segunda-feira, 6 de julho de 2009


A recordação é uma forma de reencontro.
O esquecimento é uma forma de liberdade.

Kahlil Gibran

Lg. Luís de Camões, Lisboa - foto flipvinagre (a minha homenagem em 'photoshop')

Quando de minhas mágoas a comprida
Imaginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
Que foi para mim sonhos nesta vida.

Luís de Camões
«O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.»

Willian George Ward

domingo, 5 de julho de 2009



acordei naquele enorme descampado sem me lembrar como ali fui parar. Estava completamente despido, nada no pelo, sujeito, pois, às leis da natureza. Tu, nada, nem sinal, havíamos combinado encontrar-nos à sombra daquele cipreste e reconhecer-te-ia pela blusa lilás que envergarias mas, tudo indica que não apareceste. Indaguei os meus botões, ao mesmo tempo, se estando eu naqueles propósitos, tu terias aparecido e te recusasses a admitir que eu teria a coragem de te receber naquelas condições. Enfim, admito que não, como já referi, nunca poderei esclarecer como tal aconteceu. Entretanto, algumas peças de roupa penduradas num cipreste mais baixo, atrás daquele onde acordámos juntar-nos, começava a aparecer à minha frente e junto delas um estojo de madeira, requintado, de um vinho de marca, mas garrafa alguma se via no interior. Receei o pior, perdoa-me este mal entendido, sim, sei que também bebes mas, neste caso, devo ter perdido as estribeiras, a sede deve ter tomado conta de mim.
De repente, não sei surgida de onde, vejo a tua irmã gémea a correr em minha direcção, abraçou-me, eufórica. Ela vestia a minha camisa!
Lembro que agendámos novo pic-nic em Agosto. Estás por cá?

sábado, 4 de julho de 2009


Convento do Carmo, Lisboa - foto flipvinagre

O fim das histórias
"- Assim dizem que se passaram as coisas - dirá o compadre Nushino cuspindo ainda uma última vez antes de partir, porque os xuar se afastam quando acabam uma história, evitando as perguntas que geram mentiras. "

Luis Sepúlveda in O velho que lia romances de amor

foi no rio que ela se libertou
eu era um simples navegante
no seu leito
delirante
A Tarde

Rodam as ondas frágeis
dos entardeceres
como limpas canções de mulheres.

José Gorostiza
Trad. Horácio Costa

sexta-feira, 3 de julho de 2009


Tv. da Arrochela (a S.Bento), Lisboa - foto flipvinagre


A multidão invadira a praça, rodeando a estátua que lá em cima apontava, imperativa, a grande glória da pátria. Espezinhando canteiros, inundando ruas adjacentes, vociferante. A manifestação.
Os gritos indicados. Guinchos. Várias crianças à procura da mãe ou do pai. Era o apoio. Incondicional, ininterrupto, ao primeiro-ministro. Ali, na praça enorme e impaciente.
O primeiro-ministro olhou por uma das janelas, no terceiro andar antiquíssimo do paço Ministerial. Sorriu levemente. Apalpou a cara, passou as mãos pela lapela do casaco, numa carícia inconsciente. Acenou com a cabeça, discreto, um pouco irónico, ao ministério perfilado no fundo da Sala dos Actos. Dirigiu-se à varanda alta, sobre a praça apopléctica.
Abriu a janela num gesto amplo e paternal e deu um passo em frente.
Ouviu-se um som murcho e abafado, uma espécie de paff das bandas desenhadas, lá em baixo, no empedrado decorativo que circundava o Paço. Alguém tirara a varanda. Toda.

Mário-Henrique Leiria in "Fábulas do Próximo Futuro", Estampa (1978)
Praia branca, tristeza
Mar sem fim
Lua nova
Mulher
Pobre de mim
Vento sul que o seu corpo acarinhou
Céu azul
De manhã me despertou

Vinicius de Moraes


continua este país (salvo seja...) a não dar o devido mérito a quem o merece, a não reconhecer a valia, o contributo e o esforço de quem honra a nação. Triste, tudo isto é triste, tudo isto é fado.
Hoje, no Público:
Pianista zangada com autoridades governamentais
Maria João Pires renuncia à nacionalidade portuguesa
03.07.2009 - 09h13 Margarida Gomes
A pianista Maria João Pires vai renunciar à nacionalidade portuguesa, tornando-se aos 65 anos cidadã brasileira. A notícia é avançada pela Antena 2 da RDP, que adianta que a pianista se fartou “dos coices e pontapés que tem recebido do Governo português".
Decepcionada com o modo como tem sido tratada a nível governamental, sobretudo no seu projecto de ensino artístico de Belgais (Castelo Branco), Maria João Pires, que tinha dupla nacionalidade, decidiu agora ficar apenas com a brasileira. (...)
A pianista tem recebido telefonemas de vários organismos governamentais de Espanha e do Brasil a convidarem-na para se instalar definitivamente nesses países, mas o convite feito pelas autoridades brasileiras terá sido muito sedutor, levando a pianista a optar por se mudar de armas e bagagens para o outro lado do Atlântico."

