segunda-feira, 16 de novembro de 2009



este tempo de chuva
é muito ingrato para a sô dona Berta,
ela que adora a exposição ao sol
vê-se grega para manter o bronzeado!

domingo, 15 de novembro de 2009

cor para contrariar a falta de Sol - Estoril - foto flipvinagre

“ - Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse o criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
- Há antecedentes na familia?
- Desculpe, doutor?
O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias.
(...)
Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita ara poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
- Dói-te alguma coisa?
- Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está a ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:
- E o que fazes quando te assaltam essas dores?
- O que melhor sei fazer, excelência.
- E o que é?
- É sonhar.
(...)
Na semana seguinte foram os últimos a ser atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.
- Não continuas a escrever?
- Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida – disse, apontando um novo caderninho – quase a meio.
O médico chamou a mãe à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
- Não temos dinheiro – fungou a mãe entre soluços.
- Não importa – respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo na sua clínica que o menino seria sujeito a tratamento. E assim se procedeu.
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:
- Não pare meu filho. Continue lendo...”

Mia Couto in O Menino que escrevia versos (O Fio das Missangas)

hoje o Sol não apareceu
- meu olhar entristeceu
a humidade instalou-se, sem licença
- não gosto dela, de nascença
vale-me o livro que leio - com interrogações de permeio
por isso esqueço esta melancolia - afundo-me, concentrado, é noite é dia?
até que o sol regresse - a minha alegria não aparece
vivo, simplesmente - num viver indolente!

cai do céu uma chuvinha pequenina
e tu caminhas num passeio instável exercitando-te num equilibrismo que me toma de cuidados, e o teu cai não cai tornou-me o maior admirador dos teus dotes malabaristas

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

horizontes de luz e sombras - foto flipvinagre


mão na chávena de chá, olhar distante, circunspecto, a noite de outono do lado de fora da janela não ajuda a esclarecer as dúvidas de sempre, o círculo sem resposta vai ganhando guarida, um palpite intuitivo solta aqui e ali uma faísca mas aquele círculo tem uma gravidade enorme, só o fumo vai saindo da chávena...

Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo óptico. A imagem objectiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas dilectas. Os certos casos em que acima se modifica a generalidade da definição vêm a ser aqueles em que o bom senso não pode atinar com o porquê dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes e estúpidas que nos enchem de espanto, quando nos não fazem estoirar de inveja.
E tanto mais se prova a referida depravação do nervo que preside às funções da vista quanto a alma da pessoa enferma, vítima de sua ilusão, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e méritos que o mais digno homem requestaria com orgulho.

Camilo Castelo Branco, in 'Coração, Cabeça e Estômago'

Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.

Sophia de Mello Breyner Andresen

felizmente, vou mantendo contacto com os meus grandes amigos de infância, é uma amizade muito forte e sadia que nos une não obstante a separação causada pelos inconvenientes que a vida vai tecendo, eis que aqui publico uma fotografia do Francisco Silva (Quico), um empresário de sucesso na Angola actual e um entusiasta de raids por aquela terra enorme e maravilhosa, aqui no Kwanza-Sul (próximo da Cela) em grande forma!

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

quem chega sempre alcança - praia de Carcavelos - foto flipvinagre

deixa-me ser o protagonista nos teus sonhos, passar pelo papel de herói que te salva de tudo e de todos, ser o troféu que buscas, a alma gémea que te garante a unidade, e quando acordares deixa o Sol para segundo plano, só eu brilharei no sistema solar, anda, dorme agora, depressa...


uma revolta enorme explode bem dentro do meu punho, abdicar da justiça privada tem estes inconvenientes, a morosidade judicial acelera o descontentamento e este afoga no descrédito a (in)competência da governação, do país, do homem.

- ó senhor Antunes ...
- Brito, minha senhora, chamo-me Brito.
- Era para fazer o favor de me chamar um táxi, esqueci-me do telefone.
Ele foi buscar o telefone e entregou-lho.
- Muito obrigado senhor Antunes.
- Brito, minha senhora, voltou ele a emendar.
- Vou-me sentar ali no sofá, quando o táxi chegar o Sr. Antunes diga-me se faz favor.
- Brito, minha senhora, chamo-me Brito.
O táxi entretanto chegou, ela entrou e pediu ao taxista:
- Senhor Antunes, leve-me ao Shopping se faz favor.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009


vai esfriando, por isso cada pedaço de Sol é oiro - Carcavelos - foto flipvinagre

e para alegrar o dia:

Um velho campino, típico e tradicional do nosso Portugal, contemplava, como era seu costume, os touros a pastar nas lezírias à luz de mais um tranquilo pôr-do-sol. Pelo pitoresco do quadro e pelas vestes, que sempre envergava com assumido orgulho, era alvo da curiosidade de todos os turistas e transeuntes de outras paragens.
Naquele dia, uma jovem aproximou-se dele e fez-lhe a pergunta do costume:
- O senhor é campino?
- Sou, sim, Menina.
- Um campino verdadeiro?
- Claro!!!
- Há muitos anos?
- Sim! Todos os dias conduzo os meus animais, e aos Domingos levo-os a lides triunfantes nas mais conceituadas arenas de Portugal!
Naquele dia, por ter acordado um pouco mais falador, colocou ele uma questão:
- E a menina?
- Eu sou lésbica. Acordo a pensar em mulheres, tomo banho, como, trabalho e adormeço a pensar em mulheres, sonho com mulheres e, na manhã seguinte, volto a acordar a pensar em mulheres!

