sábado, 19 de setembro de 2009


(...) Havia muito pouca luz, mas chegou-nos para conhecer o estilo de caça do capitão Tanifuji. Algumas vezes ouviu falar da caça de cavalos à australiana? É muito simples: procuram em helicópteros as manadas de cavalos selvagens e esperam a chegada da noite. Então, usam uns poderosos reflectores que os enlouquecem de medo, e os cavalos desatam a correr em círculos, sem se afastarem, enquanto os caçadores os metralham do ar.
Por isso é que Tanifuji esperou pelo helicóptero em Corcovado. E ali, na Grande Enseada, metralhava baleias, que acorriam curiosas ao chamamento dos reflectores.
Ao amanhecer, os japoneses continuavam a puxar para bordo baleias mortas. Vimo-los içar umas vinte, uma após outra, e tinham trabalhado toda a noite sem descanso, pelo que é impossível saber quantas mataram. A água da enseada fedia a sangue e flutuavam por toda a parte restos de pele.
Senti que estava a chegar ao fim de uma longa viagem. Já não me restavam mais infâmias para ver. (...)".

Luis Sepúlveda in "Mundo do fim do mundo"

Um livro extraordinário, que revolta os mais sensíveis e é ao mesmo tempo um apelo e um alerta para a delicadeza de preservarmos as espécies, afinal, também a nossa preservação. Um dia destes também embarco no Rainbow Warrior.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009


no Rossio, Lisboa - foto flipvinagre

admiro quem consegue...são os meus heróis

"Elegância á a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir"

Paul Valery

quinta-feira, 17 de setembro de 2009


Queen Mary 2 na doca de Alcântara, Lisboa, hoje - foto flipvinagre
na ilha do Mussulo, Luanda, Angola (recebido por email)

CREPUSCULAR

A incerteza cai com a tarde
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da
angústia. Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco de ondas
na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro
com o verso, prendo-o à frase,
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma.


Nuno Júdice

quarta-feira, 16 de setembro de 2009


olhou para a página em branco, preparava-se para escrever mas...nada, nem uma ideia do que dizer, ademais já tinha escrito recorrendo à lua, ao sol, ao vento, a própria espuma do mar já tinha abrilhantado uma ou outra peça, as ondas do mar já tinham rebentado não sei quantas vezes, o amanhecer e o escurecer já estavam por demais exauridos, enfim(!), nada, nesta recapitulação breve nada lhe sugeria nada, estava vazio para escrever fosse o que fosse e então foi descansar, na página em branco escreveu, apenas, Até Amanhã, ao menos ficava registada uma esperança, o dia seguinte pode mudar tanta coisa...
shadow of past (mujimasa)/ sombras do passado (mujimasa)

no Cais do Sodré, estátua ao Duque da Terceira - Lisboa - foto flipvinagre

imagem do pôr-do-sol em Luanda/Angola (recebida por email)


propuseram-se partilhar o pôr-do-sol juntos e, encantados, permaneceram naquele lusco-fusco subsequente mergulhados num arfar de batimentos acelerados, só a lua foi testemunha daqueles dois corpos incandescentes


"Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, na contemplação do arco de um saguão e da cancela; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num trio de professores ou num dicionário biográfico. Agra dam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o sabor do café e a prosa de Stevenson; o outro comunga dessas preferências, mas de um modo vaidoso que as converte em atribu tos de um actor. Seria exagerado afirmar que a nossa relação é hostil; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Não me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o bom já não seja de alguém, nem sequer do outro, mas da linguagem ou da tradição. Quanto ao mais, estou destinado a perder-me definitivamen te, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco vou-lhe cedendo tudo, ainda que me conste o seu perverso hábito de falsificar e magnificar. Espinosa entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra, e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros do que em muitos outros ou no laborioso toque de uma viola. Há anos tratei de me livrar dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e tudo perco, tudo é do esquecimento ou do outro. Não sei qual dos dois escreve esta página."

