sábado, 21 de Novembro de 2009

para contrariar o cinzentão de outono, praia de S.P.Estoril - foto flipvinagre

"a sobrevivência da nossa herança religiosa é condição para a sobrevivência da civilização".

A religião não deve entrar no lugar que pertence à ciência e à técnica. Ela surge de outra dimensão, que "nos capacita para conviver com o fracasso, o sofrimento e a morte". Ela é o caminho que nos leva a "aceitar a derrota inexorável". Para a Humanidade, não há a última vitória, já que, "no fim, morremos".

Sem tradições religiosas, que razão haveria para respeitar os direitos humanos? Vendo as coisas cientificamente, o que é a dignidade humana? Superstição? Do ponto de vista empírico, os homens são desiguais. Como justificar a igualdade? Os direitos humanos são uma ideia a-científica."

As normas morais não podem assentar apenas no medo, segundo o modelo de Hobbes. Até certo ponto, "estamos programados instintivamente para a conservação da espécie". Mas não se pode esquecer que "a história do século passado mostrou inequivocamente que podemos, sem grandes inibições, aniquilar membros da nossa própria espécie. Por isso, precisamos de instrumentos de solidariedade humana, que não assentam nos nossos instintos, interesses próprios ou violência". "A falta da dimensão da Transcendência enfraquece o acordo social."


excerto da coluna no DN de Anselmo Borges - "A sobrevivência da civilização" (a qual contém entrevista do Die Welt ao filósofo polaco Leszek Kolakowski.

impotente para travar a sua queda no abismo,
ele tenta ainda dois passos atrás
mas a inevitabilidade ganha foros de autenticidade e aproxima-se arrastando-o para o fim do seu tempo, um último ensaio para o adeus é a sua derradeira expressão, a gravidade do tempo finito suspende-lhe os dias e a metamorfose termina sem mais regalias

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

de repente sinto uma vontade enorme de dizer qualquer coisa mas não me ocorre sobre o quê, ponho-me aqui a recapitular sobre o que seria e nada, nem uma pequena sombra do que abordar, refaço o meu dia desde manhã cedo até ao momento presente a ver se foi algo que captei no quotidiano e nada de novo, o que seria(?!) começo a rodopiar em seco, dou voltas e mais voltas ao miolo e não surge nada que indique sobre o que queria botar escrita ou versar sobre, ensaio um pequeno texto mas à quinta palavra desisto, fico num impasse, volto a reformular tudo de novo, tudo aponta para que tenha caído num círculo vicioso, um beco sem saída, nem uma janela se abre sobre o que queria abordar hoje, nada, enfim, temo concluir a zeros, sem mais nem menos, aliás, sem menos, melhor dizendo, sem nada, absolutamente nada, e não, não é logro algum, tão pouco manobra dilatória ou algo do género, pura e simplesmente uma tentativa frustrada para escrever algo, uma branca, mas uma branca que ganha autenticidade, que vê a luz do dia, acontece! Mas uma branca à luz do dia permanece branca? E se o dia for cinzento? Uma cinzenta?

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

olá, hello, hi, salut, Oy - foto flipvinagre
Liniers
subo ao sótão
e na velha estante
descubro a minha falta de coragem naquela gaveta
onde guardei postais esquecidos

gostava de te escrever um poema,
dedicar-te uma canção,
mas só sei nadar,
anda,
mergulha agora,
ensinar-te-ei como a mariposa ultrapassa as ondas

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009


atravessando a ponte 25 de Abril com o olhar nas nuvens - foto flipvinagre

tento o equilíbrio, temerosamente, dou dois passos e caio ao terceiro. Tenho jeito, caio bem, caio em pé!
porque escrevo pergunto-me, nem sei o que responder, posso dizer tantas razões como razão alguma que seja válida à luz ou na perspectiva de quem lê, apenas porque me apetece é o que mais facilmente me ocorre, para passar o tempo, para colocar no papel o produto do que penso, ou simples baboseiras, dizem que é importante escrever, e eu acredito que sim mas, no meu caso, estamos a abordar o meu caso, diz-me cá de dentro a razão, é uma forma de desbravar caminhos da alma, estão a ver, isto é pano que dá para mangas, pode quase fazer-se um tratado sobre esta matéria, ou nem por isso, escrevo porque gosto, porque adoro ouvir o teclado, sei lá, porque às vezes o tempo lá fora está bera e então vou por aqui discorrendo o que me dá na gana, talvez seja, conforme o dia, claro, há dias que nem pensar, qual escrever qual quê, isso é que era bom, e acaba-se já o assunto, eis a minha veia de mal disposto a vir à superfície, já quer estragar tudo, o tempo é o culpado, dias de chuva, trânsito infernal, não se pode pedir muito, contingências da vida, é isso mesmo, afinal, por vezes escrevo para desabafar, simplesmente, e faz bem, aliás, faço bem, ou melhor, faz-me bem, isso, é isto. Há quem escreva muito mais do que eu, algumas pessoas chegam a escrever livros inteiros, têm tempo, ou têm algo para dizer, ou pensam demais e querem deitar tudo cá para fora, e fazem muito bem, poderão até ter começado sem esse propósito e quando foram a ver, pimba, livro acabado, estão a ver? Eu acho que já estou a escrever demais, ainda bem que este teclado está a emperrar, há te cla s que j á c ome ça m a f alh ar, a i q ue , chat ice!

