sexta-feira, 9 de outubro de 2009


- não me apetece escrever
- oh, vá lá, diz qualquer coisa
- não
- estás a fazer birra, não custa nada, desembucha qualquer coisinha
- não, já disse
- ora, cansaço?
- não, só que não me apetece, pronto!
- duas ou três linhas, vá, faz um esforço.
- não, não tenho nada para dizer e se for para pôr parvoíces aqui não estou para isso
- tu também!!! Não custava nada, podias abordar tanta coisa, sei lá, a tentativa frustrada de um frustrado candidato a presidente da câmara, hein(?), que dizes?
- não, seria frustrante, hoje não
- está bem, e amanhã?
- amanhá logo se vê, dorme

quinta-feira, 8 de outubro de 2009


a luz ao fundo do túnel - foto flipvinagre

O desenho
redondo do teu seio
Tornava-te mais cálida, mais nua
Quando eu pensava nele...Imaginei-o,
À beira-mar, de noite, havendo lua...

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
Ornar-te o busto de uma renda leve
E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
Em ti, a branca irmã que nunca teve...

Pelo que no teu colo há de suspenso,
Te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
Era um convite lúcido às estrelas....

Imaginei-te assim á beira-mar,
Só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
No desenho redondo do teu peito...

David Mourão Ferreira



dou por mim a escrever só por escrever, nada surge que mereça particular atenção ou desenvolvimento mais alongado, e então, inevitavelmente, o teclado deixa de merecer-me atenção, quase que lhe faço um favor em carregar nas teclas, mas ao olhar mais atentamente, dou conta de que raramente toco nalgumas delas, o cardinal, a percentagem, o F1 e respectiva familia, teclas que deveria dispensar, claro, mas fizeram teclados universais e daí tanta tecla abandonada, silenciadas anos a fio, e por isso as lembro hoje, toquei nelas pela primeira vez, um toque de gentileza e carinho. Eis a minha boa acção diária, completamente realizada, e sem mexer uma palha. Estou sem palavras!

A grande originalidade não é dizer coisas novas mas ser novo diante das coisas velhas.

Vergílio Ferreira

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

na última reunião do G20 alguém andou aos papéis...

espelhos de Lisboa - edifício Monumental - foto flipvinagre

terça-feira, 6 de outubro de 2009



«Somente pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que um outro vê desse universo que não é o mesmo que o nosso e cujas paisagens permaneceriam tão desconhecidas para nós quanto as que podem existir na lua. Graças à arte, em vez de ver um único mundo, o nosso, vemo-lo multiplicar-se, e quantos artistas originais existam tantos mundos teremos à nossa disposição, mais diferentes uns dos outros do que aqueles que rolam no infinito e, muitos séculos após se ter extinguido o foco do qual emanavam, chamasse ele Rembrandt ou Ver Meer, ainda nos enviam o seu raio especial.»

Marcel Proust in «O Tempo Reencontrado»
a chuva cai, mansinha e indolente

uma gota de cada vez, martirizante

o cinzento chega e de repente

a luz não se vê, frustrante

lá em cima o sol escuta

que tempo filho da mãe




no Largo de S.Carlos, Lisboa - foto flipvinagre

"A arte é, provavelmente, uma experiência inútil; como a «paixão inútil» em que cristaliza o homem. Mas inútil apenas como tragédia de que a humanidade beneficie; porque a arte é a menos trágica das ocupações, porque isso não envolve uma moral objectiva. Mas se todos os artistas da terra parassem durante umas horas, deixassem de produzir uma ideia, um quadro, uma nota de música, fazia-se um deserto extraordinário. Acreditem que os teares paravam, também, e as fábricas; as gares ficavam estranhamente vazias, as mulheres emudeciam. A arte é, no entanto, uma coisa explosiva. Houve, e há decerto em qualquer lugar da terra, pessoas que se dedicam à experiência inútil que é a arte, pessoas como Virgílio, por exemplo, e que sabem que o seu silêncio pode ser mortal. Se os poetas se calassem subitamente e só ficasse no ar o ruído dos motores, porque até o vento se calava no fundo dos vales, penso que até as guerras se iam extinguindo, sem derrota e sem vitória, com a mansidão das coisas estéreis. O laço da ficção, que gera a expectativa, é mais forte do que todas as realidades acumuláveis. Se ele se quebra, o equilíbrio entre os seres sofre grave prejuízo."

