sexta-feira, 21 de agosto de 2009


a sua curiosidade levara-o a calcorrear o mundo inteiro, conhecia todos os cantos e lugares.
Cansado e já com a idade avançada, acabou por voltar à sua aldeia natal.
Um dia, porém, uma mulher maravilhosa disse-lhe que lhe mostraria um local onde ele nunca fora e ele, prontamente, acedeu em acompanhá-la, não se apercebendo, contudo, que a sua sombra já não o acompanhava


"É da tua mão que eu preciso agora. Há momentos, sabes, que me sinto tão cansado, todos estes dias cheios de palavras que me fogem. Então penso em ti: Joana.
(...)
Sempre que me sento no teu carro lembro-me de ti. Também me lembro quando não me sento no carro mas sempre que me sento no carro lembro-me de ti. De ti e de Malanje onde começaste a ser, e as mangueiras tremem-me no interior do sangue.Mas é da tua mão que eu preciso agora. Há momentos em que me farto de ser homem: tudo tão pesado, tão estranho, tão difícil. Eu vou tendo paciência e no entanto, às vezes as coisas magoam, há ideias que entram na gente como espinhos. Não se podem tirar com uma pinça: ficam lá. É então que a cara principia a estragar-se e a gente diz envelhece.
(...)
Nunca estou a gostar do que escrevo, acho aquele em que trabalho o mais difícil, acho que as palavras me derrotam. Frases puxadas como pedras de um poço que não vejo. Banalidades que me indignam por estarem tão longe do que quero. Capítulos que me fogem, o plano da história dinamitado pelos caprichos da minha mão, que não faz o que pretendo: escapa-se sempre, inventa, tenho de apanhá-la a meio de um período inverosímil. Talvez seja por isso que preciso da tua.
(...)
O meu amigo a quem morreu a filha chama-se José Francisco. Quando sorri os cantos da boca parecem levantar voo. Faz-me bem. Gostava de sorrir assim. Experimentei ao espelho e não é igual. Quer dizer, a boca curvou-se mas os olhos ficaram fixos, duros. Deixei de sorrir e enchi a cara de espuma da barba, até ser apenas nariz e olhos. Então sorri outra vez e os olhos acharam graça e mudaram. Os meus olhos sérios olhavam para os meus olhos divertidos. Pisquei o esquerdo e o espelho piscou o direito. Lavei a cara, apaguei a luz, saí. Por um segundo veio-me a sensação de caminhar em Malanje. Aquele cheiro da terra, demorado, opaco, violento. E pronto, é tarde. Em chegando ao fim da página aca bou-se. Ponho a tampa na caneta, os cotovelos na mesa e fico a observar a parede. Nem vou reler isto, mando tal e qual. Prefiro observar a parede, deixar-me impregnar devagarinho pela essên cia das coisas. Esta cadeira, aquele móvel, uma manchinha de cinza no chão, as minhas mãos geladas de frio a acabarem esta crónica. Se calhar amanhã telefono-te. Ou regresso ao romance na teimosia dos cães. Penso: nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Comecei-o no princípio de outubro, falta muito. Alinho os papéis, ponho tudo em ordem para a escrita. Nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Leio a última frase, continuo. Só por um bocadinho de nada, antes que continue, importas-te de tirar as batas do carro? Importas-te de me dar a mão?"

António Lobo Antunes, Segundo Livro de Crónicas

quinta-feira, 20 de agosto de 2009


Usain Bolt, o velocista jamaicano voltou a ser mais rápido nos mundiais de atletismo de Berlim, conquistando outra medalha de ouro, desta vez nos 200 metros com a marca impressionante de 19.19 segundos.
Considerado o "homem mais rápido do mundo", Usain Bolt conquistou a sua segunda medalha de ouro nos mundiais de atletismo de Berlim, estabelecendo dois novos recordes mundiais. Na prova dos 100 metros, Bolt melhorou em 11 centésimos o recorde mundial estabelecido por sim próprio nos Jogos Olímpicos de Pequim.
É impressionante. Congratulations Bolt.