No dia seguinte, foi a vez de uma outra excursão perturbar a calma local.
O grupo, curioso, aproximou-se do velho campino e perguntou-lhe:
- O senhor é campino?
Após uma pequena pausa, o velho campino respondeu, um tanto atrapalhado:
- Toda a minha vida pensei que sim... mas ontem descobri que sou lésbica.
O tema conexo com o último livro de Saramago (Caim e Abel) continua a levantar crítica, e uma crítica inteligente, tal como a que Bagão Félix publicou no 'Público', meritória, por isso, que a publique, ei-la:
"Não sou apreciador da escrita de José Saramago, mas não desconsidero a sua obra literária.
Como autor e cidadão, José Saramago tem todo o direito de exprimir as suas ideias sobre tudo e mais alguma coisa.
E, naturalmente, de expressar com clareza, frontalidade e liberdade o seu ateísmo militante. Seja nos seus livros, seja nos seus ditos.
Mas para se ser respeitado nas suas opiniões, é preciso ter-se a inteligência, a razoabilidade e a prudência de se dar ao respeito. Uma coisa é Saramago defender o seu pensamento livre. Outra é o modo como o faz. Com acidez, arrogância, intolerância e sectarismo extremos.
Pretensamente auto-dotado de uma superioridade intelectual e moral desde que foi galardoado com o Nobel acha-se pateticamente acima dos outros. Por isso, não argumenta, agride. Não opina, sentencia. Não confronta, insulta. Não esclarece, obscurece. Não convoca, provoca. Não fundamenta, opta pelo fundamentalismo.
O curioso é que, depois de tudo o que diz e escreve com a liberdade de que, aliás, felizmente dispõe, estranha as posições de quem o confronta. Nada que me espante, sabendo-se do modo como tratava os "delitos de opinião", por exemplo, quando foi director de um jornal.
José Saramago é um paradoxo: é religiosamente anti-religioso. O seu proselitismo é a expressão de uma nova moda religiosa: o ateísmo pretensamente humanista. Saramago acaba de editar mais um livro e aproveita a ocasião para um diktat gratuito tão ao seu gosto pessoal. A Deus tudo culpa, a Deus chama tudo o que de mal possa haver, ao mesmo tempo que diz não existir. Em que ficamos?
A Bíblia, para ele, é um manual de maus costumes e um catálogo de crueldades, num recorrente certificado de menoridade antropológica do próprio homem. Não percebe que a Bíblia (e sobretudo o Antigo Testamento) é também a história da condição humana feita de luz e de sombras, do bem e do mal que coexistem por conta da liberdade humana. Deus não nos fez robots. Logo a seguir a Caim e Abel, Deus diz "Meu espírito não se responsabilizará indefinidamente pelo homem" (Génesis 6,3).
Saramago olha para a Bíblia e interpreta-a rudemente à letra, sem contextualização, como se estivesse a ser escrita agora. Só lhe falta um Deus a comunicar por telemóvel.
Saramago odeia visceral e mefistofelicamente a ideia de Deus e dos Livros Sagrados. Está no seu direito. Mas revê-se no estalinismo, nos seus gulags e pogroms, para ele, por certo, ícones dos bons costumes e das boas práticas.
Saramago é um incompreendido. Nega um Deus (que, apesar de não existir, é a causa de todos os males.) que, todavia, não é capaz de esquecer. Deus não existe mas não lhe sai do pensamento. Estranho, não é? À conta deste pesadelo, decreta impositivamente um atestado de quase insanidade sobre os que, para si incompreensivelmente, crêem em Deus. Saramago procura chamar à realidade milhões e milhões de pessoas
que, ao longo dos tempos, vivem nas trevas, sem inteligência e discernimento, manipuladas por um Deus menor. Cautelosamente, o Deus menor da Bíblia que não o do Corão .
Enquanto católico, não sou nem mais nem menos pessoa do que Saramago. Mas tenho o direito à defesa dos valores em que acredito. Não me revejo nos arautos da atitude política e religiosamente correcta que, com calculista "respeitinho" pelo Nobel, se remetem a uma espécie de coligação do silêncio. Como também não perfilho a ideia da indiferença ou da contrafacção da religião. A fé é um acto de liberdade porque sem liberdade não haveria qualquer mérito em crer.
Que esta polémica de puro marketing tenha pelo menos a vantagem de levar mais cristãos a ler ou reler a Bíblia. Só por isso agradeço a Saramago.
Quanto ao resto, a publicidade não é uma medida divina. Deus é misericordioso e perdoa a Saramago."
António Bagão Félix

terça-feira, 10 de novembro de 2009

bando de gaivotas ensaiando novo plano de voo - foto flipvinagre
uma partidinha?
A mais vil de todas as necessidades - a da confidência, a da confissão. É a necessidade da alma de ser exterior. Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos teus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos que digas, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.

