
Chico Xavier

domingo caíu aqui uma carga de água como já não me lembrava. Aliás, foi a repetição do que ocorreu na passada quinta-feira. Além da chuva copiosa e forte, com algum vento à mistura, a trovoada abana tudo, o ribombar dos trovões faz estremecer tudo e mais alguma coisa. A cidade de Luanda fica um caos, o trânsito pára, as barrocas largam as areias e a cidade transforma-se num imenso lodaçal. Na periferia fica tudo pior mercê da construção em zonas perigosas, sem regras ou qualquer tipo de condições. Nestes dias de chuva é um ai jesus nosso senhor nos acuda para as gentes dos musseques, que além de ficarem desalojados, perdem os seus haveres. Mas é um ai jesus para todo o mundo pois é um transtorno que toca à porta. Esta cidade está a rebentar, as estruturas são as mesmas de há uns trinta e muitos anos, o excesso de população acelera a sua decadência e a sua inhospitabilidade. E nos dias seguintes, a terra que desceu às ruas e avenidas, agora seca e poeirenta, deixa tudo cheio de pó, uma dor de cabeça para quem anda na rua. Há muita volta a dar nesta cidade, nesta população, mas não se vêem grandes indícios para que as coisas mudem, vigora por cá o lema modorrento do deixa andar, nas calmas... não há-de ser nada! A vida são dois dias...easy...tá bem então.


O poeta valter hugo mãe nasceu em 1971 na cidade angolana de Henrique de Carvalho (actual Saurimo) e hoje vive em Vila do Conde.
Publicou nove livros de poesia, destacando-se "egon schielle auto-retrato de dupla encarnação" (Prémio de Poesia Almeida Garrett), "três minutos antes de a maré encher", "a cobrição das filhas", "útero e o resto da minha alegria".
É autor de várias antologias: "O encantador de palavras", "Poesia de Manoel de Barros", "Série poeta", "Homenagem a Julio-Saúl Dias", "Quem quer casar com a poetisa, poesia de Adília Lopes", entre outros.

“Se nada fizermos para corrigir o curso das coisas, dentro de alguns anos se dirá que a sociedade portuguesa viveu, entre o final do século XX e começo do século XXI, um luminoso mas breve interregno democrático. Durou menos de 40 anos, entre 1974 e 2010. Nos 48 anos que precederam a revolução de 25 de abril de 1974, viveu sob uma ditadura civil nacionalista, personalizada na figura de Oliveira Salazar. A partir de 2010, entrou num outro período de ditadura civil, desta vez internacionalista e despersonalizada, conduzida por uma entidade abstrata chamada ‘mercados’."Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.
Sophia de Mello Breyner Andersen

- Sim.
- O armário do banheiro está sempre cheio das coisas dela. Potes de creme, sprays, loções, bisnagas... Não tem lugar para as minhas coisas. Já tentei jogar tudo fora, mas não adiantou. No dia seguinte, o armário estava cheio das coisas dela de novo.
- Sim.
- A coberta da cama está sempre presa no lado dela. Não consigo puxar para o meu lado.
- Sim.
- Não posso usar o telefone. Está sempre ocupado.
- Sim.
- E o pior, doutor: os pés gelados dela encostando na minha perna, na cama, quando eu menos espero.
- Sim, sim. Só não entendo porque o senhor está me contando tudo isso. Parece mais assunto para um conselheiro matrimonial, não um psicólogo.
- É que a minha mulher morreu há mais de um ano, doutor!
e ainda outra:
O perdedor cumprimentou o vencedor. Apertaram-se as mãos por cima da rede. Depois foram para o vestiário, lado a lado. No vestiário, enquanto tiravam a roupa, o perdedor apontou para a raquete do outro e comentou, sorrindo:
- Também, com essa raquete...
Era uma raquete importada, último tipo. Muito melhor do que a do perdedor. O vencedor também sorriu, mas não disse nada. Começou a descalçar os ténis. O perdedor comentou, ainda sorrindo:
- Também, com esses ténis...
O vencedor quieto. Também sorrindo. Os dois ficaram nus e entraram no chuveiro. O perdedor examinou o vencedor e comentou:
- Também, com esse físico...
O vencedor perdeu a paciência.
- Olha aqui - disse. - Você poderia ter um físico igual ao meu, se se cuidasse. Se perdesse essa barriga. Você tem dinheiro, senão não seria sócio deste clube. Pode comprar uma raquete igual à minha e ténis melhores do que os meus. Mas sabe de uma coisa? Não é o equipamento que ganha o jogo. É a pessoa. É a aplicação, a vontade de vencer, a atitude. E você não tem uma atitude de vencedor. Prefere atribuir a sua derrota à minha raquete, aos meus ténis, ao meu físico, a tudo menos a você mesmo. Se parasse de admirar tudo o que é meu e mudasse de atitude, você também poderia ser um vencedor, apesar dessa barriga.
O perdedor ficou em silêncio por alguns segundos, depois disse:
- Também, com essa linha de raciocínio..."
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO in "expresso"

POEMA PARA A EXORCISTA
" Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica.| Free website web analytics review. |