Um homem frio, calculista, sem coração, ensaiou um romance. Na base de trabalho, uma história de um amigo desmiolado e uma mulher sem cabeça para nada. Não foi além do terceiro parágrafo, a história era oca e acabou por não ter pernas para andar. quarta-feira, 14 de outubro de 2009
terça-feira, 13 de outubro de 2009
segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Contar histórias é uma das mais belas ocupações humanas.
E a Grécia asim o compreendeu, divinizando Homero,
que não era mais que um sublime contador de contos da
carochinha.
Todas as outras ocupações humanas, tendem, mais ou
menos, a explorar o homem.
Só essa de contar histórias se dedica amoravelmente
a entretê-lo, o que tantas vezes equivale a consolá-lo.
Infelizmente, quase sempre, os contistas estragam os
seus contos, por os encherem de literatura, de tanta
literatura, que nos sufoca a vida!
Eça de Queirós in "Correspondência ..."
domingo, 11 de outubro de 2009

... disse o salta-pocinhas, quegendo, podemos igue até ao guio, não nado mas, cagamba,vou buscague o meu colchão de água paga igue convosco.
- eh pá, não te metas nisto, disse o mocetão lá do alto do seu vozeirão.
E pgonto, o salta-pocinhas ficou na maggem a vegue os outgos a saltaguem pgà água, é o que dá não sabegue nadague ou aceitague os conselhos do mocetão
sábado, 10 de outubro de 2009
sexta-feira, 9 de outubro de 2009

"Sou de um tempo e lugar em que os comboios eram lentos, tão vagarosos que pareciam arrependidos da viagem. Na estação, não havia despedida. Nada de separação traumática, o golpe definitivo da partida. Tudo era tão lento e esfumado que se convertia em irrealidade. A despedida como repentina ruptura eu aprendi mais tarde, no meu primeiro aeroporto. Voar é o sonho da própria poesia. Mas o voo tem despesas de afecto muito pouco poéticas.
Nasci e vivi entre meandros de rios, preguiçosas águas que se apegavam às margens. A estação ferroviária obedecia a essa líquida paisagem. O comboio era um barco e eu entendia porque se chamava «cais» àquela plataforma onde as mães agitavam os lenços brancos. Para mim, os modos lentos do comboio não resultavam de incapacidade motora. Eram, sim, gentileza. Uma afabilidade para com essas pequenas mortes, que são as despedidas.
Muitas vezes me desloquei para a estação dos caminhos-de-ferro com o fim de não me deslocar para lado nenhum. Ficava no banco de madeira a olhar a gente transitando. E me abandonava naquele assento durante horas, sem que o tempo me pesasse. Talvez eu viajasse mais que os próprios passageiros que chegavam e partiam. A minha cidade era pequena, tão pequena que os domingos, com seu tédio antecipado, não eram notados. Eu inventava os meus tempos fora do Tempo, ali na arrastada azáfama da estação ferroviária.
Não tive propriamente uma educação religiosa. Apenas de quando em quando eu entrava em recinto de igreja. Fazia-o porque havia ali um sossego que me refrescava a alma. Qualquer coisa parecida com o que eu encontrava na gare ferroviária. Com a diferença de que a estação me facultava um recolhimento do lado de dentro da Vida, um resguardo entre as pessoas e as almas que eu nelas inventava. Os fantasmas da igreja moravam na sombra fria. Os da estação eram solarentos, riam alto e falavam línguas que eu desconhecia.
Algo me ficou desse estacionamento de alma, como se eu ganhasse residência perene nas velhas estações de todo o mundo. Afinal, essa contemplação me trouxe como que um irreparável vício: ter um banco de madeira onde eu possa ver desfilar pessoas em flagrante viagem."
Mia Couto in "Expresso"(09/02/2007)
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A vida é primariamente encontrar-se, cada qual, submergido entre as coisas, e enquanto é apenas isso consiste em sentir-se absolutamente perdido. A vida é perdição. Mas por isso mesmo obriga, quer queiramos quer não, a um esforço para se orientar no caos, para se salvar dessa perdição. Este esforço é o conhecimento que extrai do caos um esquema de ordem, um cosmos. Este esquema do universo é o sistema das nossas ideias ou convicções vigentes. Quer queiramos quer não, vivemos com convicções e de convicções. O mais teoreticamente céptico existe apoiando-se num suporte de crenças sobre o que as coisas são. A vida é absoluta convicção. A dúvida intelectual mais extrema é vitalmente uma absoluta convicção de que tudo é duvidoso. E algo ou tudo ser duvidoso não é uma crença num ser menor do que qualquer outra de aspecto mais positivo.
Ortega y Gasset in 'O Que é a Vida?'

- não me apetece escrever
- oh, vá lá, diz qualquer coisa
- não
- estás a fazer birra, não custa nada, desembucha qualquer coisinha
- não, já disse
- ora, cansaço?
- não, só que não me apetece, pronto!
- duas ou três linhas, vá, faz um esforço.
- não, não tenho nada para dizer e se for para pôr parvoíces aqui não estou para isso
- tu também!!! Não custava nada, podias abordar tanta coisa, sei lá, a tentativa frustrada de um frustrado candidato a presidente da câmara, hein(?), que dizes?
- não, seria frustrante, hoje não
- está bem, e amanhã?
- amanhá logo se vê, dorme
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
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O desenho
redondo do teu seio
Tornava-te mais cálida, mais nua
Quando eu pensava nele...Imaginei-o,
À beira-mar, de noite, havendo lua...
Talvez a espuma, vindo, conseguisse
Ornar-te o busto de uma renda leve
E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
Em ti, a branca irmã que nunca teve...
Pelo que no teu colo há de suspenso,
Te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
Era um convite lúcido às estrelas....
Imaginei-te assim á beira-mar,
Só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
No desenho redondo do teu peito...
David Mourão Ferreira
dou por mim a escrever só por escrever, nada surge que mereça particular atenção ou desenvolvimento mais alongado, e então, inevitavelmente, o teclado deixa de merecer-me atenção, quase que lhe faço um favor em carregar nas teclas, mas ao olhar mais atentamente, dou conta de que raramente toco nalgumas delas, o cardinal, a percentagem, o F1 e respectiva familia, teclas que deveria dispensar, claro, mas fizeram teclados universais e daí tanta tecla abandonada, silenciadas anos a fio, e por isso as lembro hoje, toquei nelas pela primeira vez, um toque de gentileza e carinho. Eis a minha boa acção diária, completamente realizada, e sem mexer uma palha. Estou sem palavras!
terça-feira, 6 de outubro de 2009

«Somente pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que um outro vê desse universo que não é o mesmo que o nosso e cujas paisagens permaneceriam tão desconhecidas para nós quanto as que podem existir na lua. Graças à arte, em vez de ver um único mundo, o nosso, vemo-lo multiplicar-se, e quantos artistas originais existam tantos mundos teremos à nossa disposição, mais diferentes uns dos outros do que aqueles que rolam no infinito e, muitos séculos após se ter extinguido o foco do qual emanavam, chamasse ele Rembrandt ou Ver Meer, ainda nos enviam o seu raio especial.»
Marcel Proust in «O Tempo Reencontrado»
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