"Eu avistei mais longe que muitos porque fiquei de pé em ombros de gigantes"

Albert Einstein



Desta vez as bandeiras dos monárquicos vieram até Cascais. Notícia no Público:
"À semelhança do que aconteceu na Câmara de Lisboa, foram hasteadas esta madrugada várias bandeiras monárquicas na Cidadela de Cascais. Fonte do blogue 31 da Armada – que reivindicou a acção em Lisboa – já rejeitou a autoria dos acontecimentos de Cascais.
(...) O presidente da Câmara de Cascais, António Capucho, considerou, num comunicado emitido pelo seu gabinete de imprensa, que o hastear das bandeiras na Cidadela foi um "gesto gratuito que em nada favorece a causa monárquica".

até sou a favor da monarquia, mas desde que seja Eu o Rei, claro!


No JN:
"A Taxa de Roubo
2009-08-17
Os técnicos do Instituto Nacional de Estatística têm que criar mais um índice. A Taxa de Roubo. Um indicador destes devia ser periodicamente elaborado e divulgado em conjunto com os níveis de desemprego, de inflação ou do Produto Interno Bruto. Com uma Taxa de Roubo incluída no conjunto das funções estatísticas que já compilamos, teríamos uma imagem muito mais clara do Estado da Nação.

Se houvesse Taxa de Roubo, os noticiários da semana passada, para além dos números do PIB e do Desemprego, teriam incluído que no primeiro trimestre a Taxa de Roubo em Portugal se tinha mantido entre as mais elevadas do mundo industrializado. Os analistas podiam depois ir à TV para nos desagregar a Taxa de Roubo (TR) nos seus componentes mais expressivos, o NSP (Nível de Sonegação Pura), que inclui tudo o que seja trocas em dinheiro vivo em malas, e o GDC (Grau de Desfalque Contabilizável), que descrimina os montantes em off shore e os activos já transformados (quintas, apartamentos, carros, barcos e acções não cotadas na Bolsa que valorizem mais de um centena de pontos em recompra). Assim, ao sabermos que já temos mais de meio milhão de desempregados e que a economia nacional continua a soluçar em níveis anémicos, ficaríamos a saber também que o grau de gatunagem nacional continua intocado e que, apesar da crise, de facto, a nacional roubalheira subiu em termos homólogos quando comparada com trimestres passados. Ficaríamos a saber que a volumetria do roubo em Portugal é das mais imponentes na Zona do Euro e que, contrariando o pessimismo de Pedro Ferraz da Costa quando disse ao Expresso que Portugal não tinha dimensão para se roubar tanto, há perspectivas para a Taxa de Roubo continuar crescer. A insistência do Partido Socialista nos mega-projectos que, antes de começar já assinalam derrapagens indiciadoras de que a componente PPF (Pagamentos a Partidos e Figurões) vai crescer muito, é uma garantia de uma Taxa de Roubo que rivaliza com qualquer democracia africana ou sultanato levantino. No PSD, a presença de candidatos com historial em posições elegíveis e em ternurenta proximidade com a líder, sugere que as boas práticas que têm sustentado a Taxa de Roubo vão continuar nos eventuais Ministérios de Ferreira Leite. Neste ambiente de bagunça ideal, em que se juntam as possibilidades de grandes obras públicas com o frenesim eleitoral, os corretores podem mesmo, à semelhança do que se passa no mercado de capitais, criar valor com Futuros baseados nos potenciais de subida da Taxa de Roubo Portuguesa. Por exemplo a inclusão de António Preto nas listas do PSD funciona como uma espécie de colateral de garantia de que os fluxos de dinheiros partidários continuam com todas as perspectivas de crescimento. Mudam as malas, mas continua tudo na mesma. Pode-se pois criar à confiança um produto derivado colateralizado de alto rendimento e risco relativo, porque os dois grandes partidos obviamente confiam que a ingenuidade do eleitor português se mantenha. Julgo que, tal como Ferraz da Costa, também Henrique Medina Carreira foi excessivamente prudente ao comparar o Portugal político a um "grande BPN". Acho que com TGV, auto-estradas, Freeport e acções não cotadas da sociedade Lusa de Negócios a render lucros de centena e meia de pontos, Portugal é uma holding de rapinagem que faz o que se passou no BPN parecer a contabilidade de uma igreja mórmon. "

reflexos (rosa) de Cascais - foto flipvinagre

to be or not to be...

