
domingo, 31 de janeiro de 2010


“Esta noite me sento na varanda, sob o céu estrelado. Sob o céu, não. Estou, sim, entre o céu. O firmamento está à mão de semear, respiro devagar com receio de desarrumar constelações”.
(...)
“Perseguida pelo medo da velhice, deixei envelhecer a nossa relação. Ocupada em me fazer bela, deixei escapar a verdadeira beleza, que apenas mora no desnudar do olhar. O lençol esfriou, a cama se desaventurou. Esta é a diferença: a mulher que encontraste aí, em África, fica bela apenas para ti. Eu ficava bela para mim, que é um outro modo de dizer: para ninguém.
É isso que essas negras têm que nunca podemos ter: elas são sempre o corpo inteiro. Elas moram em cada porção do corpo. Todo o seu corpo é mulher, todo o seu tempo é feminino. E nós, brancas, vivemos numa estranha transumância: ora somos alma ora somos corpo. Acedemos ao pecado para fugir do inferno. Aspiramos à asa do desejo para, depois, tombarmos sob o peso da culpa.”
(...)
“ – És parecida com a terra. Essa é a tua beleza.
Era assim que dizias. E quando nos beijávamos e eu perdia respiração e, entre suspiros, perguntava: em que dia nasceste? E me respondias, voz trémula: estou nascendo agora. E a tua mão ascendia por entre o vão das minhas pernas e eu voltava a perguntar: onde nasceste? E tu, quase sem voz, respondias: estou nascendo em ti, meu amor. Era assim que dizias. Marcelo, tu eras um poeta. Eu era a tua poesia. E quando me escrevias, era tão belo o que me contavas que me despia para ler as tuas cartas. Só nua eu te podia ler. Porque te recebia não em meus olhos, mas com todo o meu corpo, linha por linha, poro por poro.”
Mia Couto in Jesusalém (extractos)
e muito mais, um livro excelente, dos melhores de Mia.
sábado, 30 de janeiro de 2010

Stefan Klein
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Para rir(?):
No "JN" - Bin Laden preocupado com aquecimento global
" Todas as nações industrializadas, particularmente as grandes nações, são responsáveis pelo sobreaquecimento climático", disse Usama bin Laden nesta nova mensagem áudio, a segunda em cinco dias, segundo a televisão por satélite do Qatar."
preocupações ambientais...
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Eis uma ficha de emprego preenchida por um jovem candidato no McDonalds no Rio de Janeiro. A empresa contratou-o por ter considerado a ficha honesta e engraçada. Serve também para se observar a quantidade de perguntas cretinas que são feitas ao candidato.Ficha de Emprego
NOME:
Júlio da Silva Moura
SEXO:
Duas vezes por semana.
CARGO DESEJADO:
Presidente ou vice-presidente da Companhia. Falando sério, qualquer um que esteja disponível. Se eu estivesse em posição de escolher, eu não estaria me inscrevendo aqui.
SALÁRIO DESEJADO:
R$ 15.000,00 por mês e todos os privilégios existentes. Se não for possível, façam uma oferta e poderemos chegar a um acordo.
EDUCAÇÃO:
Tenho.
ÚLTIMO CARGO OCUPADO:
Alvo de hostilidade da gerência.
ÚLTIMO SALÁRIO:
Menos do que mereço.
MAIS IMPORTANTE META ALCANÇADA NO ÚLTIMO EMPREGO:
Uma incrível coleção de canetas roubadas e de mensagens por e-mail.
RAZÃO DA SAÍDA DO ÚLTIMO EMPREGO:
Era um lixo.
HORÁRIO DISPONÍVEL PARA O TRABALHO:
Qualquer um.
HORÁRIO PREFERIDO:
Das 13:30h às 15:30h, segundas, terças e quintas.
VC TEM ALGUMA QUALIDADE ESPECIAL?
Sim, mas é melhor se ela for colocada em prática em ambientes mais íntimos.
PODEMOS ENTRAR EM CONTATO COM SEU ATUAL EMPREGADOR?
Se eu tivesse algum, eu estaria aqui ?
VC TEM ALGUMA CONDIÇÃO FÍSICA QUE O PROÍBA DE LEVANTAR PESOS DE AT 25kg?