Jorge Luis Borges in "O fazedor"

terça-feira, 15 de setembro de 2009


em Cascais - foto flipvinagre

"A diferença entre uma pessoa e um anjo é muito simples. A maior parte do anjo está por dentro e a maior parte da pessoa está por fora."

Fynn in "Ana e o Tio Deus"


procurei-te um olhar de concordância mas foi o Sol o aliado que me deixou perceber-te a expressão que te procurava, o teu piscar de olhos desceu para os lábios e o teu sorriso deu o impulso certo à minha coragem

segunda-feira, 14 de setembro de 2009


aguarela de Óbidos - foto flipvinagre


O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de reanimação. Há uma enfermeira ao seu lado. E pergunta se correu tudo bem.
- Tudo perfeito - diz a enfermeira, sorrindo.
- Eu estava com medo desta operação...
- Por quê? Não havia risco nenhum.
- Comigo, há sempre risco. A minha vida tem sido uma série de enganos...
E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca de bebés no berçário e foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o facto de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, foi viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois de ela não saber explicar o nascimento de um bebé chinês.
- E o meu nome? Outro engano.
- Seu nome não é Lírio?
- Era para ser Lauro. Enganaram-se no cartório e...
Os enganos sucediam-se. Na escola, vivia a ser castigado pelo que não fazia. Fizera o secundário com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador enganara-se e o seu nome nunca apareceu na lista.
- Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de mil euros.
- O senhor não faz chamadas interurbanas?
- Eu não tenho telefone!
Conhecera a sua mulher por engano. Ela confundiu-o com outro. Não foram felizes.
- Por quê?
- Ela enganava-me.
Foi preso várias vezes, também por engano. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando uma vez ouvira o médico dizer:
- O senhor desta não se safa.
Mas foi também um erro do doutor. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.
- E se a senhora enfermeira me diz que a operação correu bem...
A enfermeira parou de sorrir.
- Apendicite? - perguntou ela hesitante…
- Sim. A operação era para tirar o apêndice.
- Não era para trocar de sexo?

Luís Fernando Veríssimo, in “Comédias para se Ler na Escola”, 2001

Scarlett Johansson



"Ganham-se mais batalhas com o sorriso do que com a espada."
William Shakespeare

domingo, 13 de setembro de 2009


na Calçada da Estrela, Lisboa - foto flipvinagre

"A educação tem raízes amargas, mas os frutos são doces".
Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.)



"Estou pouco preparada para a reflexão, mas nas últimas semanas dei comigo a reflectir sobre o meu passado com tal frequência que só pode explicar-se como um sinal de senilidade prematura. Dois acontecimentos recentes desencadearam esta epidemia de recordações. 0 primeiro foi uma observação ocasional do meu neto Alejandro, o qual me surpreendeu a esquadrinhar diante do espelho o mapa das minhas rugas e disse, compassivo: «Não te preocupes, velha, vais viver pelo menos mais três anos». Decidi nesse momento que tinha chegado a hora de olhar a minha vida de modo diferente, para averiguar como desejo conduzir esses três anos que tão generosamente me foram concedidos. 0 outro acontecimento foi a pergunta de um desconhecido durante uma conferência de escritores de viagens, que me coube inaugurar. Devo esclarecer que não pertenço a esse estranho grupo de pessoas que viaja para lugares remotos, sobrevive às bactérias e publica livros para convencer os incautos a seguirem os seus passos. Viajar é um esforço excessivo, e mais ainda a lugares onde não haja serviço de quartos. Sei alguma coisa de viagens e por isso me pediram que falasse naquela conferência. Quando terminei o meu breve discurso, levantou-se um braço e um jovem perguntou-me qual o papel da nostalgia nos meus romances. Fiquei momentaneamente sem palavras. Nostalgia, segundo o dicionário é «a dor de estar ausente da pátria, a melancolia provocada pela recordação de uma felicidade perdida». A pergunta cortou-me a respiração, porque até esse instante não me tinha dado conta de que escrevo como um exercício constante de saudade. Fui estrangeira durante quase toda a minha vida, condição que aceito porque não tenho alternativa. Várias vezes me vi forçada a partir, rompendo laços e deixando tudo para trás, para começar de novo noutro lugar; fui peregrina por mais caminhos do que os que a memória me consente. De tanto me despedir secaram-se-me as raízes e tive de gerar outras que, à falta de um lugar geográfico onde se fixarem, o fizeram na memória. Mas, cuidado! A memória é um labirinto onde espreitam minotauros."