Agustina Bessa-Luís in 'Dicionário Imperfeito'

"Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux" / "The only real voyage of discovery consists not in seeking new landscapes, but having new eyes."

Marcel Proust

segunda-feira, 5 de outubro de 2009


é nestes dias cinzentos, de chuva tola e miudinha, quando as aves migratórias nos deixam, que lamento não ter asas... agora deve-se estar tão bem no hemisfério sul!

espelhos de Lisboa - na Avª 5 de Outubro - foto flipvinagre

"Os tentáculos da escrita. A escrita é um polvo, um molusco versátil. Tem infinitos recursos. Escapa sempre. Abstractiza-se. Disfarça-se, adensa-se, adelgaça-se, esconde-se. Impele-se rápida. Compreende tudo: ascese, consolo íntimo, entrega; fluxos, refluxos, invasões, esvaziamentos, obstinação feroz. O seu rigor é místico. É uma infinita demanda. Perscruta o inaudito. Sideral Alice atravessa todas as portas, todos os espelhos. Cruza, descobre, inventa universos. A escrita é um fragmento do espanto, já alguém o disse."

Ana Hatherly in 'Tisanas'

abandonam o ninho e voam de árvore em árvore, vão pulando de galho em galho até encontrarem o poleiro certo, são assim algumas aves, parecem instáveis mas não são, eis as aves oportunistas. Algumas, mais acutilantes, transformam-se quase em aves de rapina e em certos países são mesmo espécies protegidas. Andam aí, na campanha para as autárquicas, estejam atentos, piam pouco pois acomodam-se nas sombras das outras aves, piam até despercebidamente, ó que saudades da minha fisga!

domingo, 4 de outubro de 2009


Casa Museu Condes Castro Guimarães, Cascais - foto flipvinagre


Tome-se
Um poeta não cansado,
Uma nuvem de sonho e uma flor ,
Três gotas de tristeza , um tom dourado,
Uma veia sangrando, de pavor.

Quando a massa já ferve e se retorce ... Deita-se a luz dum corpo de mulher.
De uma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta ... assim requer !

José Saramago

Um livro indispensável para quem queira saber mais sobre o êxodo de milhares de cidadãos de Angola durante o processo de independência daquele território português, narrados na primeira pessoa pela autora, vítima e testemunha desse período conturbado. Ao mesmo tempo, um regresso ao passado, uma revisitação das memórias que a autora guardou da sua infância e adolescência passadas na sua terra natal, uma terra de sonho, uma paixão que não acaba nunca, como diz Alexandre Herculano “ Pátria - Não é a terra, não é o bosque, o rio, o vale, a bonina . . . A Pátria São os afectos, que esses lugares nos recordam, na história da nossa vida!”.
Como me acrescentou a autora, a Pátria “São os cheiros, os sabores, as cores, os sons e os amores de nossa memória”.
E essa memória é também uma caixa de ressonância e de depósito de infinitas sensações, de emoções acumuladas ao longo do tempo, que foram moldando o ser e o estar desses angolanos numa característica única e universal aos olhos de quem sabe da história percorrida, apesar de tudo, ainda com coragem para continuar, para sonhar e partilhar esse mesmo sonho, agora publicado.
“Sentei-me na cama com um maboque em cada mão, admirando e evocando o cheiro da infância, de Angola, dos piqueniques na beira do rio Kuanza, das caçadas, da adolescência no clube da Nharêa, da fazenda na Calucinga, das cachoeiras, do olor de umidade do musgo no caminho da horta, da igreja, da mata do colégio, do liceu, das boates no Cubo, da Pastelaria Primor, do primeiro beijo. Agarrei-me aos dois maboques e não os comi para cheirá-los incessantemente por dois dias.”
Eis que, ao longo do texto, se vão misturando o doce sabor da infância, da familia, do colégio, das amizades e um outro sabor, amargo, relativo a uma saída forçada da terra natal, imposta, contra-vontade, devido a uma guerra entre interesses escondidos e uma horda de irresponsáveis sem respeito pelos direitos dos seus concidadãos, cujo futuro roubaram.