25 kg de quê?
VC POSSUI CARRO?
Eu acho que a pergunta mais apropriada seria: Você tem um carro que funciona?
VC JÁ RECEBEU ALGUM PRÊMIO OU MEDALHA DE RECONHECIMENTO?
Talvez. Eu já fui um ganhador da Porta da Esperança.
VC FUMA ?
No trabalho não, nos intervalos sim.
O QUE VC GOSTARIA DE ESTAR FAZENDO EM CINCO ANOS?
Vivendo nas Bahamas, com uma super modelo loura, incrivelmente rica, burra, sexy e que pensa que eu sou a melhor coisa que surgiu desde a invenção do pão de forma. Na verdade, eu gostaria de estar fazendo isso agora.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
ele há dias que realmente uma pessoa não deve sair de casa, ir à janela, diria mesmo que não se pode mexer.segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Nunca vou ao fim das coisas. Tudo começa. Nada acaba. Eu não deixo. No meu sonho, tudo continua, tudo se repete, mesmo que seja preciso interrompê-las de vez em quando. Tenho medo que acabem. Porque é que se hão-de levar as coisas ao fim?
Amo o incompleto, o suspenso, o atravessado, o interrompido. Os fins entristecem-me. Viver as coisas até ao fim é matá-las.
E trocá-las por outras novas é traí-las. Melhor trazê-las sempre, duvidosas e imprevisíveis mas ainda gostadas e presentes.
Se acabo um livro, sinto-me derrotado, fico deprimido, queria que continuasse, e não continua. Reler não é a mesma coisa. Lembrar não é tão bom como viver. Mas é melhor do que matar. Repugna-me a ideia das relações humanas que se «esgotam». Faz lembrar esgotos. Como se um sentimento se pudesse despachar. É preferível abandonar a pessoa que se ama e guardar o amor que se tem por ela a segui-la até à saciedade.
As pessoas namoram e ficam casadas até se odiarem. Os amigos convivem de mais e começam a chatear-se. As famílias passam tempo de mais juntas, até descobrirem todos os defeitos de cada uma. Dir-se-ia que as pessoas não suportam ter o coração dependente e então cansam- -no propositadamente, para se verem livres do sentimento verdadeiro e bom que sentiam.
Porque é que as pessoas que querem ser livres, independentes e tudo o mais, são aquelas que mais mal aguentam a solidão? Porque, para o mal e para o bem, habituaram-se a uma companhia constante. Não percebem que as saudades, os desejos nunca realizados, os sonhos que ficaram suspensos, são a melhor companhia (embora também a mais triste) que se pode ter?
Nunca se deve conhecer nada a fundo. Não falando na pretensão de pensar que se pode conhecer. Quando se diz «Conheço-o como as palmas das minhas mãos», há sempre uma insinuação feia e negativa. As pessoas, quando estão tristes ou mal-dispostas, não deveriam expor- -se. É uma falta de respeito pelos outros.
Deve-se ser turista nas coisas do amor. Conservar o deslumbramento. Fechar os olhos quando desmorona a fachada. A intimidade verdadeira é partilhar a descrença na ilusão. Um navio visto ao longe. A lua. Os microscópios são detestáveis. Quem quer conhecer os segredos da casa das máquinas ou a superfície das estrelas? Não é por se estar mais próximo que se está mais próximo da verdade. A verdade é aquilo em que acreditamos.
Quem acredita ainda na distinção entre conhecimento e fé? Porquê provocar, remexer no passado, fazer perguntas? É como se as pessoas quisessem destruir o que as comove. É esse o sentido da frase de Wilde, que cada pessoa mata aquilo que ama. E tudo o que ele diz sobre a superfície é profundo. Não é só horrendo saber a «verdade» sobre James Dean ou Marilyn Monroe " é um engano arrogante. As coisas também se percebem, também se amam, à distância.
(...)
Em boa verdade, eu não sei por que é que um pássaro voa, nem quero saber. Voar já é tanto. Explicar o voo morfologicamente é reduzi--lo, é fazê-lo aterrar. O que é banal para o pássaro tem de continuar a ser maravilhoso para nós. Walt Disney é uma coisa. A biologia e as técnicas de animação são outras.