Isabel Allende, 0 Meu País Inventado

sábado, 12 de setembro de 2009


«cartões vermelhos»

Eis que a Luísa, gentilmente, se lembrou de mim e me lançou um desafio, o de indicar quem ou o que, se tal pudesse, expulsaria do «jogo» («uma pessoa, uma atitude, enfim, tudo aquilo que, de alguma forma, nos incomoda»), afinal, aquilo que mais me repudia ou que, podendo, irradicaria da face do planeta. Ei-los(10):

- cartão vermelho a toda e qualquer forma de opressão do homem
- cartão vermelho à prepotência
- cartão vermelho à violência
- cartão vermelho à arrogância
- cartão vermelho ao racismo
- cartão vermelho ao egoísmo
- cartão vermelho ao oportunismo
- cartão vermelho ao arrivismo
- cartão vermelho à irresponsabilidade
- cartão vermelho à corrupção.

Passo esta corrente a todos os que, lendo este desafio, assim o considerem e se dignem publicar outros tantos cartões vermelhos, querendo.


A arte é longa, a vida é breve, a experiência enganadora, o juizo difícil.

'Hipócrates'


"Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro» dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele. A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos “ricos”. Aquilo que têm, não detêm. Pior, aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados.

Necessitariam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por os lançar a eles próprios na cadeia. Necessitariam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem.

O maior sonho dos nossos novos-ricos é, afinal, muito pequenito: um carro de luxo, umas efémeras cintilâncias. Mas a luxuosa viatura não pode sonhar muito, sacudida pelos buracos das avenidas. O Mercedes e o BMW não podem fazer inteiro uso dos seus brilhos, ocupados que estão em se esquivar entre chapas muito convexos e estradas muito côncavas. A existência de estradas boas dependeria de outro tipo de riqueza Uma riqueza que servisse a cidade. E a riqueza dos nossos novos-ricos nasceu de um movimento contrário: do empobrecimento da cidade e da sociedade.

As casas de luxo dos nossos falsos ricos são menos para serem habitadas do que para serem vistas. Fizeram-se para os olhos de quem passa. Mas ao exibirem-se, assim, cheias de folhos e chibantices, acabam atraindo alheias cobiças. O fausto das residências chama grades, vedações electrificadas e guardas privados. Mas por mais guardas que tenham à porta, os nossos pobres-ricos não afastam o receio das invejas e dos feitiços que essas invejas convocam.

Coitados dos novos ricos. São como a cerveja tirada à pressão. São feitos num instante mas a maior parte é só espuma. O que resta de verdadeiro é mais o copo que o conteúdo. Podiam criar gado ou vegetais. Mas não. Em vez disso, os nossos endinheirados feitos sob pressão criam amantes. Mas as amantes (e/ou os amantes) têm um grave inconveniente: necessitam ser sustentados com dispendiosos mimos. O maior inconveniente é ainda a ausência de garantia do produto. A amante de um pode ser, amanhã, amante de outro. O coração do criador de amantes não tem sossego: quem traiu sabe que pode ser traído.

Os nossos endinheirados-às-pressas não se sentem bem na sua própria pele. Sonham em ser americanos, sul-africanos. Aspiram ser outros, distantes da sua origem, da sua condição. E lá estão eles imitando os outros, assimilando os tiques dos verdadeiros ricos de lugares verdadeiramente ricos. Mas os nossos candidatos a homens de negócios não são capazes de resolver o mais simples dos dilemas: podem comprar aparências, mas não podem comprar o respeito e o afecto dos outros. Esses outros que os vêem passear-se nos mal-explicados luxos. Esses outros que reconhecem neles uma tradução de uma mentira. A nossa elite endinheirada não é uma elite: é uma falsificação, uma imitação apressada.

