sexta-feira, 22 de maio de 2009



No DN, Mãe vou viajar
por Ferreira Fernandes:

"No Jornal de Angola li: "A ministra uruguaia da Educação anunciou que o português será o segundo idioma nas escolas públicas." No blog "Duas ou Três Coisas", do embaixador português em Paris, Seixas da Costa, li: "Por influência de Angola, a língua portuguesa vai ser ensinada nas escolas primárias da Zâmbia." Em A Mercy, o último romance de Toni Morrison, tropecei na expressão "a minha mãe". O livro, em inglês, usava til e tudo. Quem tanto dizia "a minha mãe" era a protagonista, filha de uma angolana, dos primeiros negros que chegaram à América, no séc. XVII. E foi num poeta que descobri a razão por um jornal de Angola achar ser notícia um país sul- -americano dar importância ao português, por um embaixador em Paris se orgulhar da sua língua num país anglófono e por uma americana Nobel de Literatura pôr a sua protagonista a falar português. O poeta de que falo tem um verso sobre o que diz o bebé à mãe ao nascer, que é o que já disse a língua portuguesa a Portugal: "Mãe, vou viajar!" O poeta chama-se Almada Negreiros e, por acaso, nasceu em São Tomé."

É isto, bom sinal para esta língua linda, a nossa, continua em expansão...

quinta-feira, 21 de maio de 2009


estação dos Restauradores, Lisboa - foto flipvinagre

'problemas' com o teclado...
Aos super-heróis:
Temos vagas para si, belas estátuas em Bronze ou metal mais nobre, candidate-se, salve-nos da crise, tire-nos do buraco, espalhe a solidariedade e a fraternidade por todos os povos do planeta, impeça que o mal domine, mesmo que temporariamente, já é qualquer coisa, ande, avance, dê o seu contributo, seja herói, faça alguma coisa de positivo, não se acomode, rogamos que exercite as suas capacidades e a sua inteligência. Aguardamos. Mas não demore. Obrigado.


Voam-me palavras da boca
numa alegria contagiante
sonho. devo estar louca
pareço até delirante
os dias correm devagar
e eu que sonhava veloz
sinto-me divagar
ai de nós
vale-me a poesia
pra compôr o dia
vivo admirando o sol, estupendo
eu, porém, vou morrendo
Quem morre?
Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda

Lg. Sta. Luzia, Lisboa - foto flipvinagre


ela deu-lhe a mão
ele sorriu
foram ambos de mão dada
ninguém os viu
só uma fada
que se fez paixão
Inteligentes são as pessoas que descobrem o caminho para a felicidade.

quarta-feira, 20 de maio de 2009


'shopping' - foto flipvinagre


AS AVES

Afluem às margens, jogam
como se a água lhes pertencesse,
pousam no meio dos arbustos
como se tivessem todo o tempo! No
entanto, sabem que as nuvens
vão encher o céu; e que o norte
irá enviar o vento frio que as
há-de arrastar para sul, deixando
atrás de si o silêncio
nos campos. Mas pouco lhes importa
isso, quando se juntam, e
cantam a efemeridade do
instante.

Nuno Júdice

Amantes (Two Lovers, 2008)
Direcção: James Gray
Elenco: Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw, Isabella Rossellini, Elias Koteas
Phoenix é Leonard, um rapaz que mora com os pais em Brooklyn, NY. O filme começa com ele a tentar suicidar-se, tendo-se lançado de uma ponte, mas é salvo por um grupo de transeuntes, para seu próprio desgosto.
Em casa, os pais recebem um casal amigo e a filha deles, Sandra. Eles ficam próximos, para felicidade das duas famílias, que planeiam uma fusão dos seus negócios. Para o estado emocional de Leonard ficar ainda mais complicado, ele conhece Michelle, sua vizinha, por quem se apaixona.
"Two lovers” não só resgata o género romântico na sua forma mais pura como também consegue ir mais além, sendo o inevitável o real protagonista. Não se apoia em reviravoltas nem noutros truques e coloca a vida na tela, na eventual sucessão de uma vida possível.
Excelentes desempenhos e sempre maravilhoso constatar as belezas extraordinárias de Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw e a 'deusa' Isabella Rossellini.
A ver, claro.

" No dia seguinte toda a gente sabia que em casa de Pelayo tinham cativo um anjo de carne e osso. (...)O Padre Gonzaga chegou antes das sete, alarmado pela desproporção da notícia. A essa hora já tinham acorrido curiosos menos frívolos que os do amanhecer e tinham feito toda a espécie de suposições sobre o futuro do cativo. Os mais simples pensavam que seria nomeado alcaide do mundo. Outros, de espírito mais austero, supunham que seria promovido a general de cinco estrelas, para que ganhasse todas as guerras. Alguns visionários esperavam que fosse conservado como reprodutor, para implantar na terra uma estirpe de homens alados e sábios que se encarregassem do universo.(...). A notícia do anjo cativo divulgou-se con tanta rapidez que ao cabo de poucas horas havia no pátio um alvoroço de mercado, e tiveram de levar a tropa, com baionetas, para espantar o tumulto, que já estava quase a deitar a casa abaixo. Elisenda, com o espinhaço torcido de tanto varrer lixo de feira, teve então a boa ideia de taipar o pátio e receber cinco centavos pela entrada para ver o anjo".