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

hoje o Sol voltou a brilhar - Pedra do Sal - SP Estoril - foto flipvinagre
pequeno almoço com humor - para começar bem o dia

“Entro, sorrio um sorriso vago para ninguém, não paro, vou até à estante do fundo, finjo procurar um livro qualquer numa prateleira alta. O velho truque, sim. Olhem bem, amigos, a ver se aprendem alguma coisa. Vamos começar pelo princípio. O primeiro gesto, o truque inicial, movimento nº1. Ainda se lembram? Isso, muito bem. Nº1, guardar o objecto. Livros magros ou, pelo menos, é só uma pequenina adenda, não muito gordos. Não se rouba Bíblias, por exemplo. Mas vá, vamos lá. Fingir que estamos noutra, muito concentrados à procura de altaliteratura, tirar um livro dos mais sérios, folhear com ar de conhecedor, sobrolho franzido, olhos parados. Não aconselho, no entanto, a ler efectivamente as palavras impressas. Não, isso não. Pode ser distractivo, e a mínima interferência num momento crítico destes, já se sabe, pode ser a morte do artista. Não, ler mesmo não. Tudo faz-de-conta, tudo bom engano. Lembrem-se, meus caros, é uma arte, coisa séria. Mas, portanto, nunca ler as próprias palavras, olhar antes para o meio do livro, um imaginário ponto central no risco negro que, por assim dizer, talha o livro em dois, um olhar microscópico e desfocado que não permita desconcentrações de espécie alguma. Nesta fase, pode ser útil contar até cinco para dentro. Completo silêncio, como é óbvio. É a regra de ouro para quem quer dominar este jogo de desviar livros.(...)”

Jacinto Lucas Pires in (Em Linguagem de Frases), Colectânea da FNAC (O Prazer da Leitura)

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

outono no paredão - foto flipvinagre
a música baila no ar num ambiente que propicia o nosso envolvimento,
mas a tua ausência dirige os meus olhos rasteiros e indolentes para o chão,
uma bailarina que rodopia acaba por me estender a mão,
o teu passado começou então...
e se eu te puder legar um sorriso, pois aceita-o de bom grado, usa-o nos momentos tristes e pardos, lamacentos e obscuros, não te deixo em legado a gargalhada pois é pessoal e intransmissível


Giving Up Wine???

I was walking down the street when I was accosted by a particularly dirty and shabby-looking homeless woman who asked me for a couple of dollars for dinner.

I took out my wallet, got out ten dollars and asked, 'If I give you this money, will you buy wine with it instead of dinner?'

'No, I had to stop drinking years ago', the homeless woman told me.
'Will you use it to go shopping instead of buying food?' I asked.
'No, I don't waste time shopping,' the homeless woman said. 'I need to spend all my time trying to stay alive.'
'Will you spend this on a beauty salon instead of food?' I asked.

'Are you NUTS!' replied the homeless woman. I haven't had my hair done in 20 years!'
'Well, I said, 'I'm not going to give you the money. Instead, I'm going to take you out for dinner with my husband and me tonight.'

The homeless Woman was shocked. 'Won't your husband be furious with you for doing that? I know I'm dirty, and I probably smell pretty disgusting.'
I said, 'That's okay. It's important for him to see what a woman looks like after she has given up shopping, hair appointments, and wine.'



este tempo de chuva
é muito ingrato para a sô dona Berta,
ela que adora a exposição ao sol
vê-se grega para manter o bronzeado!

domingo, 15 de Novembro de 2009

cor para contrariar a falta de Sol - Estoril - foto flipvinagre

“ - Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse o criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
- Há antecedentes na familia?
- Desculpe, doutor?
O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias.
(...)
Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita ara poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
- Dói-te alguma coisa?
- Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está a ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:
- E o que fazes quando te assaltam essas dores?
- O que melhor sei fazer, excelência.
- E o que é?
- É sonhar.
(...)
Na semana seguinte foram os últimos a ser atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.
- Não continuas a escrever?
- Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida – disse, apontando um novo caderninho – quase a meio.
O médico chamou a mãe à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
- Não temos dinheiro – fungou a mãe entre soluços.
- Não importa – respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo na sua clínica que o menino seria sujeito a tratamento. E assim se procedeu.
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:
- Não pare meu filho. Continue lendo...”

Mia Couto in O Menino que escrevia versos (O Fio das Missangas)

hoje o Sol não apareceu
- meu olhar entristeceu
a humidade instalou-se, sem licença
- não gosto dela, de nascença
vale-me o livro que leio - com interrogações de permeio
por isso esqueço esta melancolia - afundo-me, concentrado, é noite é dia?
até que o sol regresse - a minha alegria não aparece
vivo, simplesmente - num viver indolente!

cai do céu uma chuvinha pequenina
e tu caminhas num passeio instável exercitando-te num equilibrismo que me toma de cuidados, e o teu cai não cai tornou-me o maior admirador dos teus dotes malabaristas

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

horizontes de luz e sombras - foto flipvinagre


mão na chávena de chá, olhar distante, circunspecto, a noite de outono do lado de fora da janela não ajuda a esclarecer as dúvidas de sempre, o círculo sem resposta vai ganhando guarida, um palpite intuitivo solta aqui e ali uma faísca mas aquele círculo tem uma gravidade enorme, só o fumo vai saindo da chávena...

Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo óptico. A imagem objectiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas dilectas. Os certos casos em que acima se modifica a generalidade da definição vêm a ser aqueles em que o bom senso não pode atinar com o porquê dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes e estúpidas que nos enchem de espanto, quando nos não fazem estoirar de inveja.
E tanto mais se prova a referida depravação do nervo que preside às funções da vista quanto a alma da pessoa enferma, vítima de sua ilusão, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e méritos que o mais digno homem requestaria com orgulho.

Camilo Castelo Branco, in 'Coração, Cabeça e Estômago'