e há tantos outros que partem desta ocidental praia lusitana descontentes, nas ledas e tristes madrugadas...

na Praia da Poça, Estoril (o mural foi obra dos alunos das Escolas de S. João do Estoril/Galiza) - foto flipvinagre

quinta-feira, 2 de julho de 2009


duas crianças olhavam o mar,
em silêncio,
e viam a repetição das ondas, uma após outra desfaziam-se na areia
e tudo recomeçava,
como elas


Não creio nos filósofos,
mas cativou-me sempre a sua audácia de pensar.
É bonito, leiam-nos.
Quanto aos poetas (o pp. foi um deles) sorriam-lhes de longe.
Mas atenção aos grandes músicos, à sua estranha perfeição,
à nostalgia que nos invade ao escutá-los.
Quando encontrarem um, não o deixem escapar.
Poderia pensar-se que nos trazem notícias de Deus.
É mais: como Deus não existe, eles têm de forjá-las.

Sebastião Alba in "Albas" - Editora Quasi(2003)

eis que não é para todos essa enorme responsabilidade (social, política, ética...) de representar o governo de um país. O ministro Manuel Pinho revelou hoje no Parlamento, peremptoriamente, que a banalidade e a grosseirice já chegaram ao topo, atitude que se lamenta profundamente, estes 'maus' exemplos em nada dignificam o país, o governo, as instituições democráticas, os cidadãos e a causa pública. A todos os títulos, lamentável! E fico-me por aqui.

Tu matas-me - "You Kill Me" (2007)
REALIZADOR
John Dahl

INTÉRPRETES - Ben Kingsley, Téa Leoni, Luke Wilson, Dennis Farina, Philip Baker Hall, Bill Pullman, Marcus Thomas, Scott Heindl.

"Olá, o meu nome é Frank, sou alcoólico, e ganho a vida a matar pessoas...
Isto é anónimo, certo?"

Frank Falenczky (Sir Ben Kingsley) é um assassino profissional e trabalha para uma família mafiosa polaca em Buffalo/USA que, quando o seu alcoolismo o leva a falhar uma missão crítica, é obrigado pelo seu tio (mafioso) a ir para São Francisco curar-se. Frank não tem alternativa, segue o destinado pelo tio e ainda é obrigado a aceitar um emprego numa casa mortuária bem como a ir a reuniões dos alcoólicos anónimos, onde acaba por confessar a sua ocupação e que o alcoolismo lhe está a afectar negativamente a sua capacidade de matar pessoas. Ele acaba por se apaixonar por Laurel Pearson (Téa Leoni, continua linda), uma excêntrica cliente da mortuária onde este trabalha (foi ali celebrado o funeral do padrasto). Entretanto as coisas não correm bem em Buffalo pois um Gang Irlandês em ascensão ameaça o negócio da família e, quando a violência ressurge, Frank é forçado a voltar ao lar para, com a improvável ajuda de Laurel, enfrentar antigos rivais em novos termos.
Uma comédia, a ver.

na Ericeira - foto flipvinagre

Téa Leoni (sempre maravilhosa)

"Conhecemo-nos na rua. Foi a única que conheci assim. Deixou cair um aquário e eu tentei salvar o peixe. Enfiei-o numa garrafa e ele morreu. Prometi-lhe: «Vais ver - vai ficar como novo.» Ela acreditou. Desiludi-a pela primeira vez. Ela era tão bonita que me senti um assassino. Pedi-lhe o número de telefone. Ela não mo deu. Podia ter-me dado um número qualquer - sempre seria um esforço - mas limitou-se a dizer «Não!». Era a palavra favorita. Estava sempre a dizer que não. A mim irritava-me imenso, sendo eu uma pessoa pouco cumpridora, mais virada para o sim. Depois conheci o pai dela. Vendeu-me uma enciclopédia náutica. Naquele tempo eu comprava tudo o que os pais das minhas namoradas vendiam. Móveis, gravuras. Tinha uma casa horrível. Estilo rococó. A filha do homem que ma vendeu recusou-se sempre a ir comigo para a cama em casa dela. «É a cama do meu pai», dizia a anormal e lá tinha de me vestir outra vez e levá-la para um hotel ainda mais piroso que a minha casa, o predilecto dela, caríssimo. Apaixonei-me num momento desprevenido. Estava a ver um jogo de futebol, ela meteu-se à frente do televisor e, em vez de lhe dar um grito, não reparei, pela minha saúde, fiquei ali especado a olhar para ela. Um minuto de exposição foi quanto bastou. Não se pode olhar muito tempo para raparigas bonitas sem este género de merdas acontecer."