o ar sereno da noite conduz, ameno,
o teu corpo para junto do meu,
cruzando-se as nossas vontades na areia molhada da praia,
foi a primeira noite que vi a espuma do mar nos teus olhos
e que passei a gostar de algas, na tua boca

quarta-feira, 19 de agosto de 2009



Ela virou-se para ele e disse, amo-te.
Ele já dormia, chegara a casa cansado,
era tarde para ela.

"Nelson Évora conquistou a medalha de prata no triplo salto dos Mundiais de atletismo, ao saltar a 17,55 metros. O português perdeu o título que detinha para o britânico Phillips Idowu, que chegou aos 17,73m, melhor marca mundial do ano."

o texto e a excelente imagem são do "Público"

Parabéns Nelson.

centro de Cascais - foto flipvinagre


hoje ocorreu-me pôr o mundo a par das útimas novidades em matéria de segredo cósmico. Mas, reflectindo melhor, penso que iria criar uma onda de enorme espanto e uma especulação incomensurável dominaria a opinião pública e daí ao caos seria um instante, por isso concluo decidindo manter-me quieto e mudo, é melhor assim, espero que compreendam.

terça-feira, 18 de agosto de 2009


cão, o melhor amigo do homem


Um Homem contra Deus (The Man who sued God)

De: Mark Joffe

Com: Billy Connolly, Judy Davis, Colin Friels, Bille Brown, Wendy Hughes

filme australiano, lançado em 2001
Género: Comédia, Drama

Steve Myers é um homem de meia idade que resolveu afastar-se da sociedade, do seu casamento e do direito.
Ele luta para ganhar a vida a pescar caranguejos e fala quase só com o seu cão, Arthur. A sua ex-mulher, Jules, e a filha de 11 anos, Rebecca, vivem agora com o gerente do parque de atrelados da cidade. Jules pensa que Steve é um lunático, e conhecendo-o, sabe que ele não vai resistir assim por muito tempo. Um dia, um relâmpago atinge e afunda o barco de pesca - e casa flutuante - de Jules. A toda poderosa companhia de seguros recusa-se a pagar, alegando que se tratou de um acto de Deus (que em inglês se designa por ‘Act of God’ e que numa tradução generalista pode significar motivo ou caso de força maior, incontrolável, acto fortuito...) .
Completamente fora de si com a situação, só resta a Steve uma solução, pôr em tribunal a outra parte. E é o que faz: processa Deus! Em causa, vêem-se envolvidos os representantes religiosos e as poderosas companhias de seguros discutindo a interpretação de um conceito (uso abusivo/referência abusiva e descontextualizada da palavra ‘Deus’?).
Interessante.

Reflexos de Cascais - foto flipvinagre

segunda-feira, 17 de agosto de 2009


"Em contrapartida, sempre que uma alma tem qualquer espécie de moral, de religião ou de filosofia, uma cultura burguesa profunda e certo número de ideais no domínio do dever e do belo, ela recebe em recompensa um sistema completo de prescrições, de condições, de regulamentos a que tem de se submeter mesmo antes de lhe ser possível aspirar a tornar-se uma alma superior; e o seu entusiasmo, como o ímpeto ardente de um alto forno, acaba por se canalisar através de belos moldes de areia.No fundo, apenas restam alguns problemas de interpretação lógica, como o de se saber se um acto está ou não de acordo com este ou aquele mandamento; a alma apresenta o carácter serenamente panorâmico de um campo de batalha após o combate; os mortos conservam-se tranquilos, de forma que é possível observar imediatamente onde continua a palpitar um resto de vida, ou um gemido.Eis por que motivo o homem realiza essa transição o mais depressa possível. Quando o atormenta alguma dúvida acerca da sua fé, como por vezes acontece durante a juventude, ele passa imediatamente a perseguir os incrédulos; quando o amor o incomoda, ele transforma-o em casamento; e quando qualquer outro entusiasmo se apodera de si, furta-se à impossibilidade de viver durante muito tempo no íntimo fogo que o consome, principiando a viver para esse mesmo fogo.(...) Apenas os loucos, os tarados, as pessoas com ideias fixas são capazes de se manterem durante muito tempo no fogo da alma em êxtase; o homem são deve contentar-se em explicar que a vida, sem essa parcela de fogo misterioso, se lhe não configuraria digna de ser vivida."