Gosto das primeiras impressões, sobretudo quando se vão repetindo ao longo dos tempos. Odeio e evito as descobertas, género «Descobri que Fulano era afinal um malandro». Este afinal, com o seu tom peremptório e arrogante, como se fosse possível definir definitivamente um ser humano, irrita-me. É um acto de amizade não estar sempre a vasculhar e a reinterpretar os amigos. Toda a gente sabe que as pessoas são polifacetadas " mas porque não restringirmo-nos à faceta que conhecemos de que mais gostamos?
A vida é muito complicada e o nosso coração precisa de simplificá--la, sem ter medo de se «enganar». É preciso resistir à curiosidade e à arrogância. Conhecer deveria ser só o primeiro passo.
Miguel Esteves Cardoso (excerto)
sábado, 23 de janeiro de 2010

A Coreia do Sul tem uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo, inferior mesmo á doJapão, cuja população é das mais envelhecidas do mundo.
O envelhecimento da população leva ao declínio da força de trabalho e, ainda, ao aumento dos gastos com a saúde.
O ministro da Saúde daquele país é o responsável pela tarefa de aumentar a natalidade e pretende dar o exemplo com os seus próprios funcionários. Até já há quem brinque com a situação e lhe chame “o ministro do encontro de casais”, informa a BBC.
Segundo a imprensa sul-coreana, o governo de Seul está a avaliar outras medidas de incentivo à natalidade."
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
será? não tenho a certeza de nada, sei, apenas, que vamos vivendo o momento que vai passando, o tempo que corre, tudo além disso é mera especulação, garanta-se o melhor no enquanto, logo é mais tarde, ninguém dele sabe coisa alguma, amanhã? o amanhã é a espuma da onda que ainda não beijou a areia da praia, a maré pode nem favorecer o acontecimento, eis então o lamento, esquece pois o amanhã, vive o momento.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
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"Nada indica melhor o carácter dos homens do que aquilo que eles consideram ridículo.
O ridículo resulta de um contraste moral apercebido de maneira inofensiva pelos sentidos.
O homem que vive pelos sentidos ri-se muitas vezes, quando não há razão para rir. Seja o que for que o excite, a sua satisfação interior manifesta-se.
O homem dotado de entendimento acha quase tudo ridículo, o homem dotado de razão, quase nada."
Goethe - As afinidades electivas

viver em condomínios tem, por vezes, alguns episódios interessantes. Por cima de mim vivem mãe e filha, ambas mulheres atraentes e muito educadas, diria, até, que aparentam alguma inocência mas não, não afirmo nem confirmo essa qualidade. Sim,basta, não gosto de especular sobre isso, enough! Mas voltemos ao que ia contar. No meu pátio, por vezes, elas deixam cair as cuequinhas fio dental as quais devolvo recebendo em troca um sorriso (malicioso? malandro? inocente? sei lá...). Porém, desta última vez, como não as vi à janela ou na varanda, coloquei as duas cuequinhas na caixa de correio, okay, estavam entregues. Cerca da uma da tarde fui recolher o meu ‘mail’ e encontro no hall o meu vizinho do 1º andar direito e que vive ao lado delas. Ele também ia levantar o seu correio. De repente, vejo-o olhar com grande surpresa para as cuequinhas que lá tinha colocado, obviamente eu enganei-me e desatei a rir porque a cara do velho galego, viúvo, de cerca de 70 anos, era de total confusão e admiração. Olhou para mim e perguntou-me ‘o que é isto’? Eu, que ria por todos os lados, tive que lhe contar a verdade, ainda estive para brincar com ele no meu espanhol de algibeira – entonces hein(?) señor Pepe, que usted los vestia no lo sabia de todo! Mas não o fiz, fiquei-me pela intenção, um episódio de boa disposição. A ver se conto o sucedido às duas.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A poesia está guardada nas palavras – é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não entender quase tudo.(...)
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não cultivo conexões com o real.
Para mim, poderoso não é aquele que descobre ouro,
Poderoso para mim é aquele que descobre as insignificâncias: (do mundo e nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei muito emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.
MANOEL DE BARROS in O Encantador de Palavras