sábado, 3 de outubro de 2009


em Cascais - foto flipvinagre

ah, a poesia, esse desfile de palavras que a tudo procura dar sentido, que avança desvendando tudo o que parece oculto, até a porta mais escancarada tem segredos por revelar, para uns a liberdade, para outros nem tanto, apenas o sol que espreita a sua recolha e secreta solidão

A Pátria

Não é a terra, não é o bosque, o rio, o vale, a bonina . . .
A Pátria
São os afectos, que esses lugares nos recordam, na história da nossa vida!

Alexandre Herculano

sexta-feira, 2 de outubro de 2009


Vinte e oito, destino Graça - Lisboa, foto flipvinagre

"Só quando os homens chegam a uma certa idade é que podem dizer com certeza que as mulheres são melhores do que eles em tudo . Mesmo na bola, a carregar pianos, a lutar com jacarés ou nas outras coisas em que ganhávamos quando éramos mais novos e brutos e fortes.
Quando se é adolescente, desconfia-se que elas são melhores.
Nos vintes, fica-se com a certeza.
Nos trintas, aprende-se a disfarçar.
Nos quarentas, ganha-se juízo e desiste-se.
Nos cinquentas , começa-se a dar graças a Deus que seja assim.
Os homens que discordam são os que não foram capazes de aprender com as mulheres (por exemplo, a serem homenzinhos), por medo ou vaidade ou estupidez.
Geralmente as três coisas.
Desde pequenino, habituei-me que havia sempre pelo menos uma mulher melhor do que eu. Começou logo com a minha linda e maravilhosa mãe, cuja superioridade - que condescendia, por amor, em esconder de vez em quando - tem vindo a revelar-se cada vez mais.
As mulheres são melhores e estão fartas de sabê-lo.
Mas, como os gatos, sabem que ganham em esconder a superioridade.
Os desgraçados dos cães, tal como os homens, são tão inseguros e sedentos de aprovação que se deixam treinar.
Resultado ... fartam-se de trabalhar e de fazer figuras tristes, nas casas e nas caças e nos circos. Os gatos, sendo muito mais inteligentes, acrobatas e jeitosos, sabem muito bem que o exibicionismo vão leva à escravatura vil.
Isto não é conversa de engate.
É até um tira-tesões.
Mas é a verdade.
E é bonita."

Miguel Esteves Cardoso
marginal de Luanda (foto recebida por email)

a tarde cai num fluxo inebriante de cheiros, tu, a maresia, a madeira da proa, as flores que te dei, e seguimos noite dentro com a lua em quarto crescente, como o que vai dentro de nós

quinta-feira, 1 de outubro de 2009


no Teatro S. Luiz, Lisboa - foto flipvinagre
"O avô Bento, em noites de cacimbo à volta da fogueira, nos contou fumando o seu cachimbo, que ele próprio esculpiu, em pau especial .
Dizia a estória se passou aqui mesmo, nas serras ao lado, mas pode ser que fosse trazida de qualquer parte da África. Até mesmo do Oriente, onde dizem, também há água lilás.
Se virmos bem, em muitos lados pode ter uma montanha semelhante.
Eu só contei aquilo que o avô nos contou, não inventei nada.
Era uma montanha como as outras.
Tinha dois cumes principais ... o cume Lupi, onde nascia o rio do mesmo nome, e o cume do Sol no extremo oposto.
No meio dos dois, havia um morrozito com pedras, sem plantas nem árvores, apenas capim baixo .
Era o sítio mais calmo e dali podia ver-se melhor o luar de Lua cheia, por isso era o Morro da Poesia .
Era uma montanha como todas as outras ... mas seria mesmo ?! "

Pepetela in A Montanha da Água Lilás

descoberta a placa, falta a localização exacta...