Robert Musil ( O Homem sem Qualidades)


Vinha na minha direcção,
o seu corpo serpenteante fixava-me os sentidos
deixando-me alheio ao resto do mundo,
mas ela, entretanto,
optou por outro caminho.
Ninguém é perfeito.


todas as mulheres sabiam que ele era um falsário famoso
e por isso nenhuma lhe confiava o coração,
tinham dúvidas que o seu amor fosse verdadeiro

Reflexos de Cascais - foto flipvinagre

cruzei-me com o vento,
ouvi-lhe murmúrios acumulados dançando em rodopio
e nele depositei segredos inconfessáveis
que vi esvoaçarem no campo,
para onde dava a tua janela e o teu sorriso,
que nunca mais esquecerei.

domingo, 16 de agosto de 2009

A vida deve ser bebida

Estou
E num breve instante
Sinto tudo
Sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
E despeço-me de mim
Para me encontrar
No próximo olhar
.
ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão
.
nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
Deve ser bebida


Mia Couto



NA ILHA DESERTA

— Pô, Luana.
— Não chega nem perto.
— Mas estamos só você e eu nesta ilha. E estaremos aqui pelo resto de nossas vidas.
— A escolha foi sua. Ninguém me perguntou nada.
— Como é que eu ia saber que a pergunta não era hipotética? Que quando o cara me perguntou que livro, que disco e que mulher eu levaria para uma ilha deserta não era pesquisa? Que ele ia interpretar não como sonho, mas como pedido?
— Você devia ter desconfiado do turbante.


excerto da crónica "Cuidado com o que você pede..." de Luís Fernando Veríssimo.


Peões em Jogo ( Lions for Lambs)
De: Robert Redford
Com: Robert Redford, Meryl Streep, Tom Cruise
Género: Dra, Thr

o filme desenvolve-se em três ‘frentes’ (a entrevista de uma jornalista com um político, uma conversa entre um professor universitário e um aluno, uma situação de guerra nas montanhas do Afeganistão), e acaba por ser um alerta de cidadania em torno da guerra que os EUA vão desenvolvendo por esse globo fora.
Redford faz uma afirmação que, não sendo nova, é capital. Não adianta culpar o Governo, o Presidente, a conjuntura, Bin Laden, o cinismo da política internacional ou do complexo militar-industrial, na actual situação de guerra sem desfecho à vista: em algum ponto da engrenagem cada pessoa, cada um de nós, fez escolhas com implicações que poderiam ter mudado alguma coisa. Muito ou pouco, não importa: poderiam ter mudado alguma coisa.
Um filme sem heróis e o mundo conitnua na mesma sendo aí, porventura, que exista alguma decepção para os que esperam, no escuro do cinema, ter a certeza que os bons ganham e os maus perecem, como sempre nos quiseram fazer crer.
Redford não nos satisfaz — interpela-nos.
A ver.

reflexos de Cascais - foto flipvinagre


“Nunca é demais citar a frase de Chesterton: A razão porque os fantasmas abandonaram os velhos castelos da Escócia é porque as pessoas deixaram de acreditar neles. Isto significa, por outras palavras, que havia no homem uma conformação especial para comunicar com o misterioso e o oculto que inteiramente perdeu. Isso não significa que o misterioso e o oculto tenham sido banidos do real mas que se manifestam doutra maneira."

António Alçada Baptista in “Catarina ou o sabor da maçã”