terça-feira, 14 de julho de 2009


Antes que o Diabo Saiba que Morreste
( Before the Devil Knows You're Dead)
De: Sidney Lumet
Com: Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney
Género: Drama, Thriller
EUA/GB, 2008

Andy e Hank Hanson, dois irmãos desesperados por dinheiro, decidem assaltar a ourivesaria dos próprios pais, dois idosos que ainda mantêm aberto o negócio da sua vida. Andy (Philip Seymour Hoffman), alto quadro de uma empresa e heroinómano nas horas vagas, é o estratega do golpe que, se correr bem, não trará prejuízos, já que a ourivesaria dos pais tem seguro. Para realizar o plano, precisa da ajuda do irmão Hank (Ethan Hawke), um inseguro. Só que o golpe, programado para ser limpo e sem tiros, deixa um cadáver, uma velha em coma e os dois irmãos ficam com as portas do inferno à sua frente.
Excelentes desempenhos de todos os actores e uma realização de mestre de Lumet que, com grande mestria, faz um belo exercício de montagem a partir de uma estrutura de «flash-backs».
Bom filme.


Da Leitura

O ler faz um homem completo, o conferir destro, o escrever exacto. Bem por isso, se alguém escreve pouco, deve ter boa memória; se confere pouco, muita sagacidade; se lê pouco, muita manha para afectar saber o que não sabe.

Francis Bacon in "Ensaios Civis e Morais"


o tempo permanece vestido de sol,
as cores equilibradas chegaram apoderando-se dos dias e
colocaram fora de controlo a vontade de excluir e erradicar da paleta
os cinzentos acumulados,
que caem ora apodrecidos

segunda-feira, 13 de julho de 2009



"O que me atrai nos brincos não é as mulheres terem-nos, é o momento em que os prendem na orelha, de queixo esticado e olhos vazios. A mesma expressão, aliás, ao procurarem as chaves na carteira. Parece que se ausentam. Depois voltam a estar ali ao rodarem a fechadura."

António Lobo Antunes

Aproveito o arco-íris e ensaio numa aguarela os contornos do teu corpo,
que defino em cores quentes,
e o meu talento é incapaz de reter outras cores que te descobri,
no silêncio intacto do meu olhar.

domingo, 12 de julho de 2009


trabalho é trabalho conhaque é conhaque

“- Será que o cão tem espírito?, perguntou-me o filho do meio. Olhei para ele surpreendido. E acabei por responder: - Não sei sequer se nós próprios temos espírito ou se é o espírito que nos tem ou está em nós. - É isso o que eu queria dizer. Olha para ele. Era um fim de tarde de Agosto, o cão estava parado frente ao mar, o pêlo muito luzidio, a cabeça levantada, narinas abertas, sorvendo o ar. - Ele está a cheirar o espírito. O espírito da terra, o espírito do vento, o espírito das águas.”

Manuel Alegre in "Cão como Nós"

sexta-feira, 10 de julho de 2009

sentados, ouviam ao longe o rumor contínuo do tempo. As mãos, juntas, em carícias mútuas, procuravam apaziguar qualquer contratempo

Cansei os braços
a pendurar estrelas no céu.
Destino dos fados lassos.
Tudo termina em cansaços
braços
e estrelas
e eu.

António Gedeão

quinta-feira, 9 de julho de 2009


Calçada da Bica Grande, Lisboa - foto flipvinagre

O nosso olhar tinha a lua como destinatária de uma inibição mútua e quando uma nuvem nocturna se colocou em frente dela, tapando o que nos tolhia os movimentos e o impulso interior, as nossas sombras prescindiram do luar para se tornarem mais próximas das estrelas

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

Miguel Torga
Sem a sensibilidade nenhum objecto nos seria dado; sem o entendimento nenhum seria pensado. Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas. Pelo que é tão necessário tornar sensíveis os conceitos (isto é, acrescentar o objecto na intuição), como tornar compreensíveis as intuições (isto é, submetê-las aos conceitos). Estas duas capacidades ou faculdades não podem permutar as suas funções. O entendimento nada pode intuir e os sentidos nada podem pensar. Só pela sua reunião se obtém conhecimento.»

Kant in Crítica da Razão Pura

escrevi-lhe assim: diz-me de que flor mais gostas e transformar-me-ei rapidamente no melhor fertilizante natural...não, isto é muito terra-a-terra, fica melhor assim, tornar-me-ei abelha para fabricar-te o mel de que tanto gostas, mas não, também não gosto, sei lá voar como uma abelha, vou tentar esta, adorava ser as pétalas que vais encostar ao nariz, ui, ao nariz, nada disto, sei lá o que ela tem no nariz, bem, só mais esta, se quiseres ir jantar telefona-me, ah, gostei, prática, directa e romântica nas entrelinhas
"Penso que não ter necessidades é coisa divina".