A luta de libertação nacional guiou-se por um princípio moral: não se pretendia substituir uma elite exploradora por outra, mesmo sendo de uma outra raça. Não se queria uma simples mudança de turno nos opressores. Estamos hoje no limiar de uma decisão: quem faremos jogar no combate pelo desenvolvimento? Serão estes que nos vão representar nesse relvado chamado “a luta pelo progresso”? Os nossos novos ricos (que nem sabem explicar a proveniência dos seus dinheiros) já se tomam a si mesmos como suplentes, ansiosos pelo seu turno na pilhagem do país.

São nacionais mas só na aparência. Porque estão prontos a serem moleques de outros, estrangeiros. Desde que lhes agitem com suficientes atractivos irão vendendo o pouco que nos resta. Alguns dos nossos endinheirados não se afastam muito dos miúdos que pedem para guardar carros. Os novos candidatos a poderosos pedem para ficar a guardar o país. A comunidade doadora pode irás compras ou almoçar à vontade que eles ficam a tomar conta da nação. Os nossos ricos dão uma imagem infantil de quem somos. Parecem criancas que entraram numa loja de rebuçados. Derretem-se perante o fascínio de uns bens de ostentação.

Servem-se do erário público como se fosse a sua panela pessoal. Envergonha-nos a sua arrogância, a sua falta de cultura, o seu desprezo pelo povo, a sua atitude elitista para com a pobreza. Como eu sonhava que Moçambique tivesse ricos de riqueza verdadeira e de proveniência limpa! Ricos que gostassem do seu povo e defendessem o seu país. Ricos que criassem riqueza. Que criassem emprego e desenvolvessem a economia. Que respeitassem as regras do jogo. Numa palavra, ricos que nos enriquecessem. Os índios norte-americanos que sobreviveram ao massacre da colonização operaram uma espécie de suicídio póstumo: entregaram-se à bebida até dissolverem a dignidade dos seus antepassados. No nosso caso, o dinheiro pode ser essa fatal bebida. Uma parte da nossa elite está pronta para reallzar esse suicídio histórico. Que se matem sozinhos. Não nos arrastem a nós e ao país inteiro nesse afundamento."

Mia Couto in SAVANA

na Tv. dos Teatros, Lisboa - foto flipvinagre

o chocolate... não lhe posso dizer NÃO


"Parece-me ouvir um piano e não há piano algum aqui. Notas soltas, lentas, nem tristes nem alegres: distraídas. Notas como passinhos de criança, à procura. Por instantes julgo que me procuram a mim até entender que não procuram ninguém. Sucedem-se umas às outras de acordo com um código misterioso, revelando um segredo que não entendo. Percebo tão pouco da vida: quase tudo se me afigura misterioso, os estalos dos móveis, a quietude dos objectos, a maneira de viver das pessoas. O que esperam, o que querem, o que desejam ainda? Certos olhares, certos sorrisos. Mesmo em grupo, a conversar, afiguram-se-me sozinhas. À noite espreito o interior das casas: sofás, quadros, uma mulher a arrumar pratos num armário numa elegância de gestos que me comove. Um sujeito que passa por mim a tilintar chaves, distraído. Automóveis estacionados ao longo do passeio, vazios com esse ar terrivelmente quieto das coisas que se mexem quando não se mexem. Uma rapariga a passear o cão com uma trela que aumenta e diminui. Dois garotos pretos a rirem-se ao longe. E o piano a teimar. As notas mais complicadas agora, mais rápidas. Não há dúvida: é um piano e está aqui comigo embora não o veja."

António Lobo Antunes

pergunto, perguntamos, sigo perguntando, umas vezes encontrando, a grande maioria não, nada a fazer excepto viver, assim, de pergunta em pergunta ou de falta de respostas, há quem viva trabalhando a fórmula da pergunta e quem prescinda da resposta, este último anda por andar, não quer perder mas também não quer ganhar, questionar-se-à qual deles com a melhor atitude(?), não sei, deixa andar...

sexta-feira, 11 de setembro de 2009


baixa de Lisboa numa manhã de chuva - foto flipvinagre