Fernando Pessoa/Bernardo Soares- Livro do Desassossego


pego numa frase e mudo-lhe o sentido, e fica tudo de pernas para o ar, os pontos de interrogação e as virgulas ficam desfigurados, só o ponto final cumpre a sua função, eis a sua relevância fundamental, cumprir, sempre, o seu destino, isto é transcendental!

gaivotas em terra... na C.Caparica - foto flipvinagre

segunda-feira, 9 de novembro de 2009


Uma garotinha pergunta à mãe:
-Como é que se criou a raça humana?
A mãe respondeu :
-Deus criou Adão e Eva, eles tiveram filhos, e os filhos tiveram
filhos, e assim se formou a raça humana.
Dois dias depois, a garotinha faz ao pai a mesma pergunta.
O pai responde :
-Há muitos anos existiam macacos, que foram evoluindo até chegarem aos
seres humanos que vês hoje.
A garotinha, toda confundida, foi ter com a mãe e disse-lhe :
-Mãe, como é possivel que me diga que a raça humana foi criada por Deus
e o Pai diga que evoluíu do macaco?
E a mãe respondeu :
-Olha, minha querida, é muito simples: eu falei-te da minha família, e
o Pai falou da dele ! ...

o muro da vergonha caíu há vinte anos, a ideologia que lhe servia de argamassa apodreceu e a liberdade triunfou fazendo no entanto milhares de vítimas. Mas continuam a existir outros muros da vergonha, o muro que divide a Cisjordânia de Israel e o que impede a passagem de imigrantes mexicanos para os Estados Unidos são os mais conhecidos, mas ainda há mais.
O exemplo mais recente vem da Eslováquia. Em outubro, uma muralha de 150 metros de comprimento e dois de altura foi erguida na cidade de Ostrovany, uma comunidade rural no nordeste do país, com o intuito de isolar um acampamento de ciganos.
No Rio de Janeiro também foi construído outro muro, com o argumento de evitar que construções precárias em favelas destruam trechos da vegetação da Mata Atlântica. No entanto, ONGs e movimentos sociais alegam ser na verdade uma forma de separar as partes mais ricas da sociedade das mais humildes.
Enfim, os muros para deitar abaixo não acabam, acabarão algum dia ?

"Nada de novo sob o Sol", eis uma frase de um filme que ouvi e revi hoje pelo brilhantismo de representação e de conteúdos (The Doubt).
Tirando-a do contexto em que foi pronunciada, aplicada num sentido lato (para querer transmitir a aparência (ilusão) desse estado de coisas), a mesma frase, porém, se considerada noutro âmbito, poderá não corresponder totalmente à realidade.
Olho da lua para o planeta terra e como não vejo fumo algum (e o fumo até pode ser purificador, eis outro 'senão') digo que está tudo bem, "nada de novo sob o sol", mas só aparentemente assim acontece, na realidade da lua não são visíveis a olho nu as guerras e a fome, por exemplo. Há algo de novo, portanto. E isto porque me apeteceu discorrer pela floresta das probabilidades em que tudo mergulha e sobre o sentido e o alcance da interpretação e da própria realidade. Ou talvez seja um desabafo, seja como for, divaguei, mas nada de novo sob o sol, até ao momento, claro, que se saiba!

A Simplicidade

Quando tinha 14 anos, esperava ter uma namorada algum dia.

Quando tinha 16 anos tive uma namorada, mas não tinha paixão.
Então percebi que precisava de uma mulher apaixonada, com vontade de viver.

Na faculdade saí com uma mulher apaixonada, mas era emocional demais.
Tudo era terrível, era a rainha dos problemas, chorava o tempo todo e ameaçava se suicidar.
Descobri que precisava uma mulher estável.

Quando tinha 25 anos encontrei uma mulher bem estável, mas chata.
Era totalmente previsível e nunca nada a excitava. A vida tornou-se tão
monótona.
Decidi que precisava de uma mulher mais excitante.

Aos 28 anos encontrei uma mulher excitante, mas não consegui acompanhá-la de
um lado para o outro sem se deter em lugar nenhum.
Fazia coisas impetuosas, paquerava com qualquer um e que me fez sentir tão
miserável, quanto feliz.
No começo foi divertido e eletrizante, mas sem futuro.
Decidi buscar uma mulher com alguma ambição.

Quando cheguei nos 31, encontrei uma mulher inteligente, ambiciosa com os
pés no chão.
Casei-me com ela. Era tão ambiciosa que pediu o divórcio e ficou com tudo o
que eu tinha.

Hoje, com 40 anos, gosto de mulheres com bunda grande... E só!

Luís Fernando Veríssimo

sábado, 7 de novembro de 2009

vendedores de castanhas junto ao mar - Costa de Caparica - foto flipvinagre