Sócrates

quarta-feira, 8 de julho de 2009


Calçada da Estrela, Lisboa - foto flipvinagre


Hoje, ao mergulhar naquela vaga já em pleno momento de sustentação, deixei os olhos abertos, propositadamente, e comprovei algo que um amigo me confidenciara. Há pequenas partículas do mar que se especializaram em fazer-nos cócegas, não são visíveis a olho nu, requerem uma vista apurada e uma sensibilidade fora do normal. Por isso crianças e adultos riem e divertem-se na praia, esquecendo tantas outras coisas desimportantes.

"Vi tanta gente curvada no cais...Tanta gente. Ocorreu-me, da minha varanda, novamente a ideia de os aeroportos, os portos e os cais serem, mais do que lugares de partida, lugares de desencontro. Um toque íntimo de destinos cruzados mas, no instante seguinte, a infinita distanciação das pessoas. Vi, nessa manhã, tanta gente curvada no cais. O dia começava, a manhã estava clara e fresca na sua inauguração. Mesmo assim toda aquela gente curvada. Crianças, sim, crianças. Os velhos sentados – conversando, olhando, esperando. Mas as pessoas que se moviam, estavam curvadas. A vida é pesada.”

Ondjaki in “E se amanhã o medo” (O Pássaro do Cais)
leio na imprensa que "Proibição das candidaturas duplas no PS não agradou
em nada à candidata à Câmara do Porto (...)" ou seja, à candidata Elisa Ferreira, que também foi candidata ao parlamento europeu, o mesmo acontecendo com Ana Gomes (igualmente candidata a dois lugares, câmara de Sintra e parlamento europeu).
O que me deixa intrigado, é não existirem neste ou noutro qualquer partido político, outros militantes que sejam candidatos àqueles lugares, porque o "sacrifício" teria que ser destas duas criaturas? A ser assim, eis que se tornava óbvio que só elas contavam para o dito partido, só elas poderiam arrastar os votos dos eleitores, os outros "camaradas" não possuiriam perfil para o efeito, ou, quiçá naquele partido, não exista mais gente capaz, sei lá, digo eu a pensar alto. Imagino os comentários internos...Haja pluralidade meus senhores, estimulem a diversidade, sempre os mesmos é de um egoísmo militante que até o eleitor indaga a valia do candidato ou a não-valia dos não candidatos e outras coisas mais...

terça-feira, 7 de julho de 2009


Ascensor da Bica, Lisboa - foto flipvinagre


Por vezes acalentamos esperanças sobre factos que desejamos que aconteçam e, em simultâneo, tememos a sua não realização. Voam em paralelo, lado a lado e só se acabam por desfazer quando e se um deles se concretiza. Mas isso pode ser evitado, se se viver sempre no presente. Compatível com a natureza humana? Não sei...

"Diz ele: «deixarás de ter medo quando deixares de ter esperança».
Perguntarás tu como é possível conciliar duas coisas tão diversas. Mas é assim mesmo, amigo Lucílio: embora pareçam dissociadas, elas estão interligadas. Assim como uma mesma cadeia acorrenta o guarda e o prisioneiro, assim aquelas, embora parecendo dissemelhantes, caminham lado a lado: à esperança segue-se sempre o medo. Nem é de admirar que assim seja: ambos caracterizam um espírito hesitante, preocupado na expectativa do futuro.
A causa principal de ambos é que não nos ligamos ao momento presente antes dirigimos o nosso pensamento para um momento distante e assim é que a capacidade de prever, o melhor bem da condição humana, se vem a transformar num mal. As feras fogem aos perigos que vêem mas assim que fugiram recobram a segurança. Nós tanto nos torturamos com o futuro como com o passado. Muitos dos nossos bens acabam por ser nocivos: a memória reactualiza a tortura do medo, a previsão antecipa-a; apenas com o presente ninguém pode ser infeliz!"

Séneca in 'Cartas a Lucílio'

olho para as ondas e para a espuma do mar com uma familiaridade aconchegante, no verão tornamo-nos mais íntimos, partilhamos as marés, o vai-e-vem ululante da rebentação, a mesma areia, as rochas, o calor do sol. Só as sombras serpenteantes que se projectam no fundo do mar fazem de mim um precário espectador da sua felicidade

segunda-feira, 6 de julho de 2009



O mundo é conduzido por loucos e ambiciosos, que só têm em mira o êxito e o lucro, estão-se nas tintas para as preocupações dos poetas, que são, como toda a gente sabe, seres da utopia, essa utopia sem a qual não há progresso

Eugenio de Andrade

Há dias em que só pactuo com o mar quando ele se esquece de recolher os seus pertences

a amizade mais pura está no abraço de uma criança