sexta-feira, 13 de novembro de 2009


Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo óptico. A imagem objectiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas dilectas. Os certos casos em que acima se modifica a generalidade da definição vêm a ser aqueles em que o bom senso não pode atinar com o porquê dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes e estúpidas que nos enchem de espanto, quando nos não fazem estoirar de inveja.
E tanto mais se prova a referida depravação do nervo que preside às funções da vista quanto a alma da pessoa enferma, vítima de sua ilusão, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e méritos que o mais digno homem requestaria com orgulho.

Camilo Castelo Branco, in 'Coração, Cabeça e Estômago'

4 comentários:

Luísa disse...

O Camilo, Flip, tem as mais extraordinárias – e divertidas – explicações naturalistas para os fenómenos do coração. :-D

Flip disse...

ao tempo que não lia Camilo, Luísa, gosto imenso dos nossos 'clássicos', de vez em quando sabe bem recapitular :-)

Je Jé disse...

Este pequeno lembrete do Camilo leva a um julgamento no sentido oposto ao que normalmente aparece quando o assunto é O Amor. À semelhança do Mia, este pequeno lembrete apresenta uma fluidez de certo modo truncada, e, ao se falar de amor vejo aí indícios de preconceito além da falta de consideração e seriedade com que normalmente tratamos o assunto. Amor tem requerido a vida e a atenção de filósofos de todos os tempos. As mitologias primam por levar o assunto além do espaços d'um homem cruzar com uma mulher e d'uma mulher saciar-se com um homem. Sem margem para outros sexos que a modernidade faz crer existirem. Sem margem para se usar o amor para a guerra, como parece ter feito em 2003 o Prof. Harry Gordon Frankfurt e suas palestras pela europa afim de obter endossos à guerra no Iraque.
A modernidade faz-me acreditar que n'O Amor assentará a ausência total do estado, preconizada por Karl Marx. O estado começará a ser eliminado já a partir de nossos netos. A seguir os passos da Mãe, minha filha alcançará a idade apropiada para procriar daqui a uns sete ou oito anos.

Flip disse...

Jejè,
acho que tens toda a razão, o brilhantismo das tuas doutas conclusões assim me faz decidir, O Amor transcende estados, transcende o que quer que seja
abração