Miguel Esteves Cardoso in "O amor é fodido", 2000

Procuramos por toda a parte
O que está para além das coIsas
E o que encontramos são apenas coisas.

Novalis - Fragmentos
Trad. de João Barrento

praia dos três irmãos, Alvor - foto flipvinagre


A minha homenagem a uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. Gosto muito!

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua

Sophia de Mello Breyner Andresen
(faleceu em 2 de Julho de 2004)

quarta-feira, 1 de julho de 2009


pátio interior do Centro Cultural de Cascais (estátua de Camões no canto inferior direito) - foto flipvinagre



naquela manhã, em que buscava na praia vestígios da tua resposta, a rebentação deixou-me ler os sinais da tua última vontade, na areia molhada, metade do meu nome subsistia ao recuo das ondas e um sim espreguiçava-se na espuma do mar


"A letra de Deus nem sempre á decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana. Às vezes, a gente julga que as palavras chegam para esclarecer a vida mas, hoje, estou certo de que muitas coisas permanecem por detrás de palavras que ainda não foram feitas e outras, por detrás de palavras de que perdemos o uso.
(...)
Tudo me leva a crer que as marcações que nos deram para o desempenho da vida passam ao lado do caminho por onde os nossos afectos continuam a fluir conforme o que está escrito no mapa oculto do ser humano. Pressinto que continuamos fora do essencial e que as razões das circunstâncias - que, muitas vezes, são poderosas e reais - só servem para nos afastar dos enigmas que estão à frente das coisas e que nos caberia decifrar. Porque, algumas vezes, até parece que a simplicidade emana do andamento da vida e que bastaria um pequeno gesto de espírito para passarmos para o lado de lá de tantas incomodidades que nos fazem viver como se tivéssemos calçado dois números abaixo da forma da alma.
(...)"

António Alçada Baptista in "O Riso de Deus"

visto por "Modigliani"

transforme-se aqui, e divirta-se.
Do Baptista Bastos, também no DN de hoje:


"(...) Cada vez mais desarvorado com os sucessivos dislates, José Sócrates decidiu, agora, consultar os "magos" que ajudaram Barack Obama a conquistar o poder. Uma mistura de marquetingue e de Alvin Tofler. E, embora um técnico português de publicidade, altamente qualificado, tenha dito que não há nenhum génio que consiga, hoje, vender fruta bichada, Sócrates não abdicou de escutar os americanos. Atingimos a era do desequilíbrio e da alucinação. O Estado é entendido como uma empresa, não como a configuração de um corpo político, social e administrativo.
Afinal, que deseja de nós o secretário-geral do PS? Ambiciona os votos de quem? Enquanto esta espessa mediocridade sem alma e sem valores campeia infrene, que nos espera? Manuela Ferreira Leite? Dá que pensar."
Gostei de ler, no DN, a crónica de Vasco Graça Moura – “O desprezo da criatura”, sobre o projectado negócio entre a PT e a Media Capital:

“ (...) Vimos Sócrates, Lino e Zeinal Bava meterem os pés pelas mãos. O significado da golden share e a importância da PT, mais as tergiversações e as descoincidências entre o que dizia o primeiro, o que engrolava o segundo e o que tartamudeava o terceiro, indiciavam desde logo que não podia ser assim. (...)
Mas afinal viu-se no dia seguinte um Sócrates de visagens circunspectas e a modos que embatucado, corroborando lugubremente a sua incompetência, a dizer que usaria o veto da golden share como se fosse uma espécie de benzina preventiva para tirar nódoas da sua própria imagem… enquanto o novo porta-voz do Governo intervinha quanto a estas e algumas outras trapalhadas, arvorando um risinho esparvoado para dizer umas patetices inócuas. (...)
Estou em crer que Medina Carreira, quando na passada sexta-feira disse a Mário Crespo do nojo que certas coisas lhe metiam e usou com ácida indignação o termo "trafulhas", não se estava a referir propriamente a traficâncias em casas de alterne. O tópico fornece uma proposta de hermenêutica laboriosa para os Estados Gerais do PS.
Entretanto, o Presidente da República deu a Sócrates o mais violento puxão de orelhas que ele recebeu até hoje. Só se compreende que o tenha feito nos termos em que o fez por ter sido alertado para a turva promiscuidade dos objectivos subjacentes e para a iminência escandalosa da conclusão do negócio.
De resto, ainda bem que o fez nos termos em que o fez: não podendo já pôr Sócrates no olho da rua por força da Constituição, só lhe restava exprimir o maior desprezo pela criatura.”

e assim vamos indo, creio que a silly season se prolonga cada vez mais no tempo...e o Vasco não está com meias medidas, é açoite de se lhe tirar o chapéu