico onde vasculhar entre memórias, embora ele não saiba onde fica o sótão, acontece que ele existe e sobe-se para ele não se sabe como». Mister DeLuxe juntou as mãos em frente do rosto. «O sótão da infância»disse ele, «às vezes vou lá buscar o meu tambor dos cinco anos». «É isso», disse Austin, sorrindo, «e eu às vezes vou lá buscar a emoção de roubar ninhos ou então o cheiro da borracha das botas de pescar do meu avô».

Dinis Machado in "o que diz Molero"

e eu também lá vou às vezes, e sempre que vou gosto imenso...

Hoje comemora-se o dia do trabalhador, um dia difícil quando no tempo que corre o desemprego é uma praga, o emprego precário uma solução medíocre desta classe política e os despedimentos colectivos um machado que gera pobreza. A situação dos trabalhadores hoje, é pior que no Estado Corporativo.
Vão ser gastos entre 130 a 150 milhões de euros nas próximas eleições, o suficiente para criar muitas empresas e reduzir a taxa de desemprego, só porque aos políticos não se exige contenção como exigido ao zé povinho.
(mais no DN)

No DN: As asas o porco e o escritor
por FERREIRA FERNANDES

"Um professor disse a John Steinbeck que ele só seria escritor no dia em que um porco voasse. Em 1962, Steinbeck (As Vinhas da Ira, A Leste do Paraíso...) ganhou o Nobel de Literatura. Em homenagem irónica à imprevisão do seu professor, o grande escritor americano adoptou como lema a frase em latim ad astra per alia porci, que ele pretendia que significasse "até às estrelas, nas asas de um porco." É um bom lema, voluntarioso: deixem-se de lamúrias, quem quer, consegue. (...)"