Gabriel García Márquez in "A incrível e Triste História da Cândida Eréndira e da sua Avó Desalmada".



Um barco atravessou os teus olhos,
levando um porão de sonhos para o porto
do infinito.

Nuno Júdice

terça-feira, 19 de maio de 2009


em Cascais - foto flipvinagre


Olhei para a fotografia e não te vi. Tenho-a agora nas mãos e apercebo-me que só a guardo para me lembrar que então ainda não te conhecia. Eis o último registo da ausência da nossa felicidade.
Trabalhe sorrindo

segunda-feira, 18 de maio de 2009


o portão azul, Estoril - foto flipvinagre


Pintava palavras
na tela, a sua preferida
sobressaía na aguarela
a palavra querida
a azul, nos lábios dela

Com a máscara reges os teus desejos secretos, dás corpo aos ímpetos que te pululam a vontade, cedes à luxúria que já não podes conter, e então, cúmplice do teu intimismo, permites-te esventrar a expectativa alheia com sorrisos que escondes e exibes ao mesmo tempo, num egoísmo que só materializas quando o destinatário quer desvendar esse enigma.

domingo, 17 de maio de 2009


Cascais - foto flipvinagre


A Viagem

Se eu voltasse a nascer, e
as minhas mãos me ensinassem o caminho
que vai do coração ao mundo, e
os meus olhos me abrissem o círculo
que o mar desenha no horizonte,
e o meu nariz respirasse a luz que a manhã
solta de dentro da névoa, e os meus lábios
pedissem o pão de estrelas que as aves
trocam entre si, e os meus passos me conduzissem
para onde ninguém precisa de voltar,
o tecido da minha vida seria transparente
como o vidro da janela que não abro,
o fio que vou puxando seria eterno
como os números que contam os dias de um deus,
a tesoura da noite ficaria na caixa
que não precisei de abrir. Se eu voltasse
a nascer, e as velas do sonho me envolvessem
com o linho do seu vento.

Nuno Júdice

Chegavam na 2ª Feira, bem cedo, após 300 km de estrada. Tinham pela frente uma semana de trabalho. Só regressavam a casa na 6ª Feira a meio da tarde.
Eram todos casados mas não desdenhavam um belo par de pernas, uma cara bonita, um corpo esbelto. Coisa de machos. Porém, não era ali que encontravam espécime algum objecto de deslumbramento, apenas uma senhora de meia idade e sem grandes atributos físicos trabalhava naquele local.
À 2ª Feira, o comentário geral era de que a senhora, realmente, era feiíta, a natureza não tinha sido pródiga naquela mulher. À 3ª Feira, o comentário era de que ela até tinha um nariz bonitinho e uma voz meiga e doce, era simpática. À 4ª Feira melhoravam-lhe o andar, era feminina e, por isso, interessante. À 5ª Feira já lhe viam uns olhos esverdeados grandes, uma boca sensual, enfim, afinal ela até tinha o seu quê de engraçada. À 6ª feira a opinião era unânime, ela era um portento de mulher, toda ela era um pedaço. Nesse dia todos se despediam dela com um beijinho, exibindo também sorrisos de fim duvidoso, regressando a casa, rapidamente.
Hoje, no CM:
opinião de Francisco Moita Flores

O governador civil

Devo confessar que faço parte do grupo que considera o cargo de governador civil uma inutilidade. Um antro para anichar ‘boys’, funcionários políticos com carreiras frustradas, preguiçosos impantes de vaidade e os caciques mais influentes da política partidária regional. Uma espécie de penacho sem tacho. Um arquivo de militantes com futuro incerto. Dito isto, devo dizer que esta semana o actual governador civil de Santarém, o socialista Paulo Fonseca, pediu a demissão do cargo que exercia. E sou forçado a admitir que o trabalho que ele desenvolveu me obriga a uma travagem.
Paulo Fonseca teve o talento de tornar uma inutilidade numa utilidade. Numa instituição com capacidade de intervir e mobilizar a atenção das pessoas, do governo e do país para problemas sérios. O seu combate contra a sinistralidade rodoviária no distrito de Santarém ganhou a agenda nacional e política. Trabalhou com energia, com determinação, mobilizou autarquias e governo e conseguiu uma proeza marcante: a redução drástica de acidentes, de mortos e de feridos em toda a região. Foi um acelerador de acções importantes nas áreas da inclusão, da solidariedade social, da protecção civil, do combate a incêndios. Um governador civil rigoroso e competente. E delicado. Ainda por cima tolerante e diligente.
(...)
Por isto mesmo, não poderia despedir-me dele sem este abraço público e agradecido. Um exemplo, entre muitos outros, de que a política não é exclusivamente habitada por coirões e oportunistas sem escrúpulos."

Pois a minha modesta opinião é de que este cargo é completamente obsoleto, despiciendo de funções úteis nos dias que correm, um abrigo para os "boys" e amigos dos detentores do poder e por isso, para acabarem, imediatamente. Despachado.

Arcadas teatro S. Carlos, Lisboa - foto flipvinagre

imagem de katya Gridneva - elegant sleep

Ela nem por sombras suspeitava que já a tivera nos meus braços, que já afagara o seu cabelo, que os seus sussurros sempre satisfiz. Só